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sexta-feira, 4 de maio de 2012

Ave-Maria, cheia de graça

texto de

Manuel S. Fonseca

Expresso, 17 de Março de 2012


O caldo entornou-se. O jovem católico virou-se para o chefe de polícia e disse-lhe em tom de desgarrada: "Gostava que fizessem isso à sua mãe?" Ó meu amigo, palavras não eram ditas e já o até então polidíssimo agente lhe enfiava uma gravata que, vi eu, fez o ar dos pulmões do jovem bater no tecto da sala.
Tossia ele, tossia toda a velha sala da Cinemateca. Exibia-se, 1985, "Je Vous Salue Marie", de Godard, então inédito em Portugal por miúfa dos distribuidores.
Krus Abecassis, lendário presidente da Câmara, prometera escaqueirar tudo se a Cinemateca se atrevesse. Fomos perguntar ao João Bénard, que era quem mandava em nós, se nos atrevíamos.
O João foi claro: "Nessas coisas, sou uma senhora séria. Ora, como sabem, senhora séria não tem ouvidos." Preparámo-nos para o combate. Se de algum lado estava, a Graça estava do nosso lado. João Bénard era de um catolicismo doce que lhe impregnou o olhar e a escrita toda a vida, logo a ele que, tanto mudando, em nada de essencial algum dia mudou.
Sentíamo-nos, por isso, legitimados para passar um filme que mostrava o desejo de gravidez e o bendito ventre cujo fruto talvez fosse Jesus.
Éramos democratas, mas não éramos parvos: armou-se um dispositivo de Aljubarrota. Vigilância da PSP e dois dos nossos projeccionistas, tipos que combinavam volume de boxeur com altura de defesa-central, a filtrar entradas no magnífico portão da rua.

Boicote da estreia do filme "Je vous salue Marie" de 
Jean-Luc Godard, em 1985, com Krus Abecassis.
Foto encontrada na net.

Vendiam-se dois bilhetes por pessoa, o que frustrou as encantadoras virgens que quiseram comprar a lotação do cinema.
A sala era um ovo cheio. Gente no chão e no ar uma excitação misto de primeira comunhão e noite de núpcias. Fez-se escuro: a volúpia das imagens aflorou a tela e os jovens católicos pularam em ave-marias e salve-rainhas, subindo ao palco a esbracejar contra as sombras blasfemas.
As luzes reacenderam-se, iluminando um belo e poético caos.
Enquanto nós gritávamos aos jovens Savonarolas que "Je Vous Salue Marie" era a apologia da Imaculada Conceição, um filme sobre o mistério da mulher que, entre tormento e dúvida, aceita uma violenta graça e sobre o homem, José, que se torce de ciúmes, mas por amor confia, os velhos cineclubistas, com algum saudoso comunismo, apontavam à polícia os insurrectos: "É aquele...
e aquele." Era um mundo às avessas: velhos esquerdistas ajudavam a polícia e um miúdo, com vozinha de copo de leite, gritava-lhes: "Pides." Num arroubo místico, um dos rapazes desmaiou. Ajoelhou-se ao lado dele uma menina de calças de xadrez. Era bonita e parecia que, segurando-lhe a mão, rezava. Com vontade de rezar com ela, ainda pensei: "Vês, meu anjo, como ser virgem é estar disponível!" Saberia ela que, assim, na sua ajoelhada angústia, rimava com a imagem de Myriem Roussel no filme apóstata de Godard e repetia, prosaica e séculos depois, o poético mistério mariano?

Manuel S. Fonseca
jornal Expresso
17 de Março de 2012


"Saberia ela que, assim, na sua ajoelhada angústia, rimava com a imagem de Myriem Roussel 
no filme apóstata de Godard e repetia, prosaica e séculos depois, o poético mistério mariano? ". 

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Krus Abecassis contra Jean-Luc Godard


A Estreia de Je Vous Salue, Marie
na Cinemateca em 29 de Junho de 1985

Muitas das vezes o que escrevo aqui vêm de fotos que encontro na net e que por sua vez trazem à memória coisas que aconteceram e em que tive alguma participação: neste caso foi a exibição do filme Je Vous Salue, Marie (1985) de Jean-Luc Godard pela Cinemateca Portuguesa, aquando do ciclo dedicado a este realizador.


Tudo começou um mês antes, mais coisa menos coisa

O filme já tinha dado muito brado em França, Espanha e Itália e Abecassis disse não sei onde que se o filme fosse cá exibido tencionava "escaqueirar tudo". Dias depois saiu um artigo de Augusto M. Seabra no jornal Expresso de 01-06-85, seguido de um artigo uma semana depois por Afonso Praça em O Jornal de 06-07-1985 e em outros jornais. Cliquem para ler.


Nessa altura (Junho de 1985) eu, trabalhava na Cinemateca como projeccionista e o João Bénard da Costa em colaboração com a PSP, tomou algumas medidas de segurança e pediu a mim e a outro projeccionista o Luís Gigante, que ficássemos no portão (que nesse dia estaria fechado só abrindo a porta) e que só deixasse-mos entrar um espectador de cada vez e foi o que fizemos com mais ou menos empurrões de gente da igreja que tentava entrar de qualquer maneira, havia alguns mais espertos que ficaram calmamente na fila para comprar bilhetes e conseguiram entrar e dentro da sala tentaram impedir a projecção do filme; um chegou a saltar para o palco colocando-se à frente da luz do projector esbracejando mas, a PSP trouxe todos para fora, uns nas calmas outros à força e pelo menos um veio de rastos.

O Expresso desse dia trazia uma "provocação": uma entrevista com Godard, seleccionei um excerto.


Este artigo de Elisabete França em o Expresso de 06-07-85, 
 retrata mais ou menos fielmente o que aconteceu. 



A história é longa, para quem quiser saber mais é ler os artigos que saíram nos jornais e que estão aí. Mas, não quero acabar sem contar a chegada do Abecassis (presidente da Câmara de charuto e "já quentinho"), que fez incendiar mais os ânimos e cheguei a ouvir um graduado (que está numa das fotos à civil) dizer-lhe que se não se calasse iria preso imediatamente e calou. E com tudo acabei por não ver o filme a não ser anos mais tarde quando a Sic o passou, (as voltas que a vida dá) porque foi o local para onde fui trabalhar anos depois (1992) e onde estou até agora pelo menos por enquanto.

Repare-se na frase que o distribuidor utilizou anos depois quando o filme saiu em DVD.