Mostrar mensagens com a etiqueta Louis Armstrong. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Louis Armstrong. Mostrar todas as mensagens

sábado, 10 de novembro de 2012

Citações & Excitações

por
Trindade Santos
Jornal de Letras, 31 Agosto 1982


 Coisas boas em jornais



JAZZ

O Jazz é a única música em que a mesma nota pode ser 
tocada todas as noites, sempre diferentemente. 
São as realidades ocultas, o subconsciente que se esconde 
no corpo, quem dá a ordem: sentes isto — toca aquilo. 
Ornette Coleman


Ornette Coleman. Londres, UK. 1981. Foto davidcorio.com
John Coltrane (com Miles Davis desfocado). Foto sem data da net.


Quando se toca jazz toca-se o que acontece a todo o 
momento — qualquer coisa que nunca se tinha dito.
John Coltrane

O jazz não tem nada a ver com a música escrita. Quando tenta 
receber influências da música contemporânea não é jazz nem é bom.
Igor Stravinsky


Igor Stravinsky compondo em um clube nocturno deserto de Veneza. 1957. Veneza, Itália. Gjon Mili. Foto LIFE Archive.


Jazz é a indecência sincopada e contrapontada.
New Orleans Times Picayune  — 1914

Hot can be cool and cool can be hot and each 
can be both. But hot or cool, man, jazz is jazz.
Louis Armstrong


Louis Armstrong. NY, EUA. John Loengard. Foto LIFE Archive.


Jazz sem batida é como um telefone 
arrancado da tomada: não pode comunicar.
Leonard Feather

A diferença básica entre a música clássica e o jazz nota-se no facto
 de a clássica ser sempre maior no papel que quando tocada. Pelo 
contrário, no jazz, o que se ouve é sempre mais que o que é tocado.
André Previn


Andre Previn com alguns dos seus filhos. 1975. EUA. Alfred Eisenstaedt. Foto LIFE Archive.


O Jazz é uma linguagem. É as pessoas a viverem no 
som: a falarem, a rirem, a chorarem, a construírem, 
a pintarem, a matematizarem, a abstraírem, a extraírem, 
a darem, a tirarem, a fazerem. Por outras palavras: a viverem.
Willis Conover


Willis Conover. Foto de old.enciclopedia.com.pt



BLUES


Ponham os vossos negros alegres e bem dispostos. 
Façam-nos dançar ao som de um tambor.
Mercador de escravos anónimo, séc. XV III


Praça do mercado de escravos. Foto tirada por marinheiros que trabalham no navio HMS durante a viagem científica ao redor do mundo. (Provavelmente pintada à mão) St. Thomas, Ilhas Virgens. 1875.


O  blues é sentimento e forma. 
É singular e plural, à vontade...
Ralph J. Gleason

Os blues nasceram do nada, da carência, do desejo.
W.C. Handy (autor de St. Louis Blues)


W.C. Handy em sua casa compondo ao piano. Foto de themusicsover.com
Son House com a sua guitarra. Foto de musicianbynight.blogspot.pt


Lembro-me, quando era rapaz, de estar sempre a 
cantar nos campos. Não era bem cantar, trautear, 
talvez. Mas foi assim que fizemos canções sobre 
o que se passava connosco nessa altura. Penso que 
foi assim que começaram os blues.
Son House

Quem quer que cante blues está derrotado. 
Oprimido, perturbado com qualquer coisa, 
sem chegar a Deus, procura uma maneira de 
se aliviar... Os blues fazem-no ficar triste e chorar.
Mahalia Jackson


Mahalia Jackson discursando durante a grande manifestação pelos direitos civis nos EUA, 
convocada por Martin Luther King. 1963. Washington. Francis Miller. Foto LIFE Archive.



ROCK


A cena da música popular é hoje diferente de qualquer cena em que 
eu possa pensar na história da música. É completamente feita por, 
para e de miúdos, dos oito aos oitenta e cinco. Escrevem as canções, 
cantam-nas, tocam-nas, gravam-nas, são deles. Ainda compram os 
discos, criam o mercado, lançam as modas, na música, no vestir, na 
dança, no cabelo, na fala, nas atitudes sociais.
Leonard Bernstein

Um concerto de rock é de facto um ritual 
envolvendo a invocação e transmutação da energia.
William Burroughs


Leonard Bernstein dirigindo durante um ensaio. 1956. EUA. Alfred Eisenstaedt. 
William S. Burroughs. 1959. Paris, França. Loomis Dean. Fotos LIFE Archive.


Agora dedicamo-nos à dinâmica. 
Trabalhámos o alto nos últimos 
dois anos e nos próximos seis meses 
vamos atacar o ensurdecedor.
Jerry Garcia

Rock é a corrupção do Rhythm & Blues, que 
já era a diluição dos blues. A música de 
massas de hoje é a vulgarização da vulgarização.
Benny Green


 Jerry Garcia.1993. E, Mick Jagger, 1989. Fotos LIFE Archive.


Lembro-me de — quando era 
muito novo — ter lido num 
artigo do Fats Domino uma 
frase que realmente me influenciou: 
«Nunca se deve cantar as letras com clareza».
Mick Jagger

O Rock and Roll bem podia ser resumido 
nestas palavras: monotonia tingida de histerismo.
Vance Packard


Vance Packard. 1977. Alfred Eisenstaedt. Foto LIFE Archive.



VÁRIOS

Nasci numa geração que ainda 
levava a música ligeira a sério.
Noel Coward

Encaro toda a música pop como irrelevante no sentido 
de que nos próximos 200 anos ninguém há-de ouvir 
a música que se faz hoje. Acho que se há-de ouvir 
Beethoven. A música pop é só diversão. Essa é uma 
das razões por que me não levo a sério.
Elton John


Noel Coward. 1955. Las Vegas, Loomis Dean.
Elton John, 1984. Fotos LIFE Archive.


Um cantor folk é alguém 
que canta de ouvido pelo nariz.
Anónimo

Um cantor folk é um intelectual que canta 
canções que nunca ninguém escreveu.
Anónimo

Uma canção popular compõe-se a si própria.
Irmãos Grimm (séc. XVII - XVIII)


H.L. Mencken em foto sem data. Foto de 2.bp.blogspot.com


As canções populares são 
— como todas as outras — 
compostas por indivíduos. 
Tudo o que o povo faz é 
escolher aquelas que devem ficar. 
H.L. Mencken

A música de cinema é ruído. 
Dói-me ainda mais que a ciática.
Sir Thomas Beecham


Marshall McLuhan. Foto sem data de www.festivalkarsh.ca
Cole Porter. Foto sem data de biografiasgls.blogspot.pt


Depois de adaptar a Sexta de Beethoven à sua Fantasia, 
Walt Disney gritou: «Boa! Vamos lançar o Beethoven!»
Marshall McLuhan

A minha única inspiração é 
um telefonema de um produtor.
Cole Porter

A música de filmes tem com o filme 
a mesma relação que aquilo que agora 
alguém está a tocar no piano da sala 
tem com o livro que estou a ler.
Igor Stravinsky

Acham que, se eu continuar a gritar a Música acabou! — 
eles vão deixar de me mandar os discos?
Trindade Santos



O disco da quinzena


Capa do álbum Sandinista dos Clash. Foto da net.


Nem sempre se pode dizer tudo a toda a gente durante o tempo todo. (Só de quinze em quinze dias). Por isso é que os discos sobem e descem, vão e vêm, ouvem-se e esquecem-se. É raro. Mas dá-me a sensação de que vou ouvir este durante algum tempo. Para variar, é um daqueles que diz tudo a toda a gente. Mas só foi feito uma vez. Sandinista! dos Clash (CBS). Vale a pena ser jovem para poder gostar dele.

Trindade Santos
Jornal de Letras, 31 Agosto 1982



José Gabriel Trindade Santos é professor de Filosofia Antiga, membro do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e professor permanente dos Programas de Pós-Graduação das Universidades Federais de Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Tem obra publicada, sobretudo em Portugal, Brasil e Itália, incluindo mais de meia centena de livros e capítulos de livros, e artigos especializados na sua área de docência e investigação. Fez durante muitos anos critica musical em várias publicações.





quinta-feira, 17 de maio de 2012

Eliot Elisofon e o Jazz

Eliot Elisofon, Jazz Musicians - 1954


«Nascido em Nova Iorque em 1911, filho de imigrantes russos, Elisofon foi um fotógrafo autodidacta. Foi fotógrafo de moda comercial em seus anos mais jovens, depois foi progredindo, e começou a viajar pelo país como fotojornalista freelancer, fazendo imagens da devastação nacional e pobreza provocados pela Grande Depressão. E assim começou a fazer fotografias em procurava chamar a atenção sobre imundas condições urbanas que permaneciam negligenciadas. Em 1937, vendeu suas imagens para a LIFE Magazine. Em 1942, ingressou na LIFE como correspondente de guerra juntamente com uma série de outros fotojornalistas lendários, incluindo Alfred Eisenstaedt, Margaret Bourke-White, Eugene W. Smith, e Mydans Carl. Elisofon mais tarde fez uma série de levantamentos fotográficos praticamente de todos os cantos do globo. Ganhou uma reputação como técnico especializado e designer de iluminação, particularmente através de sua inovações revolucionárias na fotografia a cores. Elisofon permaneceu na LIFE em tempo integral até 1964, depois voltou à fotografia freelancer e começou a produzir projectos de filmes independentes. Quando Elisofon faleceu em 1973, com a idade de 62 anos, deixou para trás um impressionante conjunto de trabalhos como um dos principais fotojornalistas do século XX.» (In wikipedia)


O saxofonista Charlie Parker e o trompetista Louis Armstrong. 1954.


 O Pianista Duke Ellington e a sua orquestra. 1954.


 A Cantora de jazz Ella Fitzgerald. 1954.


Os pianistas de Jazz Oscar Peterson e Nat King Cole (t/b cantor). 1954.


Foto de múltipla exposição de Dave Brubeck ao piano rodeado dos membros da banda, Dave Brubeck Quartet; Paul Desmond, Joe Dodge e Bob Bates. 1954.



(Fotos Eliot Elisofon e LIFE Archive)




sábado, 14 de maio de 2011

Mack The Knife e o Jazz

Em 1927, o autor dramático, poeta lírico e narrador alemão Bertold Brecht propôs a Kurt Weill escrever a música para o libreto de Die Dreigroschenoper (A Ópera dos Três Vinténs). Brecht baseou-se numa tradução da Bagger's Opera (Ópera do Mendigo), feita pela alemã Elisabeth Hauptmann, na qual John Gray, em 1728, havia feito um retrato satírico da classe dominante inglesa.




Inspirados nos gêneros opereta e comédia musical, Brecht e o até então desconhecido Weil contaram a história de Mac Navalha e de seu amor por Polly, a filha de J. J. Peachum, seu inimigo. Este, mais conhecido por Rei dos Mendigos, vestia sua gangue como deficientes ou mendigos e os mandava pedir esmolas. Mac, por seu lado, defendia uma linha mais dura, explorando assaltos e prostituição.




Sem dúvida, a melodia mais famosa da Ópera dos Três Vinténs é ouvida logo no prólogo: trata-se de Die Moritat von Mackie Messer, conhecida em português como A balada de Mac Navalha. O website allmusic.com registra 605 gravações, somente da versão em inglês, e no You Tube encontrei mais de duzentas versões (aqui parei de as ouvir). Legendária é a roufenha versão do próprio Bertold Brecht, gravada já em 1928. Brecht numera com distância irônica alguns dos mais ignóbeis crimes do bandido Mac Navalha. Para tal, faz uso de uma forma de canto de rua muito popular na Alemanha no século 19 e praticamente extinta por volta de 1930: a moritat. O próprio nome já antecipa o conteúdo: deduz-se que moritat venha de "Mordtat" (homicídio). Crimes hediondos – assassinatos, mutilações, estupros –, de preferência com base em acontecimentos reais, são de fato o tema desse tipo de canção.




Nem libreto, nem música estavam prontos na véspera da estreia, de forma que todos apostavam no seu fracasso. O nome da obra foi decidido poucos minutos antes de abrir a cortina para a estreia da peça. O texto definitivo só ficou pronto em 1931. Apesar disso, o sucesso foi estrondoso, tanto na Alemanha como no exterior, até 1933, quando os nazis tiraram a peça de cartaz. (In,www.dw-world.de/dw)


Este é dedicado ao Manuel Fonseca