quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Os Arredores da Cultura

Charneca, Galinheiras, Fetais: 
Os Arredores da Cultura
por
Francisco Vale
Jornal de Letras, 17 Março 1981

Coisas boas em jornais
Post reformulado, retirei o recorte e coloquei apenas o texto



Cine Estrela, Campo das Amoreiras, 55 a 82 Charneca. 1968. João H. Goulart.


   «Um velho cinema desmontável é o único albergue visível da cultura na Charneca do Lumiar. No Clube Recreativo das Galinheiras já não se faz teatro nem se projectam filmes para crianças: todas as energias estão concentradas na subida de divisão do seu grupo de futebol. Fetais, quase clandestina povoação de milhares de habitantes, não possuía, até há meses, distribuição de jornais e revistas; agora um discreto quiosque prospera com a venda da Crónica Feminina, da TV Guia e de A Bola.
   Cultura dos arredores. Camponeses transplantados para o espaço suburbano, com suas crenças e tradições agredidas pelos mass media. Homens e mulheres agarrados aos destroços de uma cultura ancestral que perdeu a razão de ser. Jovens crescidos numa terra-de-ninguém da cultura, politicamente radicalizados, mas com um quotidiano que gira em torno do futebol, dos filmes de cow boys, das telenovelas e dos Caprichos.


«Nas Galinheiras, o futebol torna-se paisagem e desaloja a cultura num velho clube recreativo» 
Foto do artigo copiada do Jornal de Letras (pena estar em mau estado).

   Ao fundo do vasto terreiro o Cine Estrela-Desmontável, com o alumínio que lhe protege a entrada fulgindo ao sol, parece o único templo dedicado às celebrações culturais. Estamos na Charneca, a vinte minutos de autocarro do centro de Lisboa, por uma estrada espalmada entre o aeroporto e a Musgueira: O primeiro dispensa apresentações e a Musgueira é um bairro de barracas e pré-fabricados onde habitam muitos dos casos que povoam as secções policiais da Imprensa lisboeta.
   A Charneca dispõe-se em torno do terreiro primitivo, onde verdeja uma relva escurecida pela seca, encerrada por um círculo de árvores desfolhadas, espectrais. É nele que funcionam improvisados mercados, que nascem súbitos jogos de futebol, que desabrocham circos no Verão e se realiza, em Agosto, a festa de S. Bartolomeu, conhecida pelas provas de perícia a cavalo. O cinema, para onde me dirijo, tem um ar cansado. Parece repousar, farto de uma existência nómada em que foi mil vezes feito e desfeito. Cá fora, cartazes desbotados anunciam para sábado O Terror no Museu de Máscaras, e, para domingo, Violência em Nápoles.
   O proprietário fala com vivacidade, apesar da idade que se insinua nos cabelos esbranquiçados, e está orgulhoso do seu cinema, onde se alinham algumas centenas de cadeiras sob um toldo multicolor.
   «Tem cerca de quinhentos lugares. Não vêm apenas jovens mas também senhoras, como em Lisboa. Sim, a maior parte dos filmes são de «cow boys», é o que apreciam mais por aqui. Onde arranjo os filmes? Compro-os às distribuidoras, claro. Não passam apenas filmes, às vezes cedo a sala para sessões de esclarecimento...»

«Charneca: um cinema desmontável serve filmes de cow-boys aos sábados e domingos.» 
Foto do artigo copiada do Jornal de Letras (pena estar em mau estado).

Um espaço sem anonimato

   Caminhando em diagonal pelo terreiro em direcção ao Clube Desportivo instalado numa das várias residências solarengas da Charneca, tem-se a impressão de visitar um espaço sem anonimato nem pressa. Mulheres, com o corpo deformado pelo pão e os partos, cumprimentam-se e param para falar. Os gestos guardam a rudeza da vida do campo. Falas dispersas sobre a chuva que não há, os preços que fazem, a Água Viva.
Que terá restado da sua cultura, tecida de ritos, lendas, superstições e subtis contos de iniciação?
   Ao longe, através de um muro desmoronado, o Tejo é uma mancha de calma, onde os barcos têm a aparência de borboletas exóticas alfinetadas em papel de seda.
   O Clube está fechado, mas informam-me que se dedica apenas ao futebol e ao ténis de mesa.
   Os dois quiosques onde entro não diferem dos que existem nos bairros populares de Lisboa. Num deles, alguns livros de bolso amarelecem num mostruário, indício seguro de pouco movimento, (confirmado pela jovem atrás do balcão).

Futebol finta a cultura

   Entre a Charneca e as Galinheiras o caminho é curto. No bordo esquerdo da estrada uma fila de faias parece embalsamada na luminosidade fria da manhã. Do outro lado avistam-se barracas e uma encosta coberta de oliveiras empoeiradas.
   Ao contrário da Charneca, Galinheiras é uma povoação recente que se expande em prédios clandestinos cobertos de azulejos ou tintas berrantes.
   No Clube Recreativo das Galinheiras, fundado há vinte anos, já se projectaram filmes para crianças e se fez teatro. Este ano, porém, as actividades estão reduzidas ao futebol e ao ténis de mesa. As razões podem ser encontradas num «placard» afixado no interior do clube: «Faltam 16 jornadas para que o nosso sonho seja realidade: a subida de divisão. Não há dúvida sobre a vitória sobre o Armadorense...»
   As paredes estão cobertas de «posters» de jogadores e troféus desportivos, as Galinheiras empataram com o Olivais Sul na 12.a jornada de futebol da III divisão e cá fora há camisas de jogadores secando ao vento.
   No outro extremo da povoação fica o Clube Desportivo Os Novos das Galinheiras, onde um cartaz triste anuncia uma excursão à serra da Estrela.
   Existe também o Cine Texas das Galinheiras. Amanhã passa Os bons e os maus e no domingo Os três dias de Condor.

Campo das Amoreiras, 23 a 28. Charneca. 1968. João H. Goulart.

   Em torno da praça há uma capela, uma escola primária, uma creche em cimento e um quiosque improvisado onde um elegante casal, nostálgico da outra vida que teve em África, se conforma temporariamente a vender a Crónica Feminina, o TV Guia, as fotonovelas e A Bola (seguida à distância pelo Diário de Notícias e Diário Popular).
   Os muros estão repletos de inscrições e cartazes em que a esquerda anuncia sessões de esclarecimento, denuncia ataques à reforma agrária, avança palavras de ordem. Pelos telhados em redor espalhou-se essa nova flora que são as antenas de televisão.
   Enquanto aguardo transporte ouço conversas cruzadas. A minha atenção fixa-se numa fala de maus olhados e beberragens.
   Vai-se das Galinheiras para Fetais através de uma estrada flanqueada por colinas escalvadas. Entramos no concelho de Loures. De súbito, num quintal um pessegueiro florido parece uma festa efémera da natureza iludida pelo calor prematuro desta Primavera no Inverno.
   Sigo no autocarro 17, que para Fetais é uma conquista de Abril. A «carreira» seguia apenas até às Galinheiras e teve de ser ocupada e desviada para que o seu percurso se prolongasse.
Fetais, Charneca, Estrada das Amoreiras, Ameixoeiras... Os nomes das povoações e das vias que as servem são aqui baptizados pela vegetação, tal como as ruas das cidades o foram, em termos, pelas profissões nelas estabelecidas.
   Em Fetais a construção clandestina é a regra. Os «patos bravos» têm aqui um voo inteiramente livre. O centro da povoação é um enorme «bairro de lata», colorido pela roupa desfraldada nos varais, em cujas vielas, perpétuamente sombrias, brincam crianças e cães. Em volta proliferam as habitações clandestinas. Na rua principal existe um fontanário onde as mulheres fazem uma pausa na pressa do dia para falarem dos problemas e conhecerem os «casos» da povoação.
   Em Fetais a construção clandestina é a regra. Os «patos bravos» têm aqui um voo inteiramente livre. O centro da povoação é um enorme «bairro de lata», colorido pela roupa desfraldada nos varais, em cujas vielas, perpetuamente sombrias, brincam crianças ecães. Em volta proliferam as habitações clandestinas.
   Numa esquina um cartaz anuncia que o Grupo Aguias de Camarate organiza um programa de variedades com os «excelentes artistas da Rádio e da TV», Maria Armanda, Hélio, Dinis e Nina Valdique, todos apresentados em lânguidos perfis.
   À saída de uma viela do «bairro da lata», uma mulher no alto de uma camioneta, feita mostruário de roupas, desdobra um cobertor perante um público expectante.
   «É um cobertor com um leão, um cobertor capaz de aquecer mais depressa o seu marido ou a sua mulher...»

Campo das Amoreiras. Charneca, 113-114 .1970. João H. Goulart.

Um universo que se desmorona

   Homens e mulheres de rosto sem acabamentos. Ainda ontem viviam de tradições, lendas e superstições. Num tal universo tinham resolvido os problemas de transmissão cultural entre gerações. A «Cabra Cabrês» e a «Carochinha», constituem, na sua versão popular, contos de iniciação.
   É certo que subsistem na Charneca, e sobretudo nas Galinheiras e nos Fetais, fragmentos dessa cultura tradicional, lentamente erodida pelo impacto dos mass media. As mulheres menstruadas recusam-se a bater as claras, a jovem abandonada por uma rival fala de feitiço, a consulta à bruxa é frequente.
   Mas o ciclo da vida, organizado em torno do trabalho nos campos, entre as sementeiras e as colheitas, foi substituída pelo ritmo sempre igual do trabalho fabril e doméstico.
   A inércia, o analfabetismo, a carência de instrumentos culturais adequados, mantiveram a oralidade como forma predominante de comunicação na geração mais velha. Mesmo a Televisão é despojada dos seus atributos específicos e reintroduzida, não sem causar estragos, num circuito cultural pré-existente.
   As telenovelas em geral, e a D. Xepa em particular (dadas as características do personagem que lhe deu nome), têm ou tiveram aqui, um impacto particular por serem ditas em português e se reportarem a acontecimentos quotidianos.
   D. Xepa foi tratada pelas mulheres reunidas no fontanário de Fetais, ou na feira dominical das Galinheiras, como uma vizinha de vida particularmente atribulada.


Cine Texas, Rua de Santo António, à Charneca. 1977. Vasques.

Gutemberg não passou por aqui

   Vêem as telenovelas sem distanciação, tratam as suas personagens como Madame Bovary as heroínas dos romances que lia. E, no entanto, não abundam por estes sítios os «maples» que parecem especialmente desenhados para moldarem um telespectador passivo, para o tornarem um simples receptáculo das imagens que jorram do pequeno «écran». Uma tal situação é aqui o resultado da ausência de uma cultura escrita, de se ter passado da «fase da comunicação oral», para a «galáxia de Marconi», sem viver a «galáxia de Gutemberg».
   É isso que torna os habitantes destes arredores tão indefesos perante imagens que lhes parecem a própria evidência da verdade.
   A consciência política despertou com as sessões de esclarecimento e os comícios, com tudo o que veio nas águas mil de Abril. Mas a esquerda não soube ajudar à decantação de uma consciência cultural. Os modos conservadores e pensar penetram pelas vias travessas de uma cultura conservadora, regida pela batuta de Proença de Carvalho e Pereira da Costa.
   A geração mais nova conhece o livro técnico, mas ignora a literatura, o teatro ou o cinema digno desse nome. Identifica-se com o «cowboy» do cinema das Galinheiras ou a seduzida e abandonada heroína de Corin Tellado. Os seus cantores preferidos são Marco Paulo e José Cid.
   A cultura dos pais perdeu sentido, nada lhe diz. Mas a ausência de condições mínimas de formação cultural, torna a nova geração sensível apenas aos destroços da cultura urbana.

A vida

   A mulher ergue-se madrugada ainda, procurando não despertar o corpo deitado a seu lado, caminha às apalpadelas para a cozinha, acende o fogão a gás para aquecer a cevada. Os restos de sonho que ainda a acompanham dissolvem-se aos mesmo tempo que as trevas, enquanto estende a toalha sobre a mesa de fórmica. Sacode o homem que se levanta sentindo o corpo pedir-lhe descanso e não fábrica. Acorda de vez só ao contacto da água fria, resmunga contra a cevada, agarra a mala deformada pelas ferramentas e esgueira-se como um rato pela viela que conduz ao autocarro que teve de desviar para poder ter. Ratos e homens, homens empurrados para uma vida de ratos.
   O velho Leyland balança-lhe o corpo ensonado e ele revê-se nos rostos acabados de barbear, onde gotículas de sangue brilham ainda sobre a loção barata. Os olhos seguem sem atenção o desfiar conhecido do percurso matinal que os leva à Trónix, à Madeitejo, à Abastar, Petrochem ou Juler. Vai regressar com o rosto e as roupas cobertos por um pó que resiste às lavagens, os olhos vazios, o corpo resumido ao cansaço.
   A mulher vai às compras, sobe as escadas, miga o pão no leite aquecido, lava os pratos e talheres que o homem usou, enxota os filhos da cama para a cozinha e depois para o autocarro onde vão aprender, com os companheiros de escola, o alegre vocabulário do sexo.
   Tem agora à sua frente mais loiça suja, as camas para fazer, compras, comida a preparar, outros filhos a tratar, e a eterna luta contra o pó que lhe invade os móveis, a casa toda.
   No crepúsculo do dia os filhos regressarão. Os rapazes correm para o café, as raparigas ajudam a mãe. O homem chega depois, cheio de taciturno rancor.
   Vêem televisão e deitam-se com ela.
   A mulher ergue-se madrugada ainda, procurando não despertar o corpo deitado a seu lado, caminha às apalpadelas para a cozinha.
   Vida de arredores, cultura de arredores.»

Francisco Vale
Jornal de Letras,
17 de Março de 1981


«Feira das Galinheiras, localizada na Quinta da Pailepa, na Freguesia da 
Charneca, junto ao forte da Ameixoeira, actual quartel do SIS.» 2012. 
Foto de ambcvlumiar.wordpress.com


(Fotos do Arquivo Fotográfico da CML)


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