sexta-feira, 1 de junho de 2012

José Mário Branco e o Chant en Exil


Há dias estava a fazer um post sobre as várias versões da canção “Grandola Vila Morena” (Aqui) e descobri um vídeo do José Mário Branco a cantar a Grândola, que eu desconhecia. Fui ver ao youtube e existe um erro, no vídeo;  José Mário Branco canta (pela 1ª vez) “A Cantiga é uma Arma”, uma das canções de luta mais célebres do pós 25 Abril e não a Grândola. Nas informações do video falava-se de um documentário de nome "Chant en Exil", nunca concluído e que tinha sido restaurado. A associação Espace, (ver aqui) é quem está a desenvolver este projecto e espera encontrar algumas pessoas que entram no documentário, para que possam contar a história de suas vidas desde 1973, para poder ser mostrado em 2014, quando dos 40 anos do 25 Abril. Falei com o José Mário Branco e ele deu-me algumas informações sobre esse documentário e então decidi fazer este post para memórias futuras.



 José Mário Branco canta (pela 1ª vez) “A Cantiga é uma Arma”

A "estreia mundial" de "A cantiga é uma arma", no verão de 1973 na Cartoucherie de Vincennes (sede do Théâtre du Soleil da Ariane Mnouchkine). Este é o titulo que o video devia ter: José Mário Branco canta (pela 1ª vez) “A Cantiga é uma Arma”.


Em 1973, José Mário Branco andava a colaborar com o cineasta francês Dominique Dante, que neste site é indicado como tendo falecido em 2007 (será verdade?), num filme sobre migrações, neste caso portuguesas, que nunca foi acabado. Também em 1973, realizou-se um festival chamado Jogos Florais da Emigração Portuguesa, organizado pelo jornal "O Emigrante" que era editado e controlado pelo célebre Heduíno Vilar e o seu PCP-ML. Esse festival realizou-se no verão de 1973 na Cartoucherie de Vincennes (sede do Théâtre du Soleil da Ariane Mnouchkine), e algumas das filmagens do documentário terão sido aí.


"No Verão de 1973 foi convidado para participar nos "Jogos Florais da Emigração Portuguesa", organizados pelo jornal O Emigrante, ligado ao PCP(ML) de Eduíno Vilar e que tiveram lugar na Cartoucherie de Vincennes, um antigo convento ainda hoje sede do "Théâtre du Soleil", de Ariane Mnouchkine. Durante vários dias, e em diferentes salas, realizaram-se diversos espectáculos de teatro, música e leituras, com gente que veio de núcleos da emigração de toda a Europa: sobretudo da França, da Bélgica, a Holanda, da Suíça, da Suécia e da Alemanha. José Mário Branco participou como concorrente ao concurso de canções dos jogos, expressamente para esse efeito, compôs «A cantiga é uma arma». Só que, na véspera, foi ao Organon e, com Mário Jorge Bonito, policopiou a letra que foi distribuída pelo público pouco antes de entrar em palco. Quando cantou pela segunda vez o refrão, «A cantiga é uma arma / eu não sabia / tudo depende da bala / e da pontaria...», tinha duas mil pessoas a cantarem com ele. No fim, nos bastidores, Eduíno Vilar chamou-o ao lado e disse-lhe: «A tua cantiga é porreira, as pessoas apanharam-na à primeira, mas eu já estive a falar com o júri, tu não podes ter o primeiro prémio. Eles queriam dar-te o primeiro prémio mas eu opus-me, porque um verdadeiro revolucionário não pode dizer «eu não sabia»."  (José Mário Branco em, rateyourmusic.com)


O emigrante João Alves Escudeiro, contador de histórias, entrevistado por José Mário Branco para o documentário "Chant en exil", de Dominique Dante á entrada de um "bidonville em 1973, talvez o de Saint-Dennis.


Identificação das fotos extraidas do documentário inacabado "Chant en Exil", feita com a colaboração 
de José Mário Branco


 José Mário Branco e Francisco Fanhais (padre Fanhais) cantando juntos, em local desconhecido, mas terá sido nesses dias do festival de 1973.

Adelino Gomes entrevista um dirigente associativo de emigrantes, na presença de José Mário Branco, na Cartoucherie de Vincennes do Théâtre du Soleil, no tal festival de 1973. Pode ver-se "1789" por cima de uma porta, atrás do Adelino Gomes, que foi um célebre espectáculo desse grupo.

José Mário Branco junto de pessoa desconhecida, no tal festival de 1973 e José Mário Branco e Francisco Fanhais cantando juntos com essa pessoa a acompanhá-los. Pensou-se que podia ser um músico chamado Luís Pedro Faro mas, mandou-se um mail a ele e não é.

Manuel Freire,  nesses dias do festival de 1973.

José Mário Branco: “esse rapaz que está comigo andava a assessorar o Dominique Dante (realizador) no filme; lembro-me perfeitamente dele, (mas não tenho a certeza) creio que se chama Júlio Henriques, era de Braga, e creio que foi o escritor e ensaísta que, já em Portugal nos anos '80,  fundou uma pequena editora alternativa chamada "Fenda”.

José Mário Branco: “Entrevista colectiva com o Adelino Gomes, creio que no contexto dos Jogos Florais de 73; da esquerda para a direita, eu, o tal rapaz parecido com o  Luís Pedro Faro, o Manuel Freire, o Fanhais e o Adelino
José Mário Branco:  "Creio que é o José Maria Machado, um dos raros elementos do partido do Heduino Vilar e do  Jornal do Emigrante com quem eu me dava bem; o Zé Machado voltou logo no 25 de Abril e juntou-se, tal como eu, ao grupo do Francisco Martins Rodrigues que viria a fundar a UDP; ele era natural de Fafe e teve um papel importante na (difícil) organização da UDP no norte do país; curiosidade: foi a ele que eu ofereci o meu carro da altura, um velho Citroen-Diane azul claro, para o seu trabalho politico; foi responsável pelo nosso movimento em Braga, depois em Viana, depois chegou a ser do CC do PCP(R); depois soube que se tinha afastado (ou sido afastado) e que tinha aberto um restaurante em Caminha ou Vila Praia de Âncora; morreu muito novo, creio que do coração.

Gil Nave, um dos elementos de um grupo de teatro português na Bélgica, (creio que ganhou o concurso de teatro; JMB), que também participaram no festival de 1973, dos outros não se sabe o nome, excepto José Maria Machado. (Nunca mais vi o Gil Nave, fui sabendo que se tornara professor universitário, salvo erro em Évora; JMB). Um amigo anónimo diz que esta pessoa não é o Gil Nave mas, sim o José António que ensaiava na Holanda, fica a possível rectificação. Obrigado.

Álvaro Vasconcelos; O Carriço, braço direito de Heduino Vilar. Estes dois eram do PCP-ML, que mais tarde daria a "AOC" que ficou conhecida pela sua frase da altura do PREC; "cada voto na AOC é uma espinha cravada na garganta de Cunhal"; ficaram também conhecidos por serem o único partido político que depois do 25 de Abril manteve durante vários anos um relacionamento institucional com o Partido Comunista da China. 

Heduino Gomes que se fazia chamar Heduino Vilar e que durante anos não teve o "H"; converte-se anos depois ao cristianismo e adere ao PSD, onde desempenha funções importantes, com Mota Pinto; depois foi empresário musical da mulher, a cantora Ana Faria, dos "Onda Choc" e dos "Queijinhos Frescos" (ou ainda é?). "Hoje em dia luta para “defender a civilização ocidental dos bárbaros contemporâneos”. Acusa Pedro Passos Coelho de ser “integralmente inimigo dos valores da civilização e da coesão nacional”. E não perdoa a Cavaco que “promulga sem tossir as leis abjectas contra os valores da família natural e da vida – aborto e chamados ‘casamentos’ entre invertidos”. (In, da.ambaal.pt).

Álvaro de Vasconcelos, "O Carriço" (o «de» creio que é recente), foi definido por alguém como "o estrategista das guerras alheias". Nas biografias deste Álvaro não aparece nenhuma referencia aos anos da revolução; a coisa foi bem limpa. Segundo a Wikipédia; foi director da União Europeia Instituto de Estudos de Segurança desde maio de 2007 (não sei se ainda é). Antes disso, ele dirigiu o Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais (IEEI) em Lisboa, da qual ele é co-fundador, de 1981 a 2007, onde ele lançou várias redes, incluindo a Euro-Latino-Americana Fórum e EuroMeSCo. Álvaro de Vasconcelos é um Cavaleiro da Ordem da Légion d'Honneur (França) e Comendador da Ordem do Rio Branco (Brasil). Com presença assídua na imprensa internacional. Álvaro de Vasconcelos participa também regularmente como orador convidado em várias conferências. Esta parte já não é da Wikipédia; Trata-se  de um dos chamados "passarões" (podíamos até o chamar de Javier Solana cá do burgo), que aparecem nos media a transmitir recados e a "explicar" o que se passa no mundo. Uma pergunta que se coloca é se estes dois ainda terão ligações à China?.





4 comentários:

  1. Existe um erro nas fotos acima onde diz..Gil Nave um dos elementos de teatro, não está certo a pessoa com óculos chama-se José António e ensaiava na Holanda

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  2. não sabe mais nada desse josé antonio?, de qualquer forma obrigado.

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  3. Duas correcções:
    1) O jornal era "O Salto".
    2) O "Carriço" era o irmão do Álvaro Vasconcelos, Luís de seu nome.

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  4. Para além do valor histórico deste artigo e da amizade, respeito e admiração que sinto e tenho pelo JMB, o FF, o MF... as imagens e o texto são excelentes exemplos do 'texto atrás do texto'. De forma simples, rente ou baixinha (como queiram), não há gajas nestas histórias. Só há gajos! Onde é que andavam as companheiras, as amigas, as conhecidas, as irmãs, as primas... destes gajos? Apenas de nariz enfiado no pó das casas e nas fraldas de putos? Ainda hoje é assim: mesmo neste 'sector musical' - sobretudo neste sector musical - o feminino é tratado como subespécie (perdoem-me o dedo de puto espetado à nudez do rei) ... mesmo quando 'parece' emparceirar', é mais emparelhamento que parceria (desculpem-me a sensibilidade) ... esta é a regra e a excepção, como sempre, é rara ... Para ser excepção já nem sei o que é preciso.. ou melhor: se calhar sei. É preciso ser homem. Obrigadinha por me terem escutado com alguma compostura.

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