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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O Belo e a Consolação - George Steiner

«Somos aquilo que são as nossas memórias. Não nos podem tirar aquilo que temos dentro de nós. Vou explicar melhor: Neste século aprendemos que nos podem tirar tudo, a nossa casa, a nossa família, os nossos meios de subsistência. Somos todos errantes. Somos presas neste mundo. É a história deste século. Milhares de pessoas em África, nos Balcãs, no Sudeste da Ásia e em breve noutros lugares. São como "judeus" ou melhor, são caçados ou andam à caça. O que temos dentro de nós os malvados não podem tirar-nos.» George Steiner




Como escreveu alguém num blog: «A uma dada altura a SIC passou aquele que talvez tenha sido o melhor programa de televisão alguma vez feito». Entre 1 de maio de 2001 e 15 de maio de 2002 e depois repetido em 2006 a SIC, na rubrica (quinzenal) "Noites Longas", apresentou um programa de entrevistas que tinha como título holandês “Van De Schoonheid en de Troost” no original; "Of Beauty and Consolation” na versão inglesa e "O Belo e a Consolação" na tradução portuguesa, que em alguns programas mudou para, “Da Beleza e Consolação”, deve ter tido a ver com os vários tradutores envolvidos, já que traduziam de ouvido. A ordem por que passou na Sic foi: Richard Rorty, filósofo; Simon Schama, historiador; Martha Nussbaum, filósofa; George Steiner, escritor e filósofo; Roger Scruton, filósofo; Stephen Jay Gould, zoólogo e paleontólogo; Edward Witten, cientista e matemático; Steven Weinberg, cientista; Gary Lynch, neuropsicologista; Leon Lederman, cientista experimental; Vladimir Ashkenazy, pianista e maestro; Catherine Bott, soprano; Rudi Fuchs, director de museu; Karel Appel, pintor; John Coetzee, escritor; Elizabeth Loftus, psicóloga; Germaine Greer, escritora; Wole Soyinka, escritor; Yehudi Menuhin, violinista e maestro; Dubravka Ugresic, escritor; Grand Finale (debate em Amesterdão entre alguns dos participantes); György Konrád, escritor; Jane Goodall, escritor e etóloga; Tatjana Tolstaja, escritor e Rutger Kopland, poeta e psiquiatra. Esta ordem devia ser igual à que passou na televisão holandesa VPRO, já que é costume vir uma "running order" a acompanhar os programas. A série constava de 24 conversas (deviam ser 26 mas dois; Freeman Dyson, cientista e Richard Dufallo, maestro, nunca chegaram a vir, não se sabe a razão) com vinte e quatro pessoas extraordinárias com diferentes percursos e visões da vida: artistas, cientistas, músicos e filósofos. Apresentada por Wim Kayzer e produzida por Vera de Vries, foi pela primeira vez transmitida pela televisão holandesa VPRO, em 2000. No site da VPRO (Aqui) existe documentação áudio e vídeo em inglês sobre a série. Irei colocando aqui e no youtube todos os programas, seguindo a ordem que me der na gana e hoje deixo aqui, para quase todos, o programa "O Belo e a Consolação" com George Steiner, legendado em português.


George Steiner and his dog. Foto www.terra.es


George Steiner - Breve Biografia

Filho de pais austríacos, George Steiner nasceu em  Paris em 1929. Tem uma educação trilingue – francês, inglês e alemão. Mudou-se em 1940 para os Estados Unidos, tendo obtido a sua licenciatura em Letras, na Universidade de Chicago, em 1948. Em 1950, conclui o mestrado na Universidade de Harvard, onde foi agraciado com o “Bell Prize in American Literature”. De 1950 a 1952, foi bolseiro da Fundação Cecil Rhodes na Universidade de Oxford, onde se doutorou com uma dissertação que, após uma primeira rejeição, se viria a tornar em The Death of Tragedy (1961). Juntou-se à redacção do Economist, em Londres, sendo depois membro do Institute for Advanced Studies, em Princeton. Em 1959, recebeu o prémio O. Henry Short Story. Foi professor de Inglês e Literatura Comparada na Universidade de Genebra de 1974 a 1994 e membro do Churchill College em Cambridge. Actualmente é professor de Literatura Comparada na Universidade de Oxford e professor de poesia em Harvard (em aposentação). Colabora no The New Yorker, no The Times Literary Supplement, no Guardian e no Salmagundi. Foi ainda galardoado, a nível mundial, com múltiplas e diversas distinções, e agraciado com o grau de Doutor Honoris Causa por prestigiosas Universidades.  (In, www.ul.pt)




segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Ernest Hemingway e George Steiner




Ernest Hemingway em Cuba, à conversa com pescadores e marinheiros.1952. Alfred Eisenstaedt.
Foto LIFE Archive.


Ernest Hemingway e a modelo Jean Patchett por Clifford Coffin para a revista Vogue. 1950.
Foto encontrada em trovegeneral.com


Mesmo grande escritores não conseguem alterar a força de palavras simples. O nosso grande exemplo é Ernest Hemingway. Nunca mais ninguém utilizou da mesma forma a palavra "e", como Hemingway o fez. Uma das suas passagens ilustra bem as minhas preocupações. As pessoas não ligam à literatura mais impressionante. Estou a pensar num trecho do romance "The Sun Also Rises". Este título vem, obviamente do Livro de Eclesiastes. na Bíblia. Chamava-se "Fiesta" na edição inglesa. Dois amigos estão sentados no autocarro e julgam amar-se. Julgam ser inteiramente honestos um com o outro. «Atravessámos a floresta para depois subir a encosta, um prado verde e ondulado à nossa frente e montanhas escuras por trás, muito diferentes das montanhas queimadas donde viemos. Eram montanhas arborizadas das quais as nuvens escorregavam. O prado verde estendia-se, separado por vedações, com o branco da estrada a brilhar por entre as árvores, cruzando o prado para Norte. No cimo da encosta vimos os telhados vermelhos e as casas brancas de Burguete dispersas pelo prado. Ao longe, no espinhaço da primeira montanha escura, encontrava-se o telhado cinzento do mosteiro de Roncesvalles. Ali é Roncevaux, disse eu. Onde? Lá ao longe. Onde começam as montanhas. Está frio aqui, disse Bill. Estamos muito alto, disse eu. Pelo menos a 1200 metros. Está um frio horrível, disse Bill.»
Roncevaux é um lugar onde, na canção medieval de Rolando,  Rolando e os seus amigos traídos por um deles, são mortos na emboscada dos Sarracenos. A genialidade de Hemingway está no facto de não chegar a dizer isso. Só a palavra "Roncevaux" nos diz que os dois amigos se trairão. A amizade está a chegar ao fim. Depois a repetição. «Está frio, disse o Bill. Está um frio horrível.» Naturalmente, está a falar-se do frio no coração deles. Só um grande artista é capaz de dizer tudo sem dizer nada. A questão é que os meus alunos de Oxford, de Cambridge, os de Genebra e os de Harvard, já não sabem o que significa "Roncevaux". A próxima edição terá de trazer uma nota de rodapé, que liquida tudo. Enquanto no tempo de Hemingway, com o seu vasto público, era um romance muito popular e partiam do princípio que o nome "Roncevaux"... não era preciso explicar. Dentro de pouco tempo o nome "Elsinore" precisará de uma nota de rodapé. Não saberão nada, nem o que é "La Mancha". Isto é assustador.
George Steiner
In, «Of Beauty and Consolation». 2000


Ernest Hemingway e Yousuf Karsh em Cuba e Hemingway por Yousuf Karsh. 1957.
Foto de www.collectionscanada.gc.ca



Ernest Hemingway em Cuba.1952 e 1953. Alfred Eisenstaedt.
Fotos LIFE Archive.


Ernest Hemingway lendo um manuscrito. Sun Valley, Idaho, 1940. Robert Capa.
Foto encontrada em www.tomorrowstarted


Ernest Hemingway com Antonio Ordonez em Malaga, Espanha. 1960. Loomis Dean.
Fotos LIFE Archive.


Ernest Hemingway e Fidel Castro. 1960. Osvaldo Salas.
Foto encontrada em trovegeneral.com