quinta-feira, 7 de junho de 2012

Stan Laurel, o Estica


E também 


Oliver Hardy, o Bucha


Uma pequena amostra da arte de Bucha e Estica.

Coisas boas em jornais


O OLHAR DE UM CRÍTICO SOBRE A TRAJECTÓRIA DESTA DUPLA DE CÓMICOS QUE MARCOU A HISTÓRIA DO CINEMA.


«Uma espantosa capacidade de adaptação às novas exigências impostas pelo meio».
Oliver Hardy e Stan
Laurel. Foto sem data encontrada em www.chroniclelive.co.uk

Arthur Stanley Jefferson nasceu em Ulverston, Grã-Bretanha, em 1890 e morreu em Santa Monica, Califórnia, em 1965, e Oliver Norwell Hardy nasceu em Atlanta, Georgia (EUA), em 1892 e morreu em Burbank, Califórnia, em 1957: actores sob os aliases de Stan Laurel e Oliver Hardy.
Não é despiciendo que o primeiro venha da Inglaterra e o segundo da Georgia. O início da frutuosa colaboração entre os dois deve-se ao produtor/realizador Hal Roach e ao argumentista/realizador Leo McCarey, um cineasta interessado numa comicidade realista que deriva muito mais das reacções psicológicas das personagens a determinadas situações que de fáceis efeitos visuais, caracteres disformes ou excessos rítmicos.

Oliver Hardy e Stan Laurel  em The Battle of the Century 
(1927) de Clyde Bruckman e produção de Hal Roach.

Laurel inicia a sua carreira artística na pátria (faz music-hall e circo): pertence a uma família de artistas (o pai é actor e director de teatros e a mãe actriz dramática de certa nomeada). Vai para os Estados Unidos com a companhia de Fred Karno (Chaplin também, estamos em 1910), entra no cinema em 1917, trabalha várias vezes para Hal Roach, interpreta a série «Stan Laurel Comedies», realiza filmes, alcança êxito.
Hardy, ao invés, provém das companhias que trabalham nos barcos fluviais. Quando entra no meio cinematográfico serve-se com notável desenvoltura criativa do seu aspecto físico e de uma mímica surpreendentemente comunicativa. Trabalha para a Lubin, a Pathé, a Vitagraph, e é também realizador de algumas curtas metragens de Larry Semon, um dos grandes actores da chamada slapstick comedy.
Hal Roach e Leo McCarey, homens de cinema extraordinariamente inventivos, compreendem as potencialidades da actuação conjunta dos dois — um magro, o outro gordo — em histórias que os coloquem numa oposição burlesca que faça ressaltar as suas distintas características físicas e compositivas. Estamos em 1926. Roach e McCarey organizam os argumentos que melhor se adequam aos dois actores e fazem-nos intervir numa longa série de filmes cómicos, curtas metragens que se distinguem por uma comicidade de índole aparentemente vulgar (a célebre série das «tortas atiradas à cara», das gravatas puxadas, dos fatos esfarrapados, em suma, da destruição de objectos emblemáticos) prosseguida no período sonoro, com filmes como The Brats, Below Zero, ambos de 1930, e outros, realizados, como estes, geralmente por James Parrott, em 1930 e 1931.

Oliver Hardy e Stan Laurel junto de Hal Roach. Foto encontrada em www.filmreference.com e Stan Laurel e Oliver Hardy in Wrong Again (Tudo ao Contrário, 1929) de Leo McCarey e produção de Hal Roach. Foto encontrada em benhasten.tumblr.com

Importa aqui referir que o advento do sonoro implica um nítido recuo no processo de evolução das técnicas de filmagem, recuo este particularmente notório no cinema cómico, já que a introdução da palavra na estrutura fílmica determina a crise da nuclearidade da imagem que a slapstick comedy tornara, nos anos precedentes, típica da sua organização discursiva. Esta crise atinge com rara violência muitos actores e realizadores cómicos. Ora, os que melhor resistem a este desmoronamento dos antigos modos de conceber o cinema cómico são precisamente Laurel e Hardy, que revelam uma espantosa capacidade de adaptação às novas exigências impostas pelo meio: é que, embora a sua comicidade seja baseada no slapstick, eles compreenderam a necessidade de distender as suas cadências e de atribuir um clima mais fantasioso (i.e., onírico) ao ritmo excessivo que imperava no mudo: a violência física, normalmente exibida na destruição furiosa de objectos, adquire um movimento mais vagaroso, quase de câmara lenta.


Estátua de Stan Laurel e Oliver Hardy do lado de fora do Coronation Hall Theatre, em Ulverston, Cumbria, Inglaterra, terra natal de Stan Laurel. Foto encontrada em wikipédia.com

A primeira longa metragem do par é Pardon Us (Bucha e Estica na Prisão, 1931), ainda de Parrott, que alcança um êxito extraordinário e permite a continuação da feliz associação. E sobretudo em Pack Up Your Troubles (1932), de George Marshall, Fra Diavolo (1933), de Hal Roach e Charles Rogers, Sons of the Desert (Os filhos do Deserto, 1933), de William A. Seiter, Babes in Toyland (Era uma Vez… Dois valentes, 1934), de Charles Rogers e Gus Meins,Bonnie Scotland (Apurados para o Serviço, 1935), de James V. Horne, The Bohemian Girl (Um Par de Ciganos, 1936), de James W. Horne e Charley Rogers, Way Out West (Bucha e Estica a Caminho do Oeste, 1936), de James W. Horne, Swiss Miss (Os Dois Tiroleses, 1938) e Block-Heads (O Cabeçudo das Tricheiras, 1938), de John G. Blystone, e The Flying Deuces (Homens… sem Asas, 1939), de A. Edward Sutherland, mas também em alguns dos filmes da década de 40, como por exemplo Chump at Oxford (Campeões de Oxford, 1940), de Alfred Goulding, Saps at Sea (Marinheiros à Força, 1940), de Gordon Douglas, e Jitterbugs (Bucha e Estica, Músicos de Jazz, 1943), de Malcolm St. Clair, que se aprofunda o contraste cómico entre os dois actores, um contraste que começava por ser físico e se tornava moral e ético, fundado na magreza e ingénua incapacidade (transparência) de «Stanley» oposta (e integrada) à manhosa e prepotente obesidade (opacidade) de «Ollie». 
(Salvato Teles de Menezes, Jornal de Letras 23-01-90)


Stan Laurel e Oliver Hardy, entretidos em um pub, propriedade da irmã de Laurel em Sunderland, Inglaterra, durante uma digressão à Europa em 1952. Foto encontrada em  www.bbc.co.uk


Foto de www.stanlaurel.com
O «Estica» deixou dito, em numerosas entrevistas, o que pensava dos seus companheiros de ofício.

O que Stan Laurel pensava dos outros cómicos

Oliver Hardy — Terrivelmente engraçado e divertido. Consegue fazer-me rir descontroladamente, mesmo ao fim destes anos todos juntos.

Charlie Chaplin — Muito simplesmente: O Maior!

Harry Langdon — Um grande cómico, que teve a preocupação de querer ser um grande actor como Chaplin.

Buster Keaton — Outro «máximo» e eu uso esta palavra muito cuidadosamente e não da forma que Milton Berle usa. Uma das razões pelas quais eu adoro Buster é porque ele, vive a Comédia e também participa nela. Algumas das suas coisas são melhores que as de Chaplin.

Billy Gilbert — Um dos quer está no cimo da roda! Pergunto a mim próprio, porque é que não há mais pessoas a darem por isso?!

Eddy Cantor — Ele e Jolson são óptimos «entertainers» e duma forma que não se vê noutros. Não são realmente verdadeiros cómicos. Mas óptimos cantores e «entertainers» no género que estou habituado a ver nos musicais ingleses. É uma vergonha que os novos Comediantes de agora não sejam tão bons como eles!

Jack Benny — Um grande espertalhão. Sabe em que consistem as características da Comédia. A única crítica que tenho a fazer-lhe é que uma vez por outra ele arrasta muito as suas graças.

Jack Paar — Uma coisa rara,nestes dias — Uma graça.

Jerry Lewis — Ele continua a imitar-se a si próprio, mas tem muito talento e penso que atempadamente fará as melhores Comédias. Espero que sim, mas terá que aprender a disciplinar-se artisticamente. (Stan faleceu em 1965).

Dick Van Dyke — Se alguém quiser fazer um filme sobre a minha vida — e espero que não queiram — eu gostaria que Dick Van Dyke fizesse de mim mesmo. Ele é um dos muitos poucos cómicos que existem por aí que sabe usar o seu corpo nas Comédias.

James Fin Lay Son — Bastava que largasse aquelas sobrancelhas, que eu aplaudiria...

Harold Lloyd — Dificilmente me fazia rir, mas admiro a sua criatividade. Um cómico engenhoso. Um dos melhores e mais honestos cómicos.
 (em, Jornal de Letras 23-01-90)


Stan Laurel na BBC provavelmente em 1952 ou 1953. 
Foto encontrada em  www.bbc.co.uk 


  
O actor Dyck Van Dyke leu este elogio fúnebre, em 
Fevereiro de 1965, homenageando Stan Laurel e a sua obra

Um elogio fúnebre


Há 30 anos atrás, quando os últimos filmes de Stan Laurel e Oliver Hardy passaram na minha cidade, no Illinois, eu aguardava as matinés de sábado, quer eram das onze da manhã às nove ou dez da noite, até os meus pais me irem buscar e me carregarem para casa. Daí por diante e durante toda a semana os meus pais ficavam entretidos e regalados, bem como os meus colegas da escola, com os meus comentários entusiásticos sobre Stan Laurel. Mas ninguém me prestava realmente muita atenção, porque muitas outras crianças também eram fãs de Stan Laurel.
Existem centenas ou milhões de pessoas por todo o Mundo que sentiram muita pena e saudades quando Stan nos deixou, é impossível a alguém conseguir falar por todas elas. O mais que posso fazer é falar por mim e dizer como sinto a sua falta. Foi a influência de Stan que fez com que eu decidisse ir para o mundo do espectáculo em primeiro lugar, além de moldar a minha atitude sobre a comédia. Claro que nunca tinha conhecido o senhor, mas há quatro anos atrás quando eu vim para a Califórnia ia fiz questão de conhecer Stan Laurel, custasse o que custasse. Depois de um ano de esforço para conseguir saber o endereço ou o número de telefone, qualquer coisa que me colocasse em contacto com ele, sabem como é que finalmente consegui? Numa lista telefónica normal... na lista telefónica do Oeste Los Angeles, que dizia: Stan Laurel, Ocean Avenue, Santa Monica. Um miúdo telefonou-lhe e recebeu um convite para o visitar e eu fiz exactamente o mesmo. 
Quando o fui visitar, a sua secretária estava repleta de cartas de fãs de todo o Mundo, que continuou a receber até morrer. Insistia em sentar-se à secretária com uma pequena máquina de escrever e a responder pessoalmente a todas as cartas. E claro que ele estava atrasadíssimo nas respostas e nunca conseguiu pôr em dia a correspondência. 
Numa das últimas manhãs que Stan passou na Terra, uma enfermeira entrou no quarto dele para lhe fazer um tratamento de emergência. Stan olhou-a e disse: «Sabe uma coisa? Adorava estar a esquiar.» A enfermeira perguntou-lhe: «Mas, o senhor esquia, senhor Laurel?» Ele respondeu-lhe: «Não! Mas preferia estar a esquiar, a estar aqui!» Uma vez, Stan disse que foi Chaplin e Harold Lloyd que fizeram «todos os grandes» e que ele e «Babe» Hardy fizeram todos os pequenos filmes e os mais baratos. «Mas eles disseram-me que os nossos pequenos filmes, foram vistos por mais pessoas durante estes anos, do que os deles. Eles devem-se ter apercebido com quanto Amor nós fizemos esses filmes.» Ele pôs nesse trabalho um «ingrediente» especial. 
Era um Mestre Cómico um Mestre Artista, mas punha um «ingrediente » que só uma pessoa muito humana podia pôr, que era Amor. Amor pelo seu Trabalho, Amor pela sua vida, Amor pelo seu Público. E corno ele amava o seu Público! Stan nunca foi aplaudido pelo seu trabalho como devia, pelas horas de trabalho árduo que tinha antes das filmagens. Ele não queria que as pessoas vissem ou notassem o seu trabalho. O que queria era que as pessoas rissem e, de facto, elas riam!(...)  
(em, Jornal de Letras 23-01-90)


 Mário Viegas idealizou um espectáculo em 1989, chamado "O Regresso de Bucha e Estica", com Juvenal Garcês e Eduardo Firmo, em homenagem a Stan Laurel e Oliver Hardy.

 Foto de "O Regresso de Bucha e Estica", noticia em O Jornal e programa.





quarta-feira, 6 de junho de 2012

O mundo de Ross Pynn (Roussado Pinto)


"A minha mente funcionava como a mente de um condenado."

Ross Pynn

Coisas boas em jornais


José Augusto Roussado Pinto (1926-1986), jornalista e autor multifacetado, elaborou e dirigiu durante vários anos, o "JORNAL DO INCRÍVEL" e o "JORNAL DA SEXOLOGIA", figurando como Directora a sua filha, porém era visível a concepção e a criatividade de Roussado Pinto. Sabe-se que usou dezenas de pseudónimos, em livros Policias, "Westerns", Espionagem, Amor, Aventura. Trabalhou em vários jornais, como o "DIÁRIO ILUSTRADO", assinando com o pseudónimo de Steve Hill. Também em revistas de fotonovelas como "CARÍCIA" ou "IDÍLIO" em que utilizou um pseudónimo, que se tornou muito comum, de Edgar Caygil. O pseudónimo de Ross Pynn, talvez tenha sido o que mais utilizou, nas suas inúmeras produções. Também foi incansável como autor e cronista de Banda Desenhada, como " O PLUTO", "MUNDO DE AVENTURAS", "TITÃ" e outros onde teve como companheiro um criador de desenhos, da envergadura de Vctor Peón. Roussado Pinto, assim como se dedicou a várias compilações, editou bastantes romances Policiais, curiosamente muitas vezes, com cenários da América, assinado com nomes a  dar a idéia de um americano, nato conhecedor daquele país, deixando assim a impressão de se movimentar naqueles meios. De facto o autor nunca terá visitado aquele Continente. (excertos do texto de Daniel Costa - in "JORNAL DA AMADORA" - 23/11/2006)


Evocação de Roussado Pinto (Ross Pynn) por Luis Campos em Jornal de Letras 20-10-1986.





Dinis Machado sobre Roussado Pinto


Diário Ilustrado

"Um dia, o Roussado Pinto, que era o director do Diário Ilustrado, chamou-me e disse-me que o jornal ia fechar. Tinham-lhe dado o prazo de um mês e uma determinada verba para ele fazer o jornal durante esse tempo. E ele propôs-me fazermos aquilo os dois: ele fazia um caderno, eu fazia o outro, e dividíamos o dinheiro pelos dois. Inventávamos histórias, inventámos coisas que não sabíamos se as pessoas iam perceber ou não. E no dia em que o jornal fechou, despedimo-nos à porta, e ele disse-me: "Agora espera pela minha chamada". E quando me chamou foi para fazer a Rififi."

Rififi

"Fui chamado para a Íbis pelo Roussado Pinto para dirigir a colecção Rififi, que era uma espécie de contraponto à Vampiro, mas muito mais desalinhada. Às vezes aparecia-me o restolho dos americanos, acho que cheguei a publicar o Dashiell Hammett e também o Raymond Chandler. E depois apareceram autores que eram considerados menores, como o Ross MacDonald ou o Frank Gruber, e que eu utilizava também como suportes do trabalho que eu queria fazer. Lia-os com o meu americano, sabia como é que diziam as coisas, aquela forma seca. A Censura fechava um bocado os olhos, achavam que aquilo não era importante. Não levavam a sério. Mas deviam." 

Dennis McShade

"Um dia, a minha filha estava para nascer, e eu precisava de vinte contos, fui falar com o Roussado Pinto. E ele disse: "Está bem, ganhas vinte contos, mas fazes três romances policiais com um nome americano, como eu faço". E fiz três romances policiais num ano. E pensei: "Bom, já agora aproveito o gozo da subversão do romance negro". Acho que fui um bocado subversor nos romances policiais: é a mistura do investigador com o assassino, um intelectual. Tem um lado de paródia: colocar um intelectual em zonas esconsas da vida, a fazer aquele tipo de trabalho. Foram três livros que fizeram escola: as pessoas que perceberam o que eu queria fazer, perceberam que ali estava o veículo para uma nova literatura. E a Censura também deve ter percebido, porque ao terceiro livro apareceu-me lá um tipo a perguntar quem era aquele McShade."


(In, viriatoteles.net - 2006)




terça-feira, 5 de junho de 2012

A Conquista da Lua

Destination Moon (1950)

de 
Irving Pichel (1891-1954) 


Destination Moon de Irving Pichel (1950).  Para fazer com que as estrelas aparecessem brilhantemente iluminadas, foram perfurados 534 buracos na pintura de Chesley Bonestell e iluminada por trás.

O filme Destination Moon de Irving Pichel (1950), foi baseado numa história do grande escritor de ficção científica Robert A. Heinlein, que colaborou no argumento, e foi assessor técnico do filme; o pintor Chesley Bonestell projectou cenários, naves espaciais, e pinturas de fundo para o filme. Uma enorme quantidade de tempo e esforço foram despendidos para torná-lo cientificamente credível, e o resultado foi visualmente surpreendente e impressionante para a época, ganhando o Óscar de melhores efeitos especiais. O interesse pelas viagens no espaço começam a se popularizar cada vez mais a partir do êxito de A Conquista da Lua, e não mais parou de aumentar, até porque foi nessa década que o Sputnik (1957) russo foi lançado.


Actor prepara-se para uma cena sentado numa estrutura presa á grua de filmagem que é utilizada para dar a ideia do movimento e cena em que um tripulante flutua indefeso, enquanto outro usa um tanque de ar para o salvar, ambos presos por cabos. 


Robert A. Heinlein e sua esposa Virginia Heinlein no local da rodagem do filme "Destination Moon". Os cenários que estão por trás são do pintor Chesley Bonestell, (Foto da Heinlein Society) e ilustração de Franka para o livro mais famoso de Robert A. Heinlein Stranger in a Strange Land (1961). Copiado do catálogo do catálogo do Ciclo de Cinema de Ficção Cientifica, 1984/85.



Dicionário
João Bénard da Costa
(entrada sobre Robert A. Heinlein)

"Um dos mais controversos e populares escritores de «fc». Para uns, fascista, militarista, chauvinista, para outros o mais sofisticado o mais naïf, a quintessência do próprio género. Entre marido e mulher, não meto a colher. Eu sei lá. Perguntem ao João Manuel Barreiros.
Seja como for, de 39 até hoje, Heinlein tem-se mantido no «top», desde os contos publicados na «ASF» até The Best of Robert Heilein (73) que o distingiu como «Grand Master do género.
Foi nos anos 40 que Heinlein se consagrou com Rocket Ship Galileo (47), Space Cadet (48), Red Planet (49), etc. Em 1950, o primeiro desses livros serviu de base a Destination Moon (50) e Heilein controlou de perto a adaptação. Dos «fifties» são Between Planet, The Rolling Stones (52), Starman Jones (53), The Star Beast (54), Tunnel in the Sky (56), Double Star (56), The Door Into Summer (57), Citizen of the Galaxy (58), e Starship Troopers (59). O último é o paradigma do seu estilo, o que mais amores e ódios lhe trouxe, juntamente com Stranger in a Strange Land (61).
Se não é quintessência, é um dos mais míticos autores de «fc». nesse mundo, ser-se pró ou contra Heinlein é a mesma coisa que, no nosso, ser-se pró ou contra Hitchcock. É o «test» decisivo." 
(João Bénard da Costa, entrada sobre Robert A. Heinlein no dicionário do catálogo do Ciclo de Cinema de Ficção Cientifica, organizado pela Cinemateca Portuguesa e pela Fundação Calouste Gulbenkian em 1984-1985)


Rodagem do filme Destination Moon, com o fotógrafo da revista 
LIFE Allan Grant, preparando-se para bater mais umas chapas.


 Dicionário
João Bénard da Costa
(entrada sobre Irving Pichel)

"Quase sempre ligado a co-realizações, Irving Pichel foi, como muitos outros deste dicionário, um nome esquecido pela critica, durante décadas, até que se reparasse na singular consistência da sua obra, de parceria ou sozinho. Antes de irmos aos começos, lembro que se estreou como realizador com um dos mais belos e míticos dos «thirties», The Most Dangerous Game (em Portugal, O Malvado Dr. Zaroff) que assinou com Schoedsack. Como Schoedsack tinha o seu crédito no passado, Grass e As Quatro Penas Brancas e teria no futuro King-Kong, Os Últimos Dias de Pompeia ou Mighty Joe Young toda a gente passou a dizer que Zaroff era sobretudo Schoedsack e Pichel foi esquecido. Mas a obra futura, sem talvez dar razão aos que hoje rodam 100 % e atribuem a autoria do Conde sobretudo a Pichel, revelaria que o lado fantástico e onírico desse filme é mais consistente com o universo do pesadelo de Pichel do que com o lado aventureiro de Schoedsack. She, que também co-realizou, (desta vez com Lansing C. Holden, em 1953) é a melhor adaptação da espantosa novela de Hoggard e um dos filmes mais delirantes dos «thirties» com uma imagética (e uma temática) quase tão surreal como a do célebre Most Dangerous Game.


A Conquista da Lua de Irving Pichel (Destination Moon, 1950).


Injustamente ou não, esses dois grandes filmes - duas obras únicas - não lhe valeram imediata fama. Pichel foi relegado para a Republic e para filmes de série B (que ninguém conhece) até reemergir na Fox em 41. nesse mesmo ano, coube-lhe a honra de produzir o primeiro filme de Renoir na América: Swamp Water. Depois, associado ao célebre argumentista Nunnaly Johnson (personalidade forte que «abafou» muitos e grandes realizadores) assinou Pied Piper (42), Life Begins at Eight-Thirty (42) e The Moon Is Down (43) que só agora começam a ser reabilitados e estudados. Passou à Paramount, depois à RKO e realizou Tomorrow is Forever (45) um filme curiosíssimo em que Orson Welles regressa do reino dos mortos para ajustar contas com a sua viúva (Claudette Colbert) gozando nos braços de George Brent «infernal prazer».
Depois de mais alguns filmes em que lançou Natalie Wood (ainda criancinha) e em que serviu Alan Ladd, virou-se para a ficção científica e foi o autor de Destination Moon (50).
Muita coisa se pode pensar e o desconhecimento da obra não ajuda. Mas The Most Dangerous Game, She, The Moon Is Down, Tomorrow is Forever, e Destination Moon provam uma notável coerência e uma capacidade incrível de movimentação nos terrenos do onirismo mais tenebroso.


A Conquista da Lua de Irving Pichel (Destination Moon, 
1950), com o fotógrafo Allan Grant numa delas.


Irving Pichel nasceu em Pittsburgh e formou-se em Harvard em 1912. Tentou uma série de empregos até chegar em 1937 à Metro onde começou a escrever «scripts». Mas nos anos 30, entre Zaroff e She, foi sobretudo conhecido como actor. Entre os seus muitos bons papéis há a contar o papel de Mason (o tenebroso acusador) em American Tragedy de Sternberg (32), o de Yamadori em Madame Butterfly (Marion Gering, 32) o de Fagin no Oliver Twist de Brenon, em 33, o de Appolodorus na Cléopatra de De Mille em 34 ou o de Estaline em British Agent de Michael Curtiz, em 34. Isto para além da colaboração com George Abbott (The Cheat, 31), Raoul Walsh (Wild Girl, 32) The Miracle Man (Norman Z. McLeod, 32), Willer (Jezebel, 38) ou Dieterle (Juarez, 39) entre dezenas de papéis. Ultra-insólita carreira, a deste homem que no fim da vida teve os seus problemas com o maccarthysmo e que morreu aos 63 anos num apagamento de que só agora começou a a sair. Master no palmarés The Most Dangerous Game, She, e Destination Moon, seja quais forem os créditos de Schoedsack, Holden ou Pal, já basta para um lugar de honra em qualquer história do cinema fantástico." (João Bénard da Costa, entrada sobre Irving Pichel no dicionário do catálogo do Ciclo de Cinema de Ficção Cientifica, organizado pela Cinemateca Portuguesa e pela Fundação Calouste Gulbenkian em 1984-1985) 


Faltava esta, é que o filme era a cores.

A Conquista da Lua de Irving Pichel (Destination Moon, 1950), 
foto encontrada em drnorth.files.wordpress

Curiosidade

Rumo à Lua foi inspirado pelo filme Destination Moon, de 1950, dirigido por Irving Pichel e baseado num livro do famoso escritor Robert Heinlein. Hergé começa neste álbum uma das mais memoráveis aventuras de Tintim, publicada pela primeira vez entre 1952 e 1953, 16 anos antes de Neil Armstrong pisar o solo lunar em 1969 e quatro anos antes do lançamento do Sputnik (o primeiro satélite espacial feito pelo homem), em 1957. A trama é uma deliciosa sucessão de intrigas, acção e piadas. E tudo com pitadas de ensinamentos científicos, por parte do professor Girassol e seus ajudantes. Hergé (pseudónimo de Georges Remi) era um mestre na arte de contar histórias. E como, originalmente, Tintim não era publicado em álbuns, mas em revistas semanais, vale notar que o autor quase sempre encerrava as tiras (sequências de três quadrinhos) com um gancho, um momento que "fisgasse" o leitor, deixando-o interessado pela continuação. Além disso, ao mesmo tempo em que construía um cenário de suspense e aventura, Hergé jamais se esquecia do humor, que surge sempre na hora certa, entre um momento de tensão e outro, cortesia do professor Girassol, dos atrapalhados policiais Dupond e Dupont e do capitão Haddock - seus xingamentos são um capítulo à parte, tanto que (acredite!) ganharam no mercado um francês um dicionário só para eles. (In, www.universohq.com)



(Fotos de Allan Grant e da LIFE Archive. Capa do Tintin encontrada na net)





segunda-feira, 4 de junho de 2012

Sony em vez de bananas


A SIC vai fazer 20 anos (3)



"A televisão é como a invenção das sanitas dentro de casa. Ela não 
mudou os hábitos das pessoas. Ela apenas os manteve dentro de casa."

 (Alfred Hitchcock)


Noticia em O Jornal, em junho 1992, sobre as obras de remodelação de um armazém de bananas em Carnaxide. Aqui vão ficar as instalações de uma televisão privada (a SIC). Várias informações são dadas na noticia, mas algumas não se confirmaram; nem o heliporto, nem as bebidas alcoólicas. Das pessoas que estão na foto, creio que só o patrão continua.


"Considero a televisão muito educativa. Cada vez que alguém 
na sala liga o aparelho vou para o quarto ler um livro." 
(Groucho Marx)



sábado, 2 de junho de 2012

Os Bairros de Lusalite


Interior duma casa, no Bairro da Boavista, 1940.

Algumas das fotos são do Bairro da Boavista em 1940, que foi inaugurado quatro meses depois do nosso, em 13 Junho de 1939. Estão aqui porque das duas primeiras não consegui arranjar iguais, mas do Bairro da Quinta da Calçada; são fotos do interior de uma casa, do dispensário e a terceira e quarta é para verem como era quase tudo igualzinho ao nosso bairro. 
Lembro-me ainda muito bem daquele tipo de armário e do guarda-pratos, que eram iguais na Quinta da Calçada e que no caso da minha mãe, duraram muitos anos; das cadeiras e das mesas não me recordo mas deviam ser iguais. Isto era a chamada sala de jantar, à direita entre o guarda-pratos ficavam os quartos e do local onde foi tirada a foto ficava a cozinha e quarto de banho. Repare-se no pormenor da lâmpada que era de 25w (era a única luz na casa), as outras divisões não tinham luz (só depois do 25 de Abril tivemos iluminação completa) e esta tinha de ser apagada às 10 horas da noite sob pena de multa. 

Dispensário e consultório médico no Bairro da Boavista,  1940. Domingos Alvão.

Foto do interior do dispensário médico que ficava no Infantário, que era o edifício à esquerda da Igreja e também igual ao da Quinta da Calçada. A minha mãe trabalhou durante uns tempos no infantário e contava-me algumas coisas de lá, aliás, manteve contacto com algumas das senhoras que lá trabalhavam; a Dona Mariazinha, a Dona Elisa, a Dona Irene. Eu, não fiquei com nenhuma recordação do infantário, tirando brincar aos médicos e enfermeiras nas traseiras. No caso da Quinta da Calçada, havia em frente ao Centro Social (mais tarde sede do Juventude União Clube) uma casa que era utilizada como maternidade e que foi onde eu nasci. A Ti Virgínia e a mãe do Armindo (Bába), disseram-me várias vezes que tinham ajudado a transportar a minha mãe e a mim numa padiola até minha casa.

Bairro da Quinta da Calçada; Centro Social, Igreja, Infantário, 1940. 

Bairro da Boavista; Centro Social, Igreja, Infantário, 1940. Domingos Alvão.

Bairro da Boavista, Inaugurado a 13 Junho de 1939, vista geral, 1940. Domingos Alvão.

O Centro Social era o local onde havia uma espécie de ATL da altura, onde as miúdas (principalmente) iam depois de saírem da escola. A minha irmã Isaura recorda-se: "No meu bairro havia uma escola para rapazes e outra para raparigas; Um Centro Social onde tínhamos actividades (ATL), depois das aulas onde aprendíamos a fazer renda, croché, tricô, a bordar, etc. A monitora era a assistente social Dona Elisa. Durante o tempo que andei na escola as aulas eram só de manhã, almoçávamos na escola e depois íamos para o Centro Social, onde ficávamos (as que queriam) até mais ou menos às cinco da tarde a fazer trabalhos manuais ou a ensaiar qualquer peça de teatro para apresentarmos. naquele tempo não sabíamos o que nos faltava porque não tínhamos conhecimento do que existia"


A Igreja já se sabe para o que serve, (quem quer que lhe faça bom proveito) tanto a católica como as outras. Não tenho grandes recordações da Igreja, embora a tenha frequentado algumas vezes (até me obrigaram a fazer a primeira comunhão), a certa altura deixei de lá ir (ia só à missa do galo, por causa das miúdas), lembro-me do sacristão, coitado; o que a gente gozava com ele. Tenho uma vaga memória de umas procissões que havia lá no bairro (acabaram quando era muito miúdo  e anos depois, das tardes e das noites de batota encostados às paredes da igreja; bingo, montinho, pedida, valia tudo menos tirar olhos.

O Infantário era destas três unidades a mais útil às mães e pais que tinham de trabalhar e não tinham quem olhasse pelos filhos. As Mães deixavam os seus bebés, “de borla”; e existia um posto médico, que se chamava na altura dispensário e creio que não tinha médico mas sim enfermeira ou alguém com conhecimentos médicos; existiam também várias “assistentes sociais” para auxílio material e moral aos mais necessitados. Tudo isto (Igreja, Centro Social, Infantário) ligado com o Fiscal do bairro e a esquadra da policia. Mais tarde, construíram-se mais dois bairros de lusalite: o Bairro das Furnas nos anos 40 e o Bairro Padre Cruz nos anos 60, como podem ver pelas fotos o tipo de lusalite era diferente.

O Bairro das Furnas
Inaugurado a 28 Maio de 1946

 Construção do Bairro das Furnas. 1945. Eduardo Portugal.

A Rua das Nogueiras no Bairro das Furnas. 1961. Artur Goulart.

O Bairro Padre Cruz
Inaugurado em 1962 ?

 A Rua do Rio Alviela no Bairro Padre Cruz. 1962. Artur Inácio Bastos.

Inauguração da Carreira de Autocarros entre a Praça dos 
Restauradores e o Bairro Padre Cruz, 1963. Armando Serôdio.


Curiosidades

Excerto de relatório do presidente da Câmara de Lisboa em 1940. Refere-se à construção do Bairro da Boavista, igual ao da Quinta da Calçada com alguns melhoramentos e a edifícios na Quinta da Calçada, que só foram acabados em 1940, caso das escolas e igreja. Clique para poder ler. 

Excerto de relatório de um serviço da CML em 1940.

Excerto de relatório do comandante da policia municipal de Lisboa em 1940 . Tem a curiosidade de o chefe da policia chamar ao Bairro das Minhocas; Bairro da Bélgica ou Bairro do Bélgica. Talvez tivesse os dois nomes e o nome Bélgica, talvez fosse por causa do cinema Bélgica que já existia desde 1928.

Excerto de relatório dos serviços de finanças da CML. Refere-se às rendas da altura. 



Palavras de um deputado em 1940

Seja-me permitido citar o Bairro da Quinta da Calçada, para onde, por iniciativa do Governo e da Câmara Municipal de Lisboa, foram transferidos os antigos moradores do «Bairro da Lata». (Bairro das Minhocas)
Toda aquela gente – que se dizia indomável e revolucionária, a ponto de nem a polícia ousar penetrar nos seus domínios – aparece hoje, a menos de um ano de convívio com a assistência social, como a melhor gente do mundo. À parte um ou outro caso mais rebelde, ninguém que visite o Bairro da Quinta da Calçada dirá estar em frente de uma «raça» estranha que ainda há pouco era considerada extremamente perigosa para a paz social.
Esta obra de regeneração completa de tantas centenas de famílias criminosamente votadas até há pouco ao mais absoluto desprezo e abandono é fruto da dedicação da Obra das Mães pela Educação Nacional, da Junta Central da Legião Portuguesa, que mantém um pequeno subsídio mensal em favor do Bairro e confiou a uma comissão da sua confiança o encargo de dirigir a assistência social, e do apoio da Câmara Municipal de Lisboa e do Sr. Ministro das Obras Públicas e Comunicações.
Mais uma vez se provou, pela experiência de poucos meses, que o povo português é fundamentalmente bom e generoso e só se torna mau quando, desprezado e abandonado, o tratam como se para ele não houvesse o direito à vida e à alegria de viver.
É por isso que, consciente desta realidade, subi a esta tribuna para trazer o meu incondicional apoio ao decreto-lei n.º 30:135 e o meu preito de homenagem ao Sr. Ministro da Educação Nacional pelo largo alcance da medida de que tomou a iniciativa com a publicação do referido decreto.


ABEL VARZIM da CUNHA e SILVA,  Deputado à ASSEMBLEIA NACIONAL
SESSÃO N.º 70 da Assembleia Nacional, Em 8 de Fevereiro de 1940



(As fotos são do Arquivo Fotográfico da CML, os excertos de
 relatório foram copiados de publicações da Hemeroteca da CML)




sexta-feira, 1 de junho de 2012

José Mário Branco e o Chant en Exil


Há dias estava a fazer um post sobre as várias versões da canção “Grandola Vila Morena” (Aqui) e descobri um vídeo do José Mário Branco a cantar a Grândola, que eu desconhecia. Fui ver ao youtube e existe um erro, no vídeo;  José Mário Branco canta (pela 1ª vez) “A Cantiga é uma Arma”, uma das canções de luta mais célebres do pós 25 Abril e não a Grândola. Nas informações do video falava-se de um documentário de nome "Chant en Exil", nunca concluído e que tinha sido restaurado. A associação Espace, (ver aqui) é quem está a desenvolver este projecto e espera encontrar algumas pessoas que entram no documentário, para que possam contar a história de suas vidas desde 1973, para poder ser mostrado em 2014, quando dos 40 anos do 25 Abril. Falei com o José Mário Branco e ele deu-me algumas informações sobre esse documentário e então decidi fazer este post para memórias futuras.



 José Mário Branco canta (pela 1ª vez) “A Cantiga é uma Arma”

A "estreia mundial" de "A cantiga é uma arma", no verão de 1973 na Cartoucherie de Vincennes (sede do Théâtre du Soleil da Ariane Mnouchkine). Este é o titulo que o video devia ter: José Mário Branco canta (pela 1ª vez) “A Cantiga é uma Arma”.


Em 1973, José Mário Branco andava a colaborar com o cineasta francês Dominique Dante, que neste site é indicado como tendo falecido em 2007 (será verdade?), num filme sobre migrações, neste caso portuguesas, que nunca foi acabado. Também em 1973, realizou-se um festival chamado Jogos Florais da Emigração Portuguesa, organizado pelo jornal "O Emigrante" que era editado e controlado pelo célebre Heduíno Vilar e o seu PCP-ML. Esse festival realizou-se no verão de 1973 na Cartoucherie de Vincennes (sede do Théâtre du Soleil da Ariane Mnouchkine), e algumas das filmagens do documentário terão sido aí.


"No Verão de 1973 foi convidado para participar nos "Jogos Florais da Emigração Portuguesa", organizados pelo jornal O Emigrante, ligado ao PCP(ML) de Eduíno Vilar e que tiveram lugar na Cartoucherie de Vincennes, um antigo convento ainda hoje sede do "Théâtre du Soleil", de Ariane Mnouchkine. Durante vários dias, e em diferentes salas, realizaram-se diversos espectáculos de teatro, música e leituras, com gente que veio de núcleos da emigração de toda a Europa: sobretudo da França, da Bélgica, a Holanda, da Suíça, da Suécia e da Alemanha. José Mário Branco participou como concorrente ao concurso de canções dos jogos, expressamente para esse efeito, compôs «A cantiga é uma arma». Só que, na véspera, foi ao Organon e, com Mário Jorge Bonito, policopiou a letra que foi distribuída pelo público pouco antes de entrar em palco. Quando cantou pela segunda vez o refrão, «A cantiga é uma arma / eu não sabia / tudo depende da bala / e da pontaria...», tinha duas mil pessoas a cantarem com ele. No fim, nos bastidores, Eduíno Vilar chamou-o ao lado e disse-lhe: «A tua cantiga é porreira, as pessoas apanharam-na à primeira, mas eu já estive a falar com o júri, tu não podes ter o primeiro prémio. Eles queriam dar-te o primeiro prémio mas eu opus-me, porque um verdadeiro revolucionário não pode dizer «eu não sabia»."  (José Mário Branco em, rateyourmusic.com)


O emigrante João Alves Escudeiro, contador de histórias, entrevistado por José Mário Branco para o documentário "Chant en exil", de Dominique Dante á entrada de um "bidonville em 1973, talvez o de Saint-Dennis.


Identificação das fotos extraidas do documentário inacabado "Chant en Exil", feita com a colaboração 
de José Mário Branco


 José Mário Branco e Francisco Fanhais (padre Fanhais) cantando juntos, em local desconhecido, mas terá sido nesses dias do festival de 1973.

Adelino Gomes entrevista um dirigente associativo de emigrantes, na presença de José Mário Branco, na Cartoucherie de Vincennes do Théâtre du Soleil, no tal festival de 1973. Pode ver-se "1789" por cima de uma porta, atrás do Adelino Gomes, que foi um célebre espectáculo desse grupo.

José Mário Branco junto de pessoa desconhecida, no tal festival de 1973 e José Mário Branco e Francisco Fanhais cantando juntos com essa pessoa a acompanhá-los. Pensou-se que podia ser um músico chamado Luís Pedro Faro mas, mandou-se um mail a ele e não é.

Manuel Freire,  nesses dias do festival de 1973.

José Mário Branco: “esse rapaz que está comigo andava a assessorar o Dominique Dante (realizador) no filme; lembro-me perfeitamente dele, (mas não tenho a certeza) creio que se chama Júlio Henriques, era de Braga, e creio que foi o escritor e ensaísta que, já em Portugal nos anos '80,  fundou uma pequena editora alternativa chamada "Fenda”.

José Mário Branco: “Entrevista colectiva com o Adelino Gomes, creio que no contexto dos Jogos Florais de 73; da esquerda para a direita, eu, o tal rapaz parecido com o  Luís Pedro Faro, o Manuel Freire, o Fanhais e o Adelino
José Mário Branco:  "Creio que é o José Maria Machado, um dos raros elementos do partido do Heduino Vilar e do  Jornal do Emigrante com quem eu me dava bem; o Zé Machado voltou logo no 25 de Abril e juntou-se, tal como eu, ao grupo do Francisco Martins Rodrigues que viria a fundar a UDP; ele era natural de Fafe e teve um papel importante na (difícil) organização da UDP no norte do país; curiosidade: foi a ele que eu ofereci o meu carro da altura, um velho Citroen-Diane azul claro, para o seu trabalho politico; foi responsável pelo nosso movimento em Braga, depois em Viana, depois chegou a ser do CC do PCP(R); depois soube que se tinha afastado (ou sido afastado) e que tinha aberto um restaurante em Caminha ou Vila Praia de Âncora; morreu muito novo, creio que do coração.

Gil Nave, um dos elementos de um grupo de teatro português na Bélgica, (creio que ganhou o concurso de teatro; JMB), que também participaram no festival de 1973, dos outros não se sabe o nome, excepto José Maria Machado. (Nunca mais vi o Gil Nave, fui sabendo que se tornara professor universitário, salvo erro em Évora; JMB). Um amigo anónimo diz que esta pessoa não é o Gil Nave mas, sim o José António que ensaiava na Holanda, fica a possível rectificação. Obrigado.

Álvaro Vasconcelos; O Carriço, braço direito de Heduino Vilar. Estes dois eram do PCP-ML, que mais tarde daria a "AOC" que ficou conhecida pela sua frase da altura do PREC; "cada voto na AOC é uma espinha cravada na garganta de Cunhal"; ficaram também conhecidos por serem o único partido político que depois do 25 de Abril manteve durante vários anos um relacionamento institucional com o Partido Comunista da China. 

Heduino Gomes que se fazia chamar Heduino Vilar e que durante anos não teve o "H"; converte-se anos depois ao cristianismo e adere ao PSD, onde desempenha funções importantes, com Mota Pinto; depois foi empresário musical da mulher, a cantora Ana Faria, dos "Onda Choc" e dos "Queijinhos Frescos" (ou ainda é?). "Hoje em dia luta para “defender a civilização ocidental dos bárbaros contemporâneos”. Acusa Pedro Passos Coelho de ser “integralmente inimigo dos valores da civilização e da coesão nacional”. E não perdoa a Cavaco que “promulga sem tossir as leis abjectas contra os valores da família natural e da vida – aborto e chamados ‘casamentos’ entre invertidos”. (In, da.ambaal.pt).

Álvaro de Vasconcelos, "O Carriço" (o «de» creio que é recente), foi definido por alguém como "o estrategista das guerras alheias". Nas biografias deste Álvaro não aparece nenhuma referencia aos anos da revolução; a coisa foi bem limpa. Segundo a Wikipédia; foi director da União Europeia Instituto de Estudos de Segurança desde maio de 2007 (não sei se ainda é). Antes disso, ele dirigiu o Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais (IEEI) em Lisboa, da qual ele é co-fundador, de 1981 a 2007, onde ele lançou várias redes, incluindo a Euro-Latino-Americana Fórum e EuroMeSCo. Álvaro de Vasconcelos é um Cavaleiro da Ordem da Légion d'Honneur (França) e Comendador da Ordem do Rio Branco (Brasil). Com presença assídua na imprensa internacional. Álvaro de Vasconcelos participa também regularmente como orador convidado em várias conferências. Esta parte já não é da Wikipédia; Trata-se  de um dos chamados "passarões" (podíamos até o chamar de Javier Solana cá do burgo), que aparecem nos media a transmitir recados e a "explicar" o que se passa no mundo. Uma pergunta que se coloca é se estes dois ainda terão ligações à China?.