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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Federico e os outros


Federico García Lorca. Granada. 1919 e, Lorca junto a um vendedor de jornais. Cuba. 1930. 
Fotos de www.huertadesanvicente.com

por
Francisco Belard
Expresso, 28 Junho 1986
Coisas boas em jornais


Los cuatro muleros de Federico Garcia Lorca, versão cantada por Estrella Morente.


Pela sua morte trágica, «em consequência de feridas causadas por facto de guerra», Federico Garcia Lorca é sempre um dos lembrados, enquanto outros escritores são esquecidos. Mas Lorca, como Unamuno — morto também em 1936 — é um símbolo do drama das «duas Espanhas»

Federico García Lorca por Luís Buñuel, 1925.
Foto de carmenferreiroesteban.wordpress.com
O OUTONO em Nova Iorque é talvez a época mais bonita do ano, como em toda a parte».  Em Setembro de 1929, Federico Garcia Lorca mora num quarto da residência universitária John Jay. Da janela vê os edifícios da Universidade de Columbia, «o rio Hudson e um longínquo panorama de arranha-céus brancos e rosados» — escreve aos pais. «O céu é magnífico e a temperatura admirável». Satisfação idêntica transparece noutras cartas desse tempo norte-americano. Mas na que citamos há também esta frase sobre Espanha: «É  o único país forte e vivo que resta no mundo».
   É preferível lembrar Garcia Lorca nessa época feliz. Mas sempre que se fala deste poeta há uma outra data que domina: 19 de Agosto de 1936. E outro lugar: Granada. Lorca é assassinado, mas o horror ainda mal começou; a Espanha de 1936 e dos intermináveis anos seguintes é o regresso trágico e o mais feroz dos grandes cemitérios debaixo da lua. Para além dela, os sinos irão dobrar por toda a Europa. «Ninguém dorme no mundo» (cito a trad. de José Bento), mas não pelos motivos que poucos anos antes era possível imaginar na ponte de Brooklyn. Ou talvez, no fundo, no Poeta en Nueva York, com o seu poder de pressentir «as falsas taças», o sangue, as lágrimas e o veneno (longe do tom idílico das cartas), estivesse já o adivinho que costuma existir no seu ofício. Lorca sabe que  «a vida não  é sonho», tal como três séculos antes, em 1635, Pedro Calderón de la Barca sabia que  «a vida é sonho». Têm ambos razão, mesmo que a tragicomédia tenha de decompor-se em tragédia e em farsa.

García Lorca e Luis Buñuel nas Festas de Santo Antonio de la Florida. Madrid. 1923. 
Foto de news.bbc.co.uk


«Facto de guerra»

   Se percorrermos os nomes que por volta de 1930 formam, no dizer de Octavio Paz,  «o grupo de poetas mais rico e singular da Espanha desde o século XVII: Jorge Guillén, Federico Garcia Lorca, Rafael Alberti, Luís Cernuda, Aleixandre...», torna-se difícil não pensar que a fama desigual por eles adquirida foi alheia a factos que nada acrescentam nem retiram aos respecticos génios poéticos (em Portugal, onde esse «grupo», divulgado em 1930 pela antologia de Gerardo Diego, está hoje ainda tão pouco editado, a disparidade da fortuna é particularmente óbvia). Na entre nós tardia difusão de Vicente Aleixandre pesou a atribuição do Nobel. No caso de Garcia Lorca valeu universalmente a morte «em consequência de feridas produzidas por facto de guerra» — como se lê numa certidão de óbito passada em 1940 em Granada, lugar do crime.
   Granada estava separada da zona republicana. Num livro sobre a repressão nacionalista em Granada e a morte de Lorca, Ian Gibson nota que as primeiras notícias do assassínio foram dadas pela Imprensa republicana. Somente passados dias ou semanas os jornais da zona rebelde começaram a noticiar o caso, imputando-o aos «marxistas». A 10-9-36, o jornal de Huelva usou a seguinte linguagem: «Para escapar à fúria vermelha o autor do Romanceiro Gitano não ganhou nada em ser 'correligionário' de Azana em política, em literatura, e em... como dizê-lo? — em sexualidade vacilante».  No dia 14 de Outubro, o diário republicano «El Sol» divulgava o telegrama enviado por H. G. Wells, presidente do Pen Club de Londres, ao coronel governador de Granada, e a resposta lacónica deste: «Ignoro lugar hállase D. Federico Garcia Lorca».

Federico e sua irmã Isabel Garcia Lorca, Granada. 1914 
e, com seu irmão Francisco Garcia Lorca. Granada. 1918. 
Fotos de www.huertadesanvicente.com


«Viva  la muerte»

Unamuno lendo uma obra teatral a um
 grupo de actores. Copiado do Expresso.
   Numa história da guerra civil espanhola em publicação por «El País», escreve Juan Marichal: «Todo o exílio revela sempre a densidade cultural de um país (...) a de Espanha em 1936 era a mais alta de toda a sua história». Mas não foi apenas o exílio, estrangeiro ou «interno», que cortou brutalmente a cultura liberal em Espanha. Houve casos em que coube à morte física assinalar o final de um mundo. A par da de Lorca, uma outra morte pode servir de símbolo às batalhas perdidas pelo pensamento dos que mais tarde perderiam a própria guerra: a de Miguel de Unamuno, reitor da Universidade de Salamanca, catedrático de Grego e escritor de livros como  O sentimento trágico da vida nos homens e nos povos. O  fim amargurado de Unamuno foi precedido por um incidente que ficou célebre e ganhou um carácter emblemático. Na abertura do ano lectivo de 1936-37, Unamuno (que semanas antes fizera, numa entrevista, referência favorável à sublevação militar como defensora «da civilização ocidental»)  clamou contra os rebeldes «nacionais». «Vencereis, mas não convencereis». Milián Astray,  general  mutilado — outro símbolo — das guerras norte-africanas, replicou-lhe: «Morra a inteligência!» E terá acrescentado um «viva a morte»  que deu brado.

As duas Espanhas

   No «único país forte e vivo», então, só a morte parece sobreviver. Por entre atrocidades de ambos os lados, ela é um instrumento sinistramente igualitário.  «E como iguala a morte/os vermelhos e os azuis!» — escreve o nacionalista José Maria Pemán. Em tudo o mais, a Espanha está dilacerada; há «duas Espanhas» (como  no conhecido verso de António Machado) e raros acreditam já numa terceira. Quem, nessa altura, tivesse profetizado uma Espanha como a de 1986 seria considerado louco ou visionário. Da «consciência democrática autenticamente liberal» que Unamuno desejara, do «liberalismo e modernidade»  a que Ortega y Gasset aspirara, restavam escombros. Exilado nos EUA depois da guerra, Américo Castro perguntará:  «Como e porquê chegou a ser tão dura e tão áspera a convivência entre espanhóis? Qual o motivo por que se tornou endémica entre nós a necessidade de expulsar do país ou de exterminar quem divergia do que os mais poderosos criam e queriam?»

Benjamin Jarnes, Humberto Perez Ossa, Luis Buñuel, Rafael Barradas e Federico García Lorca. 
Madrid?, 1927. e Lorca «com duas crianças americanas na época de "Poeta  em Nova  Iorque"».
 Foto (esq.) de 50watts.tumblr.com  e a outra foi copiada do Expresso.


   As duas Espanhas matam-se na «arena ibérica». Bernard Shaw, num cartão enviado a Marichal, diz:  «O que sei da Espanha e da guerra civil, sei-o pelo meu amigo Salvador de Madariaga, que me contava que tanto os fascistas como os vermelhos eram uns bandidos».  Depois de 1936, a Espanha é um campo de extermínio. Seria a guerra civil uma fatalidade nacional, a expressão trágica de um «carácter espanhol» que desde o século XVI  trazia a violência e a intolerância inscritas no seu código genético?  Não entraremos na longa discussão — em que um dos eixos é a polémica entre Américo Castro e Claudio Sanchez Albornoz — sobre a essência do «espanhol», a «identidade» ou sequer a «dualidade» espanhola. Em boa parte, como nota Juan Marichal, a guerra era  «a manifestação em Espanha da tragédia europeia».  Era corno se o conflito interno fosse o preço, póstumo e antecipado, de não participar nas duas guerras mundiais.

«Miguel de Unamuno, recorriendo el claustro de su querida Universidad de Salamanca» 1936? 
Foto encontrada em www.almargen.com.ar


   Uma visão do drama intelectual desse período poderia ser dada a partir das revistas. Entre outras, Cruz y Raya, de José Bergamín (católico favorável à República), Hora de Espana (onde, na Valência de 1937,  escrevem António Machado, Bergamín, Maria Zambrano e Gil-Albert) e Escorial, onde intelectuais do lado franquista (como Ridruejo e Laín Entralgo) procuram cicatrizar feridas e restabelecer — com o apoio de nomes como Menendez Pidal, que entretanto regressara ao país — a comunicação entre as duas Espanhas. Mas é também o tempo do exílio, que em muitos casos torna o caminho do México ou da Argentina. Podemos generalizar aquilo que José Bento diz sobre os poetas do grupo de 1927: «A Guerra Civil destroçou o grupo. O assassínio de Lorca ficou a simbolizar o golpe que a guerra vibrou nesse conjunto admirável».
   Nos campos desolados pela chacina, só resta ver a Espanha do lado de fora — por estrangeiros que nela situam os seus escritos de combate (seja este a guerra, o amor ou a tauromaquia...) ou nela imobilizam o olhar para o instante da morte (como na fotografia de Robert Capa que tantas vezes foi o ícone de um episódio sangrento), mas também por espanhóis exilados, como José Ferrater Mora. Para este pensador, já não se trata de recomeçar tudo, de retomar a busca da «terceira Espanha» com a função de medianeira entre os irmãos inimigos, mas sim de permitir que haja muitas Espanhas e de ultrapassar a menoridade culpada, a tortura de supor que um país é intrinsecamente cruel. Ferrater recorda, por outras palavras, que um país  como  a Suécia — o mais bem comportado deste século — teve, no passado, lutas internas sanguinárias.

 Federico García Lorca. Sem data. 
Foto encontrada em www.orartswatch.org


Tirar o luto

   Talvez agora possamos tirar o luto e imaginar Federico feliz, no tempo em que ainda não se sabe como se vai morrer, ou até que se vai morrer, em Nova Iorque ou em Granada: «en abril de mi infancia yo cantaba». Embora saibamos, como Aleixandre, que a sua atitude profunda, «como a de todo o grande poeta, não era a da alegria». Embora saibamos que Jorge Guillén se enganou ao dizer ao pai do poeta:  «Em caso de revolta, se houver um só espanhol que se salve, será Federico». Embora, ainda, saibamos que outros poetas, como Larrea ou Cernuda, mereciam ser lidos entre nós. E que outros centenários ou cinquentenários, como o de Castelao, o de Valle Inclán e o de Unamuno (deste, vejam-se os escritos sobre Portugal, no excelente estudo e recolha que em 1985 publicou Angel Marcos de Dios, ed. Gulbenkian, Paris; e esperemos a edição da sua correspondência com Pascoaes, na Assírio e Alvim), se propõem este ano à atenção pública. Lorca, em Portugal, teve a felicidade póstuma de magníficas traduções por Eugenio de Andrade. Essa felicidade, que é a da escrita, ninguém pode tirar-lha. Em vida, como disse Guillén, parecia que nenhum obstáculo poderia detê-lo: «Apenas tinha de lutar contra as dificuldades que toda a escrita tem». Em poesia fez esta «despedida»:  «Si  muero, dejad el balcón abierto».


Francisco Belard
Texto e títulos em
Expresso, 28 Junho 1986



García Lorca e Salvador Dali. 1925. Cadaqués, Catalunha 
e, Lorca com Pedro Salinas e Rafael Alberti. Madrid. 1927
Fotos de www.huertadesanvicente.com


Aurora de Nueva York, poema de Garcia Lorca. Impressionado pelo contacto com Nova York em 1929-30. Aqui é cantado por Chico Buarque e Raimundo Fagner no CD (1986) de homenagem a Lorca "Poetas en Nueva York", em que participam, interpretando os seus poemas, entre outros; Patxi Andion, Paco e Pepe De Lucía, Lluis Llach, Leonard Cohen, Víctor Manuel, George Moustaki e Mikis Theodorakis.


“Canto a España y la siento hasta la médula, pero antes que esto soy hombre del mundo y hermano de todos. Desde luego no creo en la frontera política.”
Federico García Lorca




segunda-feira, 5 de março de 2012

Buñuel em Hollywood


«Creio que o cinema exerce um certo poder hipnótico sobre os espectadores. Basta observar as pessoas que saem de uma sala de cinema, sempre em silêncio, a cabeça baixa e o ar distante. O público de teatro, de tourada e o público desportivo mostram muito mais energia e animação. A hipnose cinematográfica, leve e inconsciente, deve-se, sem dúvida, à obscuridade da sala, mas também às mudanças de planos, de luzes e aos movimentos da câmara, que enfraquecem a inteligência crítica do espectador e exercem sobre ele uma espécie de fascinação e de violação.»

Luis Buñuel  em O Meu Último Suspiro, edição Fenda 2006


Em 1972, o filme O Charme Discreto da Burguesia (Le charme discret de la bourgeoisie) recebeu o Óscar de melhor filme estrangeiro, e Luis Buñuel e o seu produtor Serge Silberman foram a L.A. receber o prémio. George Cukor organizou em sua casa de Los Angeles, um almoço que teve estas personalidades. Ao fundo da esquerda para a direita: Robert Mulligan, William Wyler, George Cukor, Robert Wise, Jean Claude Carriere e Serge Silberman. À frente: Billy Wilder, Georges Stevens, Luis Buñuel, Alfred Hitchcock e Robert Mamoulian. 
Foto encontrada em cinema16.mty.itesm.mx. 


O Charme Discreto da Burguesia. Para quem não viu o filme, Rafael (Fernando Rey) é embaixador na França de um país chamado Miranda. O embaixador faz tráfico de drogas de seu país para a França. 




«É preciso começar a perder a memória, ainda que se trate de fragmentos desta, para perceber que é esta memória que faz toda a nossa vida. Uma vida sem memória não seria uma vida, assim como uma inteligência sem possibilidade de exprimir-se não seria uma inteligência. A nossa memória é nossa coerência, nossa razão, nossa ação, nosso sentimento. Sem ela, não somos nada.»

Luis Buñuel  em O Meu Último Suspiro, edição Fenda 2006





terça-feira, 5 de julho de 2011

Brigitte Bardot e o nosso António Vilar

Cartaz do filme e António Vilar em contra-luz com Brigitte Bardot (1959). 


Actor português, nascido em 1912 em Lisboa e falecido em Madrid em 1995. Foi um dos actores mais famosos do seu tempo, trabalhando tanto no país como no estrangeiro (nomeadamente em Espanha, França, Itália, Argentina e Brasil). Nos anos 50, tornou-se num dos actores nacionais com maior projecção internacional, numa carreira nunca igualada.


António Vilar na cama com Brigitte Bardot.

António Vilar na cama com Brigitte Bardot observado pelo realizador Julian Duvivier. 


Um dos seus momentos mais altos foi quando protagonizou com Brigitte Bardot o filme La Femme et le Pantin  de Julian Duvivier (1959). Creio que mais nenhum português pode dizer que teve a Bardot nos braços e estão aí as fotos para provar. Sobre a Bardot não há muito a dizer tratava-se de uma bomba andante para nossa alegria, que fez alguns filmes interessantes (poucos) e muitos filmes maus e assim-assim mas ela esteve sempre muito boa em todos. O caso António Vilar é, singular no panorama artístico da época pois a popularidade, em especial entre as espectadoras, adveio-lhe unicamente da sua participação no cinema não tendo, como na quase totalidade das nossas vedetas do espectáculo, assentado em actuações entre palcos teatrais e estúdios cinematográficos.


Aqui não tenho a certeza se é António Vilar de óculos escuros atrás da Bardot.

Brigitte Bardot em primeiro plano e atrás António Vilar, repare-se 
no cartaz que prova a popularidade do português.



(Fotos LIFE Archive) 


 La Femme et le Pantin è um livro de 1898 de Pierre Louys, escritor de língua francesa, 
foi pela primeira vez adaptado ao cinema em 1929 por Jacques de Baroncelli.

 Em 1935, Joseph Von Sternberg realizou The Devil Is a Woman com Marlene Dietrich baseado no 
livro. Em 1959, foi a vez do filme com o António Vilar de Julian Duvivier cujo cartaz abre este post.

Em 1977, Luis Buñuel realizou Este Obscuro Objecto do Desejo (Cet obscur objet du désir) baseado
 também em Pierre Louys. Depois houve mais duas versões para TV, mas isso agora não interessa nada.



(os cartazes dos filmes estavam à solta na Net)