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sábado, 6 de abril de 2013

A mulher que fazia brilhar as estrelas


Costumes by Edith Head
Texto  de Vítor Pavão dos Santos
Jornal Se7e 4-11-81

 Coisas boas em jornais

«Costumes by Edith Head» é uma das frases de maior prestigio na história de Hollywood. De facto, a grande figurinista, soube aliar a mais elevada qualidade ao maior profissionalismo, com uma versatilidade e um talento difíceis de igualar. Responsável por mais de 500 filmes, desenhou todos os géneros, de ternurentos melodramas a violentos westerns, de movimentadas comédias a apavorantes filmes de terror, de musicais alegres e dramas sombrios, de esplendores bíblicos a sórdidos policiais.

Edith Head (1898-1981). 1955. Hollywood. Allan Grant.


As suas qualidades de trabalho eram lendárias. Entre 1937 e 1942, nunca desenhou menos de 35 filmes por ano. Com rara flexibilidade e profunda compreensão dos temas tratados, demonstrou amplamente como um vestido pode caracterizar uma personagem sem se tornar demasiado notado, mas antes se integrando no conjunto e contribuindo para a criação da atmosfera requerida para cada filme. Sempre simpática, era tão popular entre as  stars,  que procurava se sentissem bem dentro dos vestidos que lhes desenhava, como entre as equipas técnicas, com as quais colaborava estreitamente. No entanto, Edith Head era uma mulher de temperamento forte. Por exemplo, decidiu que o ano do seu nascimento era 1907 e embora toda a gente soubesse que era muito mais velha, nunca se lhe descobriu a idade exacta. Nem agora quando morreu, o segredo foi revelado. Até a conservatória de Los Angeles, onde foi registada, ardeu há muitos anos. E não faltaram línguas maldosas que falassem de fogo posto...
Sabe-se que teve uma boa educação, tirou um curso universitário e casou, com brevidade, com um tal mr. Head, do qual guardou o nome. Em 1923, era professora de Espanhol e estudava arte, à noite, quando respondeu a um anúncio que pedia desenhadores para a Paramount. Como pagavam bem, embora quase não soubesse desenhar não se atrapalhou, pediu alguns desenhos emprestados a uma colega e mediante este expediente apresentou-se a Howard Greer, que era então quem vestia as stars do estúdio, e logo a admitiu. E não se arrependeu, pois ela revelou-se uma grande trabalhadora, com raro talento para aprender os segredos da profissão.
Por isso, em 1927, quando Greer deixou o estúdio, Edith Head estava já tão integrada que foi elevada à categoria de chief designer e primeira assistente do grande Travis Banton, mundialmente famoso pela fantasia delirante, mas de gosto impecável, com que vestia Marlene Dietrich nos filmes de Joseph von Sternberg. Ofuscada pelos triunfos de Travis Banton, a jovem Edith Head desenhava montes de filmes série B, que não davam nas vistas mas lhe iam fornecendo uma enorme experiência.


 Desenhos de Edith Head para Dorothy Lamour no filme Road to Bali (1952).
Encontrados em thesilverscreenaffair.blogspot.pt e bid.profilesinhistory.com

Um sucesso chamado «Sarong»

Acontecia que Banton bebia que se fartava, estava dias e dias sem aparecer no estúdio, era malcriado para toda a gente, só fazia o que lhe apetecia. Como tudo isto começasse a pesar mais que o seu enorme talento, a Paramount, em 1937, não lhe renovou o contrato, oferecendo então o lugar de head designer a Edith Head, que se iria manter à frente do departamento até 1967. Ser sucessora de alguém tão famoso como Travis Banton, não era coisa nada fácil. Os problemas começaram logo com Claudette Colbert, então a maior  star  do estúdio, que detestou os vestidos que Edith Head lhe desenhou para Zaza  (1938) e se recusou a voltar a ser vestida por ela, embora sem razão, pois eram lindos. Melhor andaram as coisas com Mae West, que sabia exactamente aquilo que queria vestir e se deu tão bem com Edith Head que sempre a chamou para os seus filmes. Ainda em 1970, quando fez o seu célebre comeback  em Myra Breckinridge (filme inédito em Portugal), declarou: «Edith Head é a única desenhadora capaz de vestir Mae West como Mae West». E era!
Estávamos em plenos anos 30, na época em que, na Metro-Goldwyn-Mayer, o famosíssimo Adrian dispunha de rios de dinheiro para deslumbrar o mundo com a flamboyance  dos vestidos que desenhava para Greta Garbo, Joan Crawford e Norma Shearer. No entanto, apesar de tal concorrência, Edith Head, num estúdio com muito trabalho e poucos meios, não tardou a impor o seu estilo e a sua aparente simplicidade, conseguindo que os vestidos que desenhava fossem os mais copiados pelas mulheres americanas. E isto era o maior sucesso, pois significava que sabia tornar próximas do público as personagens que vestia.

 Modelos usando vestidos desenhados por Edith Head. 1941. Peter Stackpole.
Fotos de LIFE Archive

Um dia, lá por 1936, enrolou com tal arte um pano estampado à volta de uma rapariga sorridente e lânguida, chamada Dorothy Lamour, que o sarong  se tornou uma moda que durou muitos anos e todos os estúdios copiaram. Mas o boom tremendo de Edith Head chegou em 1941, quando vestiu Barbara Stanwick com uma série de vestidos de cintura alta e influência espanhola, em The Lady Eve (As três noites de Eva). Antecipando-se às modas, como frequentemente iria acontecer, ela dava o sinal de partida para a loucura do south american way,  que dominaria nos States durante a guerra. Mas, para além disso, criava possibilidades insuspeitadas a uma grande star,  que ninguém até então tinha sabido como vestir para a transformar numa mulher sofisticada. Ficaram grandes amigas e a magnífica Barbara Stanwyck nunca mais a dispensou, levando-a atrás de si, durante sete anos, para os vários estúdios em que ia trabalhando, embora a Paramount não gostasse nada de emprestar a sua preciosa costume designer.
Por esse tempo, tinha o estúdio descoberto uma rapariguinha, de aparência adolescente mas cheia de potencialidades. O departamento de penteados deu-lhe uma madeixa sobre o olho, que o mundo inteiro iria copiar. Quanto ao resto, transformar a miúda miope na provocante Veronica Lake, foi obra de Edith Head. E acertou em cheio, como acertou depois com Betty Hutton ou com Paulette Goddard.

Desenho de Edith Head para Hedy Lamarr em Sansão e Dalila  e a própria no filme (1949).
Fotos de flapperdays.blogspot.pt 

O vestido certo na cena certa

Por meados dos anos 40, todas as  stars  disputavam Edith Head, pois sabiam que ela as valorizava ao máximo, sem as afogar num exagerado «decorativismo». Olivia de Havilland atribui-lhe uma boa parte da responsabilidade do seu êxito nos dois filmes em que ganhou o  Oscar  para a melhor actriz do ano:  To Each His Own (Lágrimas de mãe, 1946), onde  atravessava várias épocas e várias idades;  The Heiress (A Herdeira, 1949), onde os seus vestidos 1850 tinham rigor histórico, mas eram «compreensíveis» para o público actual. É a actriz quem afirma: «Cada um dos vestidos desenhados por Edith Head eram sempre perfeitos. Bastava-me vesti-los para me transformar na mulher que tinha de interpretar.» 
De facto, nada desenhado por Edith Head era gratuito, tudo se conjugava para acentuar um determinado momento de um determinado filme. E, no entanto, o seu estilo simples, directo, «jornalístico», beneficiava pouco da súbita riqueza que a II Grande Guerra trouxera à Paramount. É que quando havia superproduções, pensavam sempre para as desenhar em alguém mais ligado a coisas espectaculares. Pois se até Cecil B. De Mille, o produtor supremo, trabalhava sempre, dentro da Paramount, com a sua equipa própria. Era um bocado de mais e Edith Head reagiu com violência, e fez muito bem. Por isso, quando De Mille realizou uma das suas obras mais belas e arrebatadas, Samson and Delilah (Sansão e Dalila, 1949), foi ela, integrando-se admiravelmente na grande tradição demilleana, quem inventou aquela inesquecível teoria de caudas, sedas roçagantes, cascatas, para já não falar das penas de pavão, que envolvem Hedy Lamarr. Raramente se terá conseguido algo de mais espectacular. Quem é que dizia que a Head só fazia coisas sóbrias?

Pormenor do vestido de Edith Head para Hedy Lamarr em Sansão e Dalila.
Foto de flapperdays.blogspot.pt


Entretanto, em 1947, em Paris, num golpe mágico que deixou de boca aberta o mundo incrédulo, Christian Dior mudou por completo a silhueta feminina, instaurando o new look. Sempre com medo de que os vestidos dos filmes passassem muito rápido de moda, Hollywood. tentava ignorar essa nova moda. Foi Edith Head quem se atreveu a trabalhar a nova silhueta, equilibrando-a em termos  de cinema. E Bette Davis foi a primeira star a exibir o new look, em  June Bride (Noiva da  Primavera, 1948). E ficou tão chic que nunca mais dispensou Edith Head,  impondo-a quando foi  à Fox fazer All About Eve (Eva, 1950), embora todo o resto do elenco  fosse vestido pelo famoso Charles LeMaire. Na verdade, Bette Davis aparecia perfeita, muito elegante e apenas com uns toques de extravagância, ao interpretar, nesse filme, a temperamental  actriz teatral Margo Channing. Mas melhor para Edith foi vestir uma star como uma star, ou seja, Gloria Swanson como Norma Desmond,  rainha  do cinema mudo, vivendo a  esperança  de um  regresso impossível,  em Sunset Boulevard  (O Crepúsculo dos Deuses, 1950). A personagem podia  prestar-se  aos maiores exageros, mas a figurinista  soube, com imensa subtileza, manter-lhe  a humanidade, dando-lhe apenas os necessários elementos de exotismo e glamour que distinguem uma superstar de um  ser humano. Um triunfo absoluto.

 Desenho de Edith Head para Grace Kelly no filme Ladrão de Casaca (1955) e Grace Kelly.
Fotos de sheris-musings.tumblr.com

A  favorita de Hitchcock

Outra actriz que não dispensava Edith Head era Ingrid Bergman, que a exigiu em Notorious (Difamação, 1946), onde exibia um vestido de veludo negro com um decote de cortar o fôlego. Mas mais importante que a dita dècolletage foi o facto de, nesse filme, Edith encontrar Alfred Hitchcock, que viu nela a colaboradora ideal, inteligente e sóbria, capaz de fazer vibrar uma sensação no momento exacto. Fizeram nove filmes juntos, dois deles com Grace Kelly, cujo tipo distante e um tanto misterioso, mas também, desenvolto, a figurinista ajudou a modelar com grande sabedoria, ajudando a torná-la a mulher famosa que ainda é hoje. Edith Head considerava mesmo como seu trabalho preferido To Catch a Thief (Ladrão de Casaca, 1955). E contava: «Hitch disse-me: Não quero, de maneira nenhuma, cores fortes. Por isso, usei em todo o filme os mais pálidos tons de pastel. Depois, quando ela (Grace Kelly) aparece com o vestido dourado, o climax torna-se assim muito mais eficaz.» Nos anos 50, com a decadência dos estúdios e o enorme decréscimo dos filmes produzidos, Edith Head passou a ter mais tempo para estudar os seus trabalhos. Foi a sua época mais marcante. Até lhe deram oportunidade para desenhar uma passagem de modelos, cheia de cor e imaginação, em Lucy Gallant (Orgulho contra orgulho, 1955); onde uma das suas estrelas preferidas, Jane Wyman, interpretava uma desenhadora de modas. E nunca a primeira Mrs. Ronald Reagan apareceu tão fascinante e sofisticada.

 Desenhos de Edith Head para Audrey Hepburn nos filmes Férias em Roma (1953) e Sabrina (1954).
Fotos de sheris-musings.tumblr.com

Em 1953, a Paramount descobriu uma miúda cheia de espontaneidade, muito esguia e ossuda. Vesti-la foi um dos triunfos de Edith Head, pois em vez de lhe camuflar o seu corpo nada convencional, decidiu acentuá-lo e mostrá-lo tal qual. E assim nasceu, com Audrey Hepburn vestida por Edith Head, em filmes como Roman Holiday (Férias em Roma, 1953) e Sabrina  (1954), um novo tipo de mulher, uma nova beleza. Por isso, embora Audrey Hepburn talvez fique na história da  fashion como a musa inspiradora de Hubert de Givenchy, é bom não esquecer que quem lhe compreendeu o charme e o evidenciou foi Edith Head. Outra star que causou sensação na América, e beneficiou do «tratamento» de Edith Head, foi Sophia Loren, que ela vestiu muitas vezes, mas cuja personalidade definiu admiravelmente em That Kind of Woman  (Uma certa mulher, 1959). Embora trabalhando durante décadas com orçamentos reduzidos, foi ironicamente quando lhe deram possibilidades de desenhar vestidos aos montes para Shirley MacLaine, sem limite de verbas, em What a Way To Go (Ela e os seus maridos, 1963), que Edith Head realizou um dos seus trabalhos mais óbvios e falhos de estilo, embora aparentemente espectacular.

Edith Head e os seus Oscars.
Foto de sheris-musings.tumblr.com


Uma cabazada de «oscars»

Em 1966, quando a Paramount foi absorvida pela multinacional Gulf+Western, todos lamentaram que Edith Head fosse obrigada a abandonar o seu estúdio de tantos anos. Mas ei-la que aparece, triunfante, com um contrato para head designer dos Universal Studios, onde continuaria, desenhando sempre, até morrer, embora parando para fazer conferências, dar aulas nas universidades, e escrever dois livros de memórias:  The dress doctor  e  How to dress for sucess. Numa época em que os verdadeiros profissionais de Hollywood  quase tinham  já desaparecido,  Edith Head fez valer a  sua tremenda experiência, sobretudo na difícil arte de desenhar fatos de  homem. E com tal brilho que, inesperadamente, em 1973, com  The Sting  (A Golpada), o  modo impecável como vestiu, à  moda dos anos 30, Paul Newman, Robert Redford e Robert Shaw, caracterizando com exactidão cada uma das personagens, lhe  valeu  o  seu oitavo Oscar.
Desde que, em 1948, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood  resolveu instituir um Oscar para o melhor costume designer, Edith Head foi distinguida nos seguintes anos:  1949:  The Heiress  (A Herdeira); 1950: All About Eve (Eva) e Samson and Delilah (Sansão e Dalila), nas duas modalidades, respectivamente preto e branco e a cores; 1951: A Place in The Sun  (Um  lugar ao sol);  1953: Roman Holiday (Férias  em Roma); 1954: Sabrina; 1960: The Facts of Life (Coisas da vida); 1973: The Sting  (A golpada). Uma cabazada  de Oscars como mais ninguém tem.

 Desenhos de Edith Head para Bette Davis e Natalie Wood nos 
filmes All About Eve (1950) e (1953) e Inside Daisy Clover (1965).
Fotos de sheris-musings.tumblr.com

O mais curioso é que Edith Head, sempre inultrapassável ao vestir as stars, pouco acertava consigo própria. Quando  se  arranjava para festas, toda decotada e cheia de jóias, com a sua eterna franja e óculos escuros, arrancava boas gargalhadas das sofisticadas que lhe deviam a sua elegância. Chegou mesmo a aparecer nas listas das mulheres mais mal vestidas. Mas ela pouco se ralava. Ligada, desde 1933, ao  art director  Wiard (Bill) Ilheu, com quem casou em 1940, levava uma vida privada pacata e muito confortável, longe da multidão. Gostava de viajar e, em 1952, passou por Lisboa, dando uma saborosa entrevista a «O Mundo Ilustrado», declarando-se encantada com o Museu Nacional dos Coches, dizendo que Carmen Miranda lhe ensinara a dizer «obrigada» para se desembaraçar em Lisboa, revelando ser Balenciaga o seu costureiro preferido (pois quem havia de ser?). E a entrevistadora rematava: «E para terminar, encarregou-nos de dizer às mulheres portuguesas que as achou bonitas e muito bem vestidas.»
Ora digam lá se Edith Head, além de uma grande figurinista, não era mesmo uma simpatia de pessoa?

Texto  de Vítor Pavão dos Santos
Texto e Titulos em
Jornal Se7e
4-11-81

Edith Head preparando o vestido para Grace Kelly no 
filme Ladrão de Casaca. 1955. Hollywood. Allan Grant.
Foto LIFE Archive




sexta-feira, 5 de outubro de 2012

5 de Outubro de 1910

A Revista à portuguesa, a liberdade no palco
por
Vítor Pavão dos Santos
Jornal Se7e 04-10-1978

Coisas boas em jornais

Nascimento Fernandes e Carlos Leal, os compadres de «Agulha em Palheiro», observam os padrecas expulsos, na Praça dos Restauradores.



«O 5 de Outubro de 1910 também para a revista foi uma grande data, pois restituiu-lhe a liberdade de criticar tudo e todos, livrando-a, por largos anos, da sua mais feroz e constante inimiga: a censura.
E porque o teatro de revista contava então com artistas e autores de grande talento, essa liberdade foi aproveitada para criar uma série de espectáculos memoráveis, que fizeram da década de 10 talvez a mais brilhante de toda a já longa história da revista à portuguesa.


Nascimento Fernandes, o actor de revista mais popular da década de 10, e André Brun, autor de revistas e comédias de grande sucesso, em desenhos de Amarelhe.



«Apoteoses à «portuguesa»

Passada a apertada ditadura de João Franco, que terminou em sangue em 1908, com o assassinato do rei D. Carlos e do príncipe herdeiro, durante o reinado breve de Manuel II conheceu-se um abrandamento da censura. Contudo, apesar de então se registarem alguns êxitos de estalo, o lápis azul ainda riscava que se fartava, banindo os acontecimentos políticos mas fechando os olhos à pornografia, estado de coisas que os críticos do tempo não se atemorizavam nunca de denunciar nos seus jornais.
Na noite em que havia de rebentar a revolução republicana funcionavam em Lisboa seis teatros e doze animatógrafos, além, claro está, do Coliseu dos Recreios, onde The Nicoleto's, fantasistas sobre aeroplano, causavam sensação.
Quanto a revistas, no Music-Hall, das 8 à meia-noite, entre variedades várias, o espectador podia saborear De olho alerta, com o aplaudido quadro «Na tasca dos Tesos», enquanto no Teatro Salão Fantástico se representava. É Fantástico. Portanto, apenas duas revistas e das mais modestas.
Depois, estalou a revolução, houve tiros em barda, ferveu a bordoada, a família real pôs-se ao fresco e eis Portugal transformado, a par da França e da Suíça, em mais uma República da Europa. Passada pois a primeira agitação, os teatros começaram a ir abrindo. Logo no dia 11 de Outubro reapareceu É Fantástico, toda orgulhosa de ser a única revista em cena, e anunciando uma nova apoteose: «A República Portuguesa».
A 12, foi a vez do velho Teatro das Variedades reabrir as suas portas, oferecendo uma nova e exaltante apoteose, em que a «Portuguesa» era cantada por toda a companhia.
Por último, a 13, o Teatro Etoile, que ficava ali à Estrela, juntou também à revista Duras de roer a já indispensável apoteose à República.
Entretanto, as revistas de maior sucesso das últimas temporadas, ABC, Sol e sombra, País do vinho, eram repostas com nova desenvoltura e libertas de antigos cortes. Não aparecia, no entanto obra nova de interesse.
Mais duas revistas, estreadas em Dezembro, Roupa lavada, no Teatro Alegria, e Antes e depois, no Fantástico, pouco se aproveitaram da liberdade readquirida. E assim terminou 1910, tendo como único grande sucesso a opereta O fado, toda convencional e passada no século XIX, entre marialvas e severas.


A apimentada Júlia Mendes, que morreu logo em 1911 e deixou nome que ainda perdura.


As sindicâncias indiscretas

O ano de 1911 começou mal para a revista. A 2 de Fevereiro morreu, com apenas 26 anos, Júlia Mendes, um dos grandes nomes dessa época, famosa pela genica das suas rábulas e o sentimento dos seus fadinhos, lenda boémia que perdurou até aos nossos dias.
Finalmente, a 4 de Fevereiro, o famoso empresário e autor Luís Galhardo meteu ombros a apresentar no Avenida, a primeira revista em que se criticavam decididamente os novos tempos. Rotulada de revista política, Nem mais nem menos prometia fazer sensação.
Mas o público, sempre imprevisível, é que não gostou nada, recebendo o espectáculo, na estreia, com uma monumental pateada e atirando saquinhos de pimenta para o palco. Ao fim de 12 dias a peça, saía de cena, sem ter conseguido agradar a ninguém. Era uma linguagem nova que se tornava necessário encontrar. Entretanto, a gente dos teatros andava em grande agitação, pois, à mistura com as questões políticas, sociais e económicas, surgira mais a chamada «questão teatral», a que os jornais davam grande destaque.
É que a jovem República também se interessava em debater o Teatro, procurando dar-lhe uma nova dignidade. Por isso, uma portaria nomeara uma comissão de inquérito à arte teatral, a tão falada «sindicândia», que muitos tinham por insultuosa. Em face de tal medida, Júlio Dantas, republicano e comissário do Governo junto do agora chamado Teatro Nacional de Almeida Garrett (ex-D. Maria II) estava demissionário, assim como o inspector do Conservatório, outro dramaturgo de fama, mas este convicto monárquico: Eduardo Schwalbach.
Talvez para desafrontar Schwalbach, o público acorria a rir com uma das suas comédias mais célebres: A bisbilhoteira, reposta no República (ex-D. Amélia e futuro S. Luiz), com Adelina Abranches e Chaby Pinheiro. Quando chegou o Carnaval, foi A bisbilhoteira, como era de regra reforçada com uma pequena revista, de apenas uma hora e um quarto: Num rufo.
Servida por um elenco de nomes grandes, com os compadres feitos por Chaby, no «Homem do Bombo», e Adelina, numa recriação do seu travesti na famosa peça O Garoto de Lisboa, o êxito ultrapassou largamente o Entrudo. Só para ouvir Ângela Pinto cantar, em francês, em dueto com Alexandre de Azevedo, a «Valsa dos apaches», não havia teatreiro que lá não fosse várias vezes. A revista começou a aprender a falar.


Nascimento Fernandes no policia, Carlos Leal no compère, Lucinda do Carmo na bandeira monárquica e Delfina Vitor na bandeira republicana, no célebre número das Bandeiras de «Agulha em Palheiro», (1911).


A «agulha em palheiro»

Mas o primeiro sucesso a valer da revista em liberdade estreou-se, ainda em Fevereiro, no Apolo (ex-Príncipe Real), chamavá-se Agulha em palheiro e ficou em cena a temporada toda, fartando-se depois de ser reposta.
Os seus autores, Ernesto Rodrigues, Félix Bermudes e Lino Ferreira, tinham já um nome cuja fama não ia parar de crescer, a música era de Filipe Duarte e Carlos Caldéron, maestros dos bons, e os figurinos, nada mais nada menos que da autoria de José Malhoa, Alberto Sousa, Valença e Emérico Nunes. Tudo de primeira ordem. Também o elenco reunia quanto havia de melhor no género: jovem, Carlos Leal, compère por excelência durante mais de 40 anos, era o Zé Quintolas. Nascimento Fernandes, o cómico de talento fulgurante, que havia de dominar, quase sem competição, a década de 10, dividia-se entre o Galapito e o indispensável polícia 123. Lucinda do Carmo, actriz versátil, que saltava dos dramas de Ibsen para a revista apimentada, apesar de já andar pelos 50 anos, era ainda uma grande vedeta e emprestava a sua lendária mordacidade à figura da «Sindicância», essa novidade da vida portuguesa que a todos assustava e tudo devassava.
Liberta e irreverente, a revista encontrara enfim o modo de dissecar, à gargalhada, o panorama nacional e as suas novas perspectivas. Um dos quadros mais ousados era, pela certa, o que ironizava a expulsão das ordens religiosas, metendo a ridículos os padrecas, que cantavam compungidos: «Adeus belas frescatas / com freitas e beatas». Depois de tantos anos de silêncio imposto a tudo o que tivesse cheiro de sacristia, uma tal liberdade era uma festa. E havia, como era de esperar, um número às greves que rebentavam sem parar, pondo em cena «costureiras, floristas, sopeiras, telefonistas e parteiras, a reclamarem furibundas, ante a plateia deliciada, e a cantarem em coro: «Seja uma por todas e todas por uma / na greve ao patrão».


Chaby Pinheiro, o homem do bombo, e Adelina Abranches, o garoto de Lisboa, compadres de «Num Rulo».


Também as disputas em mudar ou não a bandeira nacional, assunto que mobilizara a opinião pública, mereciam um quadro que alcançou foros de escândalo. Enquanto Lucinda, na deposta bandeira azul e branca, se cobria de ricas sedas, entenderam os figurinistas que a jovem cantora Delfina Vítor, que representava a triunfante bandeira verde e encarnada, se deveria vestir de tecido popular e grosseiro. Mas a actriz é que não esteve pelos ajustes. Sentindo-se amesquinhada, rasgou o fato em pleno ensaio e gritou: «Não visto esta bodega!»
O caso constou, e tanto bastou para que se armasse uma pateada valente na estreia, sendo a actriz vaiada aos gritos de «Fora, talassa!», o que, para o tempo, seria como hoje corrê-la como fascista. Debulhada em lágrimas, a pobre Delfina mal conseguia explicar que, ao fim e ao cabo, o que ela queria era vir vestida com sedas, como as vedetas, e não havia política nenhuma no caso. Enfim! O caso pitoresco passou, Delfina agradou e a revista, uma vez encontrada a sua nova maneira de falar, foi acumulando êxitos, como Có-có-ró-có (1912), O 31 (1913), Novo mundo (1916), e tantos mais, contanto para escrevê-la com Ernesto Rodrigues, Félix Bermudes e João Bastos (a imbatível parceria), o grande André Brun, Luís Galhardo, Lino Ferreira e uma mão-cheia de outros. E actores como Nascimento Fernandes, Estêvão Amarante, Carlos Leal, Amélia Pereira e Joaquim Costa, não paravam de somar sucessos.
A liberdade era usada para criticar tudo e todos, e não havia politico que lhe escapasse. E sempre de cabeça erguida e com gargalhada sonante, lá seguiu a revista o seu caminho.»

Vítor Pavão dos Santos
Jornal Se7e 4-10-78
Fotos copiadas do Jornal Se7e