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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

BELARMINO e RICHARD WIDMARK

BELARMINO (DE «CANA» SEM SABER PORQUÊ)
CONTRACENA COM RICHARD WIDMARK

 Jornal A Capital
3 de Novembro de 1970
(não assinado)


Coisas encontradas em jornais

Uma reportagem que é um festival de má-língua


 Belarmino e Richard Widmark em 1972, na capa de A Capital.

   Richard Widmark é um actor norte-americano célebre um pouco em todo o mundo. Fez muitos papéis, de «cow-boy». Foi xerife em «O homem das pistolas de ouro». Na década de quarenta interpretou um filme — por muitos considerado como a sua obra-prima — em que fazia de detective. Ferido, jorrando sangue, em perigo de vida, o polícia deu entrada num hospital. E quando o médico de serviço se preparava para o operar, o detective encontrou forças, ainda, para lhe cuspir na cara, manifestando-lhe, assim, todo o seu desprezo. O médico era negro (Sidney Poitier)...
   — O filme era uma extraordinária denuncia do racismo, mas Widmark desempenhava, ai, um papel perfeitamente de acordo com a sua  personalidade, com a sua maneira do pensar... — comentava ontem um técnico do cinema português. O comentário vinha a propósito, porque o técnico há vários dias que trabalha de perto com a grande vedeta do cinema norte-americano, há cerca de duas semanas em Lisboa, a rodar para a televisão  do seu país uma série em que volta a fazer de detective, intitulada «Madigan».


Richard Widmark foi Madigan na TV e no cinema.
Foto encontrada na net.

   Contudo, se a permanência de Widmark entre nós tem sido rodeada de curiosidade, os portugueses que com ele trabalham são unanimes em  considerarem a experiência como «bastante negativa»:
— Não aprendemos nada de novo, nem sequer no que respeita a organização, capítulo em que pensávamos que eles fossem de facto extraordinários — comentou um assistente de realização. — A equipa italiana que os americanos foram buscar para rodarem o filme em Portugal mais não tem feito que explorar-nos tanto quanto pode. A nós, técnicos, e a todos os outros!
   Entre , estes últimos conta-se o conhecido Belarmino Fragoso — sobre cuja vida agitada ainda há pouco os telespectadores puderam assistir à, exibição na TV do filme de Fernando Lopes, «Belarmino» — que  apesar de se ter deixado fotografar ao lado de Richard Widmark comentou:
   — Sou  figurante no filme, faço de camionista, vou de «cana» e tudo, não sei bem porquê, mas isso não é nada. Estou habituado a pequenos papéis no género. O pior é quando «toca» a pagar. Se não fossem uns amigos que aqui tenho, eles não me davam mais que «300» por dia... Na terra deles ganham dez vezes isso!


Esta foi a única foto que encontrei de "Lisbon Beat".
Foto encontrada na net.

A vergonha e o fosso

   Com efeito, o ambiente que tem rodeado as filmagens de «Lisbon Beat» (assim se chama o episódio da série «Madigan» que o actor está a rodar entre nós) não é, ao que consta, dos mais famosos. E embora as filmagens de ontem  não tenham sido muito agitadas, a verdade é que bastaram os três quartos de hora do jantar para se poder fazer uma ideia de quanto é grande o fosso que separa a vedeta americana e os seus mais íntimos colaboradores, por um lado, de toda a restante equipa (portuguesa), por outro.
   — Muitos de nós consideram que é uma vergonha, para, não lhe chamar outra coisa, trabalhar nestas condições. O triste é termos de aproveitar todas as oportunidades que nos surgem, tão poucas elas são... — desabafou outro técnico português integrado na equipa que esta a produzir a película, filmada a cores, em 35 milímetros, para a Universal Pictures.



 A série fez acontecer um filme, com Richard Widmark e Henry Fonda. 
Na foto, Don Siegel dá instruções aos dois actores. E, cartaz do filme. 
Fotos encontradas em acertaincinema.com e fencernanowrimo.blogspot.pt

   Widmark, um «pequeno monstro» de exigências continuas e pródigo em discussões a propósito de tudo e de nada, é apontado como um dos principais responsáveis. Para que o leitor possa, fazer uma ideia mais aproximada de quem é o actor — que, segundo certos autores, e apesar de se mostrar pró McGovern, esteve implicado no período negro de Hollywood, que correspondeu ao domínio do senador MacCarthy e à, fuga para o estrangeiro de muitos intelectuais norte-americanos — bastará referir, por exemplo, que para além de um apartamento num dos mais luxuosos hotéis da cidade ele tem às suas ordens uma vivenda em Sesimbra e uma «roulotte» exclusiva, que o acompanha em todos os locais de filmagens.
   — O realizador, Boris Sagal, muito conhecido nos Estados Unidos, também é outra «prenda» no género — comentou outro membro da equipa. —  Já há dois ou três dias, no aeroporto, nos criou a todos um problema que pode ter consequências graves. Por orientação dele tínhamos, pedido autorizações para trabalhar no aeroporto em todos os lados menos na pista. Uma vez lá, porém, ele entendeu que na pista é que era bom, e sem pedir  mais nada a ninguém invadiu aquilo tudo como se estivesse em casa dele. Acabámos por ser expulsos dali, depois até de um piloto de uma companhia americana, de aviação ter feito queixa, da violação das regras internacionais sobre o movimento nas pistas... Só esperamos que, no domingo, não venha a acontecer o mesmo nas  filmagens na ponte sobre o Tejo, entre as 17 e as 19 horas! — acrescentou.



Cartaz do filme "Belarmino" de Fernando Lopes (1964).
Foto encontrada na net.


Atribulações de Belarmino

   No meio do desfasamento geral, fácil de sentir, aliás, que reina entre os elementos da equipa, as filmagens de ontem (no Castelo de São Jorge, de manhã, e nos becos de Alfama, à tarde e à noite) mostravam um personagem positivamente á deriva, votado ao abandono, lutando contra, uma ignorância total do seu exacto papel no meio de tudo aquilo. Referimo-nos não a Richard Widmark, como é fácil perceber, mas a Belarmino Fragoso, vedeta de um filme de fundo que ele é  o primeiro a contestar, em certos aspectos, e um dos figurantes mais experimentados que hoje conhece o cinema nacional.
   — As pessoas pensam que, depois do filme sobre a minha vida, eu nunca mais fiz nada. Não é verdade. Fiz «As Ilhas Encantadas», com a Amália, em Porto Santo; «O Roubo dos Diamantes», com o António Franciosa; «O Cabeça de Martelo», o «Mal Amado», do Matos Silva, e outros ainda — conta Belarmino, um ex-«boxeur» ídolo das multidões que virou engraxador em tempos que já lá vão e que é hoje porteiro de uma «boate» alfacinha.
   — O último filme em que participei, antes deste agora, foi a semana passada, num francês, com a Nathalie Delon. Tenho muitos amigos com quem posso contar. Eles sabem que eu estou sempre «a cantar ópera», e então eu aceito porque o dinheiro extra que vou ganhando faz-me muito jeito. claro, se eu fosse o Eusébio, ou assim, pedia outro valor pelo meu trabalho, Como sou  só o  Belarmino, contento-me com o que me dão...


 "Belarmino" de Fernando Lopes (1964).
Fotos encontradas na net.


   Belarmino tem feito de tudo um pouco:
   —  No «Mau Amado» era engraxador (não sirvo para outra coisa...), nas «Ilhas Encantadas» fui pirata, no «Roubo dos Diamantes» fui bandido, ou policia, não, sei bem. Aqui sou  motorista,  vou «de cana» mas ainda estou para saber porquê. Mandam-me cá estar às tantas e é o que faço, tem  que ser!
   Se lhe perguntarem qual o papel, «Belarmino» à parte, que gostou mais de desempenhar, o ex-«boxeur» responde:
   — Todos. Faço isto pelo dinheiro, não é que me sinta actor. Mas nunca nenhum me chateou...
   Mesmo falando apenas de cinema, apesar dos abraços , de Widmark, Belarmino tem outros problemas. Por exemplo, uns  mandaram-no estar no «set» às oito da manhã, e outros disseram-lhe que só precisam dele às duas da tarde:
   — Estes tipos não se entendem, e eu também não os entendo a eles. Mas há pior. Olhe, por exemplo a televisão passar o meu filme e eu ainda estar à espera de receber algum... Então não era justo que me dessem uma parte? Mas. havemos de falar nisso noutra  altura!
   E enquanto Belarmino, pesado e lento, se afasta, Widmark, o sarcástico, prepara-se para, filmar outra cena. «Silêncio!», gritam os assistentes de realização. «É proibido tirar fotografias», ordenam eles. O actor não gosta dos «flashes». Só dos holofotes. Quando se é vedeta, é preciso ser grande em tudo...

Jornal A Capital
3 de Novembro de 1970
Trabalho não assinado



Um tributo a Richard Widmark no youtube.




quinta-feira, 10 de maio de 2012

Otto Preminger e o factor humano

"Eu não recebo conselhos de actores,
eles estão aqui para trabalhar"
Otto Preminger



O actor Otto Preminger 

Aos 4.05m tem uma cena de Otto Preminger, como oficial nazi Oberst von Scherbach,  chefe do Stalag 17, campo de prisioneiros alemão, no filme de Billy Wilder do mesmo nome de 1953 e que se chamou em Portugal; "O Inferno na Terra". As suas aparições no filme "roubam a cena" devido ao seu enorme carisma, além de sua composição caricata que, propositadamente, beira o ridículo - vale lembrar que, assim como Wilder, Preminger também era austríaco e judeu, e fora para os Estados Unidos fugindo da sombra nazi que já "rondava" seu país antes mesmo da eclosão da guerra; os dois cineastas também brincam aqui com a fama de Preminger, conhecido por ser rude e desagradável com seus actores - é como se o seu oficial nazi fosse uma paródia dele mesmo. 
(In, cinemacommel.blogspot.pt)

Olha que dois austríacos: Billy Wilder e Otto Preminger, 
um encontro nas filmagens do filme "Porgy and Bess", 1959.

«Tirânico, autoritário e intransigente. Esses são os adjectivos mais lembrados pela maioria dos actores e da equipe técnica que trabalhou com Otto Preminger. De fato, ele não tolerava incompetência, conversa fiada e tempo perdido. Nas suas mãos, era comum ver profissionais chorando, sendo humilhados, abandonando os sets, sendo demitidos – e readmitidos mais tarde. Para cada um que tivesse uma palavra de carinho a seu respeito (John Wayne, Henry Fonda, Joan Crawford, Dana Andrews, Don Taylor, James Stewart, Burgess Meredith e Frank Sinatra), havia outros tantos que lembravam da sua figura com um certo amargor ou até mesmo desprezo. (Karl Malden, Alice Faye, Kirk Douglas, Robert Mitchum, Linda Darnell, Dyan Cannon, Liza Minnelli, Jean Serberg e Tom Tryon). Em seus filmes, não havia espaço para improvisações. Ao actor era terminantemente proibido se afastar do argumento. E ai daquele que o procurasse com dúvidas sobre a psicologia do personagem. Para Preminger, o estilo Actor´s Studio de representar não passava de uma grande patetice.


Otto Preminger e Saul Bass durante a preparação do genérico para o filme "Anatomy of a Murder" (Anatomia de um crime,1960), Gjon Mili e durante as filmagens de "In Harm's Way" (A Primeira Vitória, 1965). Ralph Crane.


Otto Ludwig Preminger nasceu em 05 de dezembro de 1905 (ou 1906, segundo algumas fontes). Embora haja dúvidas em relação à sua cidade Natal (poderia ser Wiznitz, na Roménia, ou Rozniatow, na Polónia), seu biógrafos atestam que ele não nasceu em Viena. De todo o modo, Preminger se mudou para a capital austríaca aos 10 anos, quando seu pai Markus, foi transferido na condição de conselheiro jurídico da corte militar. Ainda na idade escolar Preminger logo começou a mostrar um interesse pelas artes, especialmente pelo teatro, ópera e literatura. Em 1922, ele já havia desempenhado pequenos papéis em montagens amadoras de Shakespeare. Sua sorte mudou no ano seguinte, ao conhecer o director teatral Max Reinhardt, pelas mãos de quem Preminger teria suas primeiras chances como actor profissional.


Otto Preminger ensaindo com Sidney Poitier em "Porgy and Bess", 1959 e Otto Preminger demonstrando com a actriz Jill Haworth como ele quer uma cena para o filme "Exodus", 1960.


A essa altura do campeonato, Preminger decidiu que sua vida estava no palcos e não na Faculdade de Direito que já frequentava. Para desconforto do pai, ele trancou a matricula do curso (que acabaria concluindo em 1928), e se enfiou de vez no mundo dos espectáculos. Entre 1926 e 1931, peregrinou por vários teatros da Europa e começou a dirigir algumas peças. A experiência chamou a atenção de alguns produtores que aceitaram patrocinar o seu primeiro trabalho para o cinema: "Die Grosse Liebe" ainda na Áustria em 1931.


Otto Preminger dirigindo Sidney Poitier e Dorothy Dandridge no filme "Porgy and Bess" 1959, e Otto Preminger dirigindo Dorothy Dandridge e Diahann Carroll no mesmo filme.


Otto Preminger dirigindo Sidney Poitier e Dorothy Dandridge no filme "Porgy and Bess" 1959.


Otto Preminger dirigindo Sammy Davis Jr. no filme "Porgy and Bess" 1959


Nesse momento, Preminger já era um nome associado à produção cultural de Viena. Em 1933, assumiu a direcção do teatro criado anos antes por Reinhardt. Em 1934, recebeu um convite do Governo da Áustria para tomar conta da companhia teatral do país, o que foi obrigado a recusar por motivações religiosas. Ironicamente a oportunidade perdida salvaria sua vida, já que, em 1938, quando Hitler invadiu a Áustria e começou a exterminar um judeu a cada esquina, Preminger estava dirigindo filmes em Hollywood, a quilómetros de distância da Europa.
Sua retirada da Europa começou a se desenhar em abril de 1935. Nesse ano, Preminger foi procurado pelo americano Joseph Schenck, um dos executivos da recém criada Twentieth Century-Fox. A fama de Preminger como director teatral atravessara o Atlântico e Schenck queria levar toda a aquela competência de que ouvira falar para a terra do Tio Sam. Preminger não pensou duas vezes e disse: "jawohl!!". Seu navio aportou nos EUA em 21 de outubro de 1935, data que ele consideraria para sempre como seu segundo aniversário.» (In, cineplayers.com)
 Ler aqui a biografia completa de Otto Preminger


Entrevista  a Otto Preminger, 1972.


Otto Preminger dirigindo Paul Newman no filme "Exodus", 1960.


Otto Preminger dirigindo Eva Marie Saint no filme "Exodus", 1960.


 Otto Preminger durante as filmagens do filme "Exodus", 1960.


 Otto Preminger durante as filmagens do filme "Exodus", 1960.



(Fotos Gjon Mili e LIFE Archive)