segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Ernest Hemingway e George Steiner




Ernest Hemingway em Cuba, à conversa com pescadores e marinheiros.1952. Alfred Eisenstaedt.
Foto LIFE Archive.


Ernest Hemingway e a modelo Jean Patchett por Clifford Coffin para a revista Vogue. 1950.
Foto encontrada em trovegeneral.com


Mesmo grande escritores não conseguem alterar a força de palavras simples. O nosso grande exemplo é Ernest Hemingway. Nunca mais ninguém utilizou da mesma forma a palavra "e", como Hemingway o fez. Uma das suas passagens ilustra bem as minhas preocupações. As pessoas não ligam à literatura mais impressionante. Estou a pensar num trecho do romance "The Sun Also Rises". Este título vem, obviamente do Livro de Eclesiastes. na Bíblia. Chamava-se "Fiesta" na edição inglesa. Dois amigos estão sentados no autocarro e julgam amar-se. Julgam ser inteiramente honestos um com o outro. «Atravessámos a floresta para depois subir a encosta, um prado verde e ondulado à nossa frente e montanhas escuras por trás, muito diferentes das montanhas queimadas donde viemos. Eram montanhas arborizadas das quais as nuvens escorregavam. O prado verde estendia-se, separado por vedações, com o branco da estrada a brilhar por entre as árvores, cruzando o prado para Norte. No cimo da encosta vimos os telhados vermelhos e as casas brancas de Burguete dispersas pelo prado. Ao longe, no espinhaço da primeira montanha escura, encontrava-se o telhado cinzento do mosteiro de Roncesvalles. Ali é Roncevaux, disse eu. Onde? Lá ao longe. Onde começam as montanhas. Está frio aqui, disse Bill. Estamos muito alto, disse eu. Pelo menos a 1200 metros. Está um frio horrível, disse Bill.»
Roncevaux é um lugar onde, na canção medieval de Rolando,  Rolando e os seus amigos traídos por um deles, são mortos na emboscada dos Sarracenos. A genialidade de Hemingway está no facto de não chegar a dizer isso. Só a palavra "Roncevaux" nos diz que os dois amigos se trairão. A amizade está a chegar ao fim. Depois a repetição. «Está frio, disse o Bill. Está um frio horrível.» Naturalmente, está a falar-se do frio no coração deles. Só um grande artista é capaz de dizer tudo sem dizer nada. A questão é que os meus alunos de Oxford, de Cambridge, os de Genebra e os de Harvard, já não sabem o que significa "Roncevaux". A próxima edição terá de trazer uma nota de rodapé, que liquida tudo. Enquanto no tempo de Hemingway, com o seu vasto público, era um romance muito popular e partiam do princípio que o nome "Roncevaux"... não era preciso explicar. Dentro de pouco tempo o nome "Elsinore" precisará de uma nota de rodapé. Não saberão nada, nem o que é "La Mancha". Isto é assustador.
George Steiner
In, «Of Beauty and Consolation». 2000


Ernest Hemingway e Yousuf Karsh em Cuba e Hemingway por Yousuf Karsh. 1957.
Foto de www.collectionscanada.gc.ca



Ernest Hemingway em Cuba.1952 e 1953. Alfred Eisenstaedt.
Fotos LIFE Archive.


Ernest Hemingway lendo um manuscrito. Sun Valley, Idaho, 1940. Robert Capa.
Foto encontrada em www.tomorrowstarted


Ernest Hemingway com Antonio Ordonez em Malaga, Espanha. 1960. Loomis Dean.
Fotos LIFE Archive.


Ernest Hemingway e Fidel Castro. 1960. Osvaldo Salas.
Foto encontrada em trovegeneral.com



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