Elmyr de Hory. Londres, Inglaterra. 1972. Terence Spencer.
Foi um charlatão que é, como bem sabem,
o nome que se dá a certos homens de talento. Elmyr iluminou o século XX, de
1906 a 1976. Para os convenientes efeitos de registo chamemos-lhe Elmyr de
Hory. Um volátil De Hory que mudou até à exaustão da capacidade do alfabeto:
Bory, Cory, Dory, até Zory, para já não falar de Dory-Boutin, Herzog, Hoffman
ou Cassou. You name it! Em português: digam nomes!
Mas
estou, já é costume, a contar mal a história até porque é difícil
estabelecer-lhe a biografia e a investigação não é o meu forte. Nasceu na
Hungria, em família aristocrática – e é mentira. O pai era embaixador
austro-húngaro – e é mentira. A mãe descendente de consolidada linhagem de
banqueiros – e é mentira. Tudo factos, tudo mentira.
Aos
18 anos estava em Munique a estudar Belas-Artes. Dois anos depois, em 1926, já
está em Paris, onde foi aluno, muito bom, de Fernand Léger. Tudo factos, tudo
verdades. Em Paris, converteu-se ao prazer da vida, da seda, do champagne, das
festas, do grande estilo.
Os
anos totalitários que precedem a guerra, apanham-no em Budapeste. Tem uma breve
passagem pela prisão, por ligação a um espião britânico. Soltam-no, mas um ano
depois os nazis espetam com ele num campo de concentração, acusando-o de judeu
e homossexual. Sabe-se que não era judeu e sabe-se que era homossexual convicto
e praticante. Foi espancado, mas o seu forte instinto de sobrevivência teve
artes de engendrar a fuga de um hospital de Berlim. Desenhou, através do
império nazi, uma fina linha de trapaças e subornos que o trouxe de volta a
França.
Elmyr de Hory, ao lado de um Matisse forjado por ele.1969. Ibiza, Espanha. Pierre Boulat.
Quando
a Guerra acabou, o brilhante Elmyr tentou ganhar a vida com os quadros que
pintava. Descobriu que mesmo que não morresse à fome, não vestiria casaca e não
entraria no mundo de riqueza, volúpia e celebridade a que aspirava. Já se sabe:
com a fome vem sempre uma grande vontade de comer e Elmyr descobriu que
desenhava Picassos com uma facilidade cândida, infantil. Como há homens que
nascem com uma mulher dentro deles e vice-versa, Elmyr descobriu que o seu
corpo abrigava outro Picasso. Pelo menos no circuito que se estabelecia entre
as suas mãos, os seus olhos e o seu cérebro.
O
primeiro Picasso vendeu-o a um amigo inglês que o tomou, para silenciosa
surpresa de Elmyr, por um original. Há silêncios que desencadeiam vocações.
Nesse dia de 1946, Elmyr deixou-se cair nos braços da fraude e da falsificação,
num certo sentido, num mundo mágico de trickery e make-believe. Paris voltava a
ter o seu Houdini. Primeiro os desenhos de Picasso, a que prontamente Elmyr
acrescentou desenhos de Matisse, Modiglinani e Renoir.
Clifford Irving, sua mulher Edith, Elmyr de Hory, Gerry
Albertini e Bob Kirsh. 1972. Ibiza, Espanha. Pierre Boulat.
Vendia-os
porta a porta, galeria a galeria. Essa era a parte mais difícil. Elmyr tinha o
seu orgulho e o acto de venda, a persuasão do seu interlocutor, era-lhe
estranha. Muito mais tarde, já nos anos 50, entrou numa galeria de Los Angeles,
abriu o portfolio e Frank Perls, o galerista, ficou abismado com os Picassos e
Modiglianis. Tão abismado que desconfiou. Fechou a pasta atirou com ela a
Elmyr, gritando-lhe que a porta da rua era a serventia da casa. Elmyr saiu
engolindo a humilhação, mas já na rua voltou-se para Perls e perguntou-lhe:
“Mas acha que os desenhos estão bem feitos?” E Perls sabia, soube logo, que aqueles
desenhos eram obras-primas de falsificação.
Era
um falsificador gentil. Não estava ali para enganar ninguém: queria que os seus
Picassos e os seus Renoirs fossem amados. Esse amor era a primeira e mais
importante remuneração. Acabou por organizar-se para potenciar o melhor de si.
Entregou a terceiros a venda. Foi obviamente vítima de fraude. Todos os
parceiros com que trabalhou – arduamente, entenda-se – o enganaram
miseravelmente nas contas.
Pinturas falsas de Matisse e Modigliani, pintadas por Elmyr de Hory.
Elmyr
teve a sua maior glória na década de 50. Viajou até aos Estados Unidos e era
como se tivesse chegado ao paraíso. Tinha visto de 3 meses, ficou uma década.
Dos desenhos passou aos óleos. Comprou livros (só queria um décimo da
biblioteca de arte dele) e estudou estilos. A pouco e pouco alargou o seu
portfolio: Vlaminck, Chagall, Toulouse-Lautrec, Dufy, Derain, Degas, Bonnard
vieram juntar-se aos primeiros mestres. Não tenho a certeza, mas rezo para que
nunca tenha falsificado um Léger. (Hei-de ser sempre um sentimental e tenho a
certeza de que Elmyr também o era).
Vai
sem dizer que Elmyr não era um copista. O que ele desenhava, o que pintava,
eram novas obras desses mestres. Genuínas, inéditas. Geniais, como genial era o
Matisse que vendeu ao Fogg Art Museum, na Universidade de Harvard. Os
peritos viram e os peritos reconheceram-lhe a autenticidade. Compraram-no e,
digo eu para envernizar mais esta história, expuseram-no.
E foi
aqui que se torceu da que sabem o belo rabo. Mais tarde, novas peritagens
descobriram a fraude. E outros coleccionadores – ó os texanos!!!*–
descobriram que tinham sido tão suavemente comidos.
Elmyr de Hory e David Walsh. 1969. Ibiza, Espanha. Pierre Boulat.
Os
anos que se seguiram foram anos de fuga e clandestinidade. De luxo ainda, em
Ibiza. Os anos em que, com alguma bondade, Elmyr, o charlatão tímido, permitiu,
condescendente, que outro charlatão, Clifford Irving ( o escritor que tinha
forjado uma biografia de Howard Hughes e por isso tinha sido preso) escrevesse
a sua história. E que esse mago da manipulação chamado Orson Welles o fixassse
para a eternidade, no filme F for Fake.
Informado
de que o governo espanhol cedera ao pedido de extradição da França, o que o
significaria acabar os seus anos na cadeia, a 1 de Dezembro de 1976, Elmyr
tomou uma overdose de comprimidos e morreu nos braços de Mark Forgy, seu
companheiro.
*Algur H. Meadows, magnata texano do petróleo, descobriu que tinha a mais ampla, mas também a melhor colecção do mundo do falsificações de Degas, Bonnard, Matisses, Picassos e outros pintores menores. Com um sentido de humor mais negro do que o ouro que os tinha pago, Algur espumou de raiva e lançou todos os seus cães, do FBI à Interpol, em busca dos mágicos falsificadores.
Texto de
Manuel S. Fonseca
encontrado em www.etudogentemorta.com
16-10-2010
Um falso Van Dogen pintado por Elmyr de Hory.
(Fotos LIFE Archive)
Pinturas falsas de Elmyr de Hory encontradas na net
Estava eu, vasculhando os arquivos da LIFE Magazine (já nem me lembro do que procurava), quando dei com uma fotos de Allan Grant (Fotografo da revista LIFE), que só diziam: "Edith Piaf & Amolia". Cliquei para ver as fotos, pensando que ia encontrar fotos da Edith Piaf, já que o nome Amolia não me dizia nada, quando se me depara um monte de fotos de Amália, apenas com a indicação da data (setembro de 1952) e do fotografo. Algumas das fotos são de excelente qualidade, outras nem por por isso. Aqui ficam para quase todos.
Amália. Nova York. Setembro1952. Allan Grant.
Em 1952 Amália actua pela primeira vez em New York, no Night-Club, La Vie en Rose, onde ficará 14 semanas em cartaz. Torna-se no ano seguinte, na primeira artista portuguesa a cantar na televisão americana no famoso programa Coke Time with Eddie Fisher, onde interpreta Coimbra. Actua em festas e na rádio. Chegou a receber convites para actuar na Broadway, cantando cantigas em Inglês. No ano seguinte editou o seu primeiro LP nos EUA (as gravações anteriores eram em discos de 78 rotações), "Amália Rodrigues Sings Fado From Portugal and Flamenco From Spain", lançado em 1954 pela Angel Records, assinala a sua estreia no formato do long-play, a 33 rotações, criado apenas seis anos antes e, na época, ainda longe de conhecer a expressão de mercado que depois viria a conquistar. O álbum, que seria editado em 1957 em Inglaterra e, um ano depois, em França, nunca teve prensagem portuguesa. Por exigência do mercado americano, Amália gravou alguns flamencos e a propósito conta-se que Orson Welles perguntou um dia, em Madrid qual era a maior cantora de flamenco e os madrilenos responderam que era portuguesa, vivia em Lisboa e chamava-se Amália. (Fontes: wikipedia.org e www.portuguesetimes.com)
Pier Paolo Pasolini. Foto sem data encontrada em historica.com.br
Coisas boas em jornais
1922, 5 de Março — Pier Paolo Pasolini nasce em Bolonha. O pai, Carlo Pasolini, originário de uma antiga família de Ravena cujos bens dissipara, é tenente de infantaria. A mãe, Susanna Colussi, de origem friulana, é professora primária em Casarsa della Deizia.
«Em 1922, ano mergulhado no século, Bolonha respirava um ar de valsa.» (Pasolini, `L'Usignolo della Chiesa Cattolica', Longanesi, Milão, 1958).
Em Outubro, os trinta mil «camisas negras» de Mussolini marcham sobre Roma.
1925 — Nasce o irmão de Pier Paolo, Guido Alberto, em Belluno. «Nesse tempo, eu ainda me dava bem com o meu pai. Era extraordinariamente caprichoso, isto é, presumivelmente, neurótico, mas bom. Para com a mãe, (...) encontrava-me no estado de alma que seria o de toda a minha vida, o de um amor desesperado.» (`Empirismo Herege', Assírio e Alvim, 1982).
Pier Paolo Pasolini e sua mãe Susanna. Anos 60. Foto Mario Dondero em en.daringtodo.com
«Toda a minha vida foi influenciada pelas cenas que o meu pai fazia à minha mãe. Ele acusava-a de viver nas nuvens, o que não era verdade. O facto era que ele era fascista, e ela não.» (‘E tu chi eri — Interviews d'enfance, Dacia Maraini, Bompiani, Milão, 1973).
Durante a infância e os primeiros anos da adolescência, Pier Paolo é transplantado de cidade em cidade, devido à carreira militar do pai.
1929 — Pier Paolo escreve os seus primeiros poemas em Sacile, onde termina a escola primária.
«Misteriosamente, um belo dia, a minha mãe mostrou-me um soneto escrito por ela no qual exprimia o seu amor por mim (...) Alguns dias mais tarde, escrevi os meus primeiros versos, os quais falavam de rouxinol' e de `folhagem'.»
1935/40 — Novas deslocações: Cremona, Reggio Emilia. Longa estadia em Bolonha, estudos secundários (Liceu Galvani) e universitários (licenciatura em Letras). Prepara uma tese sobre o poeta Pascoli. Toma consciência do conformismo fascista e participa nos primeiros cineclubes. Começa a desenhar com uma regularidade que nunca o abandonará, até aos últimos retratos da Callas e dos seus amigos romanos.
«Tudo o que eu descobria e amava era posto sob silêncio ou banido sem a menor cerimónia pelos fascistas: Rimbaud, os poetas simbolistas, herméticos, os grandes autores de teatro (...) O meu antifascismo de adolescente era mais cultural do que politico.» (‘As últimas palavras do herege', entrevistas com Jean Duflot, Brasilense, 1983).
1942 — A família refugia-se em Casarsa, enquanto o pai se encontra prisioneiro de guerra no Quénia. E é ao pai que Pasolini dedica o livro de poemas que, a expensas próprias, publica nesse ano: `Poesia e Casarsa' (escrito em dialecto friulano). O livro é recenseado no Corriere de Lugarno, por Gianfranco Contini.
Pier Paolo Pasolini e seu pai, Carlo Alberto, em Florença nos anos 30. Foto de www.presseaporter.com
1943 — Pier Paolo cumpre o serviço militar em Livorno. A 8 de Setembro, dia do Armistício, recusa entregar-se aos alemães e foge para Casarsa.
«Troquei Pisa por Casarsa, em farrapos, com dois sapatos diferentes, depois de ter desobedecido aos oficiais que me haviam dado ordens para entregar as armas aos alemães. Depois de ter percorrido uma centena de quilómetros a pé e de me ter arriscado mais de cem vezes a encontrar-me num comboio com destino à Alemanha... recomecei logo a escrever versos em friulano e Italiano (...). Mas isso não me impediu de ir escrever `Viva a liberdade' nas paredes, e de acabar, pela primeira vez na minha vida, na prisão, experimentando, assim, o que são os homens da Ordem.» (citado em `Pasolini', seminário dirigido por Maria Antonietta Macciochi, Bernard Grasset, Paris, 1980).
1945 — O seu irmão Guido, resistente da brigada 'Osoppo', é ferido, perseguido e executado sumariamente por resistentes jugoslavos. O tema da `morte do jovem' atravessa doridamente toda a obra de Pasolini.
«(...) ele era o melhor de todos nós. Era tão bom, tão generoso, que quis dar-me a prova disso, sacrificando-se pelo seu irmão mais velho, que talvez amasse demasiado, em quem talvez acreditasse demasiado. (...) Lancei-o no antifascismo mais ardente, com a paixão dos catecúmenos, porque, também eu jovem, descobrira, apenas dois anos antes, que o mundo no qual eu nascera sem nenhuma perspectiva era um mundo ridículo, absurdo... e, então, eu não tinha ainda lido Marx e era liberal, com uma preferência pelo partido de acção. Penso que nenhum comunista poderá condenar a acção do guerrilheiro Guido Pasolini...» (Vie Nuove, 1961).
Envelhecido, o pai regressa a Casarsa. Tor-minada a sua tese de licenciatura, Pasolini lecciona, entre 1945 e 1949, em Valvasone, na região de Casarsa. A 18 de Fevereiro de 1945 funda, com um grupo de jovens universitários friulanos, a Academia de Língua Friulana, que edita cadernos de pesquisa filológica e poética — os 'Stroligut de ca' da l'aga' (O Feiticeiro deste lado da água). Era o início da luta contra a homogenização linguística desencadeada pelo fascismo e acirrada pela civilização tecnológica (o consumismo que Pasolini considerará o «novo fascismo»).
Entre 1943 e 1949, escreve os poemas que publicará em 1958 sob o título 'L'usignolo della Chiesa Cattolica' (O rouxinol da Igreja Católica).
Pier Paolo Pasolini - Homem de Letras. Primeira parte de um documentário que pode encontrar no youtube na totalidade. Carregado por europecinema em 03/01/2008.
1947 — Inscreve-se no Partido Comunista Italiano, onde se torna secretário da secção de Casarsa — mas esta militância consignada não durará mais do que um ano.
«(...) fiz como um certo número de camaradas, não renovei a minha carteira depois da expiração. A orientação cada vez mais estalinista de Togliatti, essa mistura de autoritarismo e de paternalismo sufocante, não me parecia favorável ao desabrochar das grandes esperanças do pós-guerra. (...) Simultaneamente, nestes anos 48-49, eu descobria Gramsci (...) A ressonância da obra de Gramsci em mim foi decisiva (‘As últimas palavras de um herege').
«Marx não tomou em consideração o irracional. Digo Marx para dizer o marxismo.» ('Ulisse', Setembro, 1960.)
Todavia, falará sempre do PCI como «um país limpo dentro do país».
1949 — Pasolini é acusado de ter tido «relações carnais com alguns dos seus alunos». A denúncia parte de um padre a quem Pier Paolo se confessara, que rompe o segredo da confissão. Durante os restantes vinte e seis anos da sua vida ser-lhe-ão movidos mais de trinta processos por homossexualidade. O Partido expulsa-o «por indignidade moral do poeta Pier Paolo Pasolini».
Foge para Roma com a mãe; instalaram-se inicialmente na Piazza Costaguti, no pórtico de Ottavia, e depois nos Borgate, em Ponte Mammolo, perto da prisão de Rebilobia (lugares recorrentes da escrita pasoliniana).
«Estou sem trabalho, reduzido à mendicidade. Muito simplesmente porque sou comunista. Não me espanta a diabólica perfídia democrata-cristã; espanta-me a vossa desumanidade. Tu sabes bem que falar de desvio ideológico é uma imbecilidade. Apesar de vocês, eu permaneço e permanecerei comunista, no mais autêntico sentido do termo. Qualquer outro, no meu lugar, se suicidaria, mas, infelizmente, devo viver pela minha mãe.» (Carta a Francesco Mautino, da Federação Comunista.)
Finalmente, consegue um posto de professor em Cianpino, com 27 mil liras por mês; mais tarde, graças a Giorgio Bassani, começará a trabalhar em argumentos para cinema. A mãe trabalha como mulher-a-dias. O pai reunira-se-lhes entretanto, e mudam-se os três para a Via Fonteiana.
1952 — Publica `Poesia Dialectal do Século XX' (em colaboração com Mario dell'Arco).
1954 — Publica `La Meglio Giuventu' (A Melhor Juventude), recolha das suas poesias friulanas. Publica um diário poético: `Dal Diario'. Trabalha, pela primeira vez, como argumentista, no filme de Mario Soldati 'La Donna del Fiume' (A mulher do rio). «Eu literalmente morria de fome.» (`As últimas palavras de um hereje'.)
Bernardo Bertolucci e Pier Paolo Pasolini, perto de Roma durante as filmagens do primeiro filme de Pasolini "Accattone". Foto de 1961, de Marina Cicogna encontrada em www.livincool.com
1955 — Colabora na revista «Officina», que, apesar da sua curta vida, ficará como testemunho importante de alguns intelectuais italianos face ao automatismo e conformismo dominantes. Publica `Ragazzi di Vita', transposição romanesca da sua experiência nas borgate, primeiro grande êxito literário, primeiro processo por «obscenidade». Publica um 'Canzonieri Italiano' (Cancioneiro italiano) e uma `Antologia della Poesia Popolare'.
1956 — Colabora no argumento de `As Noites de Cabiria’, de Frederico Fellini. Até 1973, trabalhará em numerosos argumentos (cerca de doze) com Bolognini, Rossi, Fellini, Bertolucci - entre outros.
1957 — Publica 'Le Ceneri di Gramsci' (As Cinzas de Gramsci), que recebe o Prémio de Poesia de Viareggio e o consagra face à crítica.
Morte do pai. «Não queria tratar-se, em nome da sua vida retórica. Não nos dava ouvidos, nem à minha mãe nem a mim, porque nos desprezava. Uma noite voltei a casa apenas a tempo de o ver morrer.»
1958 — Publica «L'Usignolo della Chiesa Cattolica» (O Rouxinol da Igreja Católica), (poemas).
1959 — Publica «Una Vita Violenta» (Uma Vida Violenta), romance que é traduzido em onze países e sucessivamente reeditado em Itália — e também processado.
Pasolini com Anna Magnani e Ettore Garofolo durante a rodagem de "Mamma Roma" (1962). Foto de burusi.wordpress.com
1960 — Publica «Roma 50, Diário»; «Sonetto Primaverille»; «Passione e Ideologia»; «Poesia Popolare Italiana». Realiza a sua primeira longa-metragem, «Accatone», com a qual se inicia também o rosário dos processos cinematográficos...
«A primeira imagem — lembrança que tenho do cinematógrafo é um cartaz. Eu devia ter quatro ou cinco anos: a-imagem de um tigre solto, devorando um homem, do qual o mínimo que posso dizer é que parecia sofrer maravilhosamente (...) Comecei a rodar o meu primeiro filme com quarenta anos, sem mesmo saber que existiam objectivas diferentes, ou o que era exactamente uma panorâmica...
(...) Fui portanto obrigado a inventar uma técnica, que só podia ser a mais simples, a mais elementar possível. Estilisticamente, a simplicidade transmutou-se em severidade, o elementar tornou-se absoluto. (...) A complexidade torna comum, a simplicidade diversifica. («As últimas palavras de um herege»).
1961 — Publica «La Religione del Mio Tempo», compilação dos artigos e poemas publicados em Officina. Publica o «Manifesto per un Nuovo Teatro». Realiza «Mamma Roma».
«`Mamma Roma' é a obra onde, pela primeira vez na vida, eu me repeti. Repeti-me, e cometi esse erro, por ingenuidade. Na vida é preciso ser ingénuo, mas sê-lo no domínio da estética é um erro.» («As últimas palavras de um herege»).
1963 — Realiza «La Ricotta», que será apreendido, e «La Rabbia».
Pier Paolo Pasolini dirigindo Orson Welles em "La Ricotta" (1963). Foto de centotto.com
1964 — Realiza «II Vangelo secondo Matteo» (O Evangelho Segundo São Mateus), que recebe o Grande Prémio da União Internacional da Crítica e o da Organização Católica do Cinema. Publica «Poesie in Forma di Rosa»,
1965 - Publica «Ali dagli Occhi Azzurri».
1966 — Realiza «Uccellacci e Uccellini» (Passarinhos e Passarões).
«O filme de que mais gosto é «Passarinhos e Passarões». Creio tê-lo feito com o máximo de pureza, com uma pureza toda franciscana! Ele não me rendeu absolutamente nada, aliás. Posso mesmo dizer que perdi dinheiro com ele. E um filme bastante pobre, que não custou grande coisa. Emociona-me muito.» («As últimas palavras de um herege»).
1967 — Realiza «Edipo Rei».
1968 — Realiza «Teorema», que será processado e apreendido.
«Assim que os jovens contestatários abandonam a cultura para optar pela acção e pelo utilitarismo, resignam-se à situação na qual o sistema trabalha para os inserir.» («As últimas palavras de um herege»).
1969— Realiza «Porcile» (Pocilga).
1970 — Realiza «Medeia».
Pasolini com Maria Callas durante as filmagens de "Medeia" (1969). Foto de www.presseaporter.com
1971 — Publica «Trasumanar e Organizzar» (Transumanar e Organizar).
«Quero dizer por isso que a outra face da transumanação (a palavra é de Dante, sob esta forma apocopada) ou da ascese espiritual, é precisamente a organização.»
Inicia o ciclo da «Trilogia da Vida» com o «Decameron», (segundo Boccacio).
«São filmes bastante fáceis e eu fi-los para opor à sociedade de consumo actual um passado bem recente em que o corpo humano e as relações humanas eram ainda reais, ainda que arcaicas, ainda que pré-históricas (...) Mas estes filmes acabaram por ser, eles próprios, ultrapassados tornados velhos pela tolerância da sociedade de consumo. (...) Foi por isso que abjurei a `Trilogia da Vida', que era uma nova fase, digamos, de carácter popular, simples.» (Citado em «Pasolini», seminário, já referido).
1972 — Publica «Empirismo Erético», reflexão semiológica acerca do cinema e da literatura, iluminada por Saussure, Bar-thes, Metz (tradução portuguesa: «Empirismo Herege», Assírio e Alvim, 1982),
Realiza o segundo filme da «Trilogia da Vida», «I Racconti di Canterbury» (Os Contos de Canterbury), de novo processado e apreendido.
1973 — Em Calderon, experimenta a sua concepção do teatro da palavra. Publica «II Mestiere di Scrittore» (A profissão do escritor).
Rodagem de O Evangelho Segundo São Mateus (1964). Foto de www.cinemista.com.br
1974 — Último filme da Trilogia: «II Fiore Delle 1001 Notte» («As Mil e Uma Noites»), que sofre, como se esperava, perseguições várias.
Realiza «Saló o le 120 Giornatte di Sodoma» (Saló ou os 120 dias de Sodoma), que será objecto de processo e apreensão após a morte de Pasolini.
«Não sei muito bem porque fiz este filme. Espero compreender porque o fiz dentro de alguns meses ou anos. O sexo aparece ainda aqui mas em vez de ser utilizado, como na `Trilogia da Vida', como algo de feliz, belo e perdido, é utilizado como qualquer coisa de terrível, tornou-se a metáfora do que Marx chama a comercialização do corpo, a alienação do corpo. O que Hitler fez brutalmente, matando, destruindo os corpos, a sociedade de consumo fê-lo no plano cultural; na realidade, é a mesma coisa. (Citado em «Pasolini», Seminário, op. cit.)
Entre 1970-1975, Pasolini intensifica as suas intervenções em «scritti» dispersos por vários jornais. Estas prosas são publicadas em volume sob o título «Scritti Corsari» (Escritos Corsários ou «Escritos Póstumos», em tradução portuguesa, Moraes).
1975 — 2 de Novembro — Pier Paolo Pasolini aparece de madrugada assassinado numa praia entre Ostia e Fiumicino, contra um fundo de barracas e destroços. Presumível, assassino: um «ragazzo di vita» de nome Pelosi.
«Os cabelos escorrendo sangue, o rosto inchado de nódoas negras e hematomas, a maxila esquerda fracturada, o nariz metido para dentro, as orelhas parcialmente arrancadas, uma ferida horrível entre a nuca e o pescoço que sangrava ainda, os dedos cobertos de nódoas negras e contusões, dez costelas fracturadas, tal como o externo. Também se observava um rasgão largo e profundo nos testículos, o fígado encontrava-se dividido em dois, o coração rebentado.»
Rodagem de Decameron (1971). 1971. Foto de Mario Tursi em pasolinipuntonet.blogspot.pt
1975 — Publicação em Portugal de dois romances (inéditos à data da morte) do tempo de adolescência «Amado Mio» e «Atti Impuri». («Amado Mio» e «Actos Impuros», ed. dupla Difel.)
Sobre «Atti Impuri»: «'Atti Impuri', até pela sua forma abertamente de diário, é uma comovida descida aos infernos de um eu assolado por contradições profundas, para trazer á superfície o verde paraíso dos anos passados no Friuli.» (Carlo Vittorio Cattaneo, «Expresso», 2/7/85).
Sobre «Amado Mio»: «Tudo se passa numa atmosfera alternadamente fresca (os banhos no rio ou no canal, que constituem um dos mais belos lugares recorrentes na prosa de Pasolini) e abafada (o suor sobre os corpos, uma pressentida promiscuidade que remete para o universo adolescente da indiferenciação das sensações) em campos que se estendem a perder de vista, entre tons violáceos e `o fumo acre e fabuloso do lume matinal'.» (António Mega Ferreira, «Jornal de Letras», 2/4/85).
Cronologia estabelecida por Inês Pedrosa no Jornal de Letras de 1 de Outubro 1985.
Pier Paolo Pasolini (1922 - 1975) Foto de www.pasolini.net
"Mostre-me um grande actor e eu vou-lhe mostrar um péssimo
marido. Mostre-me uma grande actriz e você já viu o diabo"
W.C. Fields
Orson Weles, saindo de um táxi para assistir ao seu filme O Mundo a Seus Pés (Citizen Kane, 1946), em Nova York. Foto copiada da revista LIFE Magazine.
Anne Baxter no filme, A Cidade Abandonada (Yellow Sky, 1948) de William A. Wellman. 1948. EUA. John Florea.
Fred Astaire ensaiando com Rita Hayworth uma cena do filme Nunca Estiveste Tão Linda (You Were Never Lovelier, 1942) de William A. Seiter. Hollywood. 1941. John Florea.
Raquel Welch durante as filmagens do filme Kansas City Bomber (1972) de Jerrold Freedman. EUA. 1972. Bill Eppridge.
Burt Lancaster e Kirk Douglas conversando com o produtor Jerry Wald, nos bastidores da entrega dos Óscar's de 1958. EUA. Leonard Mccombe.
Curd Jürgens e sua esposa, mais duas companheiras em sua casa em França. 1972. Carlo Bavagnoli.
Danny Kaye e Mia Farrow, no filme para televisão Peter Pan (1976). Foto encontrada na net.
Dana Andrews.EUA. 1944. John Florea.
Debbie Reynolds e Glenn Ford durante as filmagens em Espanha de It Started With A Kiss de George Marshall. Espanha. 1959. Loomis Dean.
Al Pacino, Lilian Gish e Grace Kelly. Local e autor desconhecido. 1982.
Errol Flynn, chegando a Dodge City para a estreia de Vida Nova (Dodge City, 1939) de Michael Curtiz. Kansas, EUA. 1939. Peter Stackpole. E, Errol Flynn ao leme de um iate com o seu cão, durante umas ferias. EUA. 1941. Peter Stackpole.
Eva Maria Saint, a caminho de uma audição. EUA. 1949. Nina Leen.
Douglas Fairbanks Jr. (filho da grande estrela de cinema, que tinha o mesmo nome). Hollywood. 1949. Alfred Eisenstaedt.
Rock Hudson no remake do filme O Adeus às Armas (Farewell To Arms, 1957) de Charles Vidor e John Huston (não creditado) e com argumento de Ben Hetch. Alpes, Itália. 1956. Ralph Crane.
Frank Kramer (Gianfranco Parolini), realizador e Lee Van Cleef, durante as filmagens do filme O Regresso de Sabata (È tornato Sabata... hai chiuso un'altra volta, 1971). Foto encontrada na net.