domingo, 27 de maio de 2012

Juan Rulfo, Escritor e Fotógrafo

Coisas boas em jornais 


«Tive uma infância muito dura, muito difícil. Uma família que se desintegrou muito facilmente num lugar que foi totalmente destruído. Desde o meu pai e minha mãe, inclusive todos os irmãos de meu pai foram assassinados. Vivi, portanto, numa zona devastada. Não apenas de devassidão humana, mas devassidão geográfica. Nunca encontrei até à data uma lógica que explique tudo isto. Não se pode atribuir à Revolução. Foi mais uma coisa atávica, uma coisa do destino, uma coisa ilógica. Até hoje ainda não encontrei um ponto de apoio que me mostre porque nesta minha família sucederam nessa forma, e tão sistematicamente, essa série de assassinatos e de crueldades.»
in Los muertos no tienen ni tempo ni espacio, diálogo com Juan Rulfo.


Juan Rulfo (México, 1917-1986) é talvez o autor sul-americano mais comentado, elogiado e imitado do século XX. Toda a sua obra literária conhecida, que reunida pouco ultrapassa as 300 páginas, é considerada como fundadora, origem de uma nova forma de literatura, que deu lugar a escritores como Gabriel Garcia Márquez, um dos seus mais famosos e reconhecidos devedores. De Pablo Neruda a Carlos Fuentes, de Octávio Paz a Jorge Luis Borges e Juan Carlos Onetti, abundam os testemunhos de admiração dos seus pares e o assombro e desconcerto da crítica. Em contraste com este enorme rumor a rodear a escassa obra de Rulfo, está o silêncio em que desapareceu o escritor desde a publicação, em 1955, de Pedro Páramo e até à sua morte, em Janeiro de 1986. Silêncio este apenas interrompido pela revelação esporádica, por parte de jornalistas, da iminente “saída” de uma nova novela, La cordillera, que acabou por se tornar mítica. As tentativas de explicar esta prematura interrupção da escrita de um dos mais marcantes escritores contemporâneos no auge da sua fama contribuiu para aprofundar a «lenda Rulfo».
(textos de iraofuturo.blogspot.pt)


Juan Rulfo, o fotógrafo


"El mundo que Rulfo busca en sus fotografías es el mismo del que habla en su literatura. Tiene 
su misma temperatura, sus sombras, sus silencios, su tranquilidad. Tiene su magia y su melancolía."
(María Paulína Ortíz, In, umaespeciedemim.blogspot.pt)



Foto de Juan Rulfo, sem data encontrada em portada www.irdeb.ba.gov.br

 Fotos de Juan Rulfo, sem data encontradas em 
micasaesmimundo.blogspot.pt e www.irdeb.ba.gov.br

  Fotos de Juan Rulfo, sem data encontradas em 
www.irdeb.ba.gov.br e www.labfoto.ufba.br

  Fotos de Juan Rulfo, sem data encontradas em 
ricardoarmasphotography.blogspot.pt e www.labfoto.ufba.br

 Foto de Juan Rulfo, sem data encontrada em www.fabiopenacalgaleria.com.br



Assombro por Juan Rulfo
por

GABRIEL GARCIA MARQUEZ

A descoberta de Juan Rulfo - tal como a de Franz Kafka - será, sem dúvida, um capítulo essencial das minhas memórias. Eu tinha chegado ao México no mesmo dia em que Ernest Hemingway disparou o tiro da sua morte - 2 de Julho de 1961 -, e não só não tinha lido os livros de Juan Rulfo, como nem sequer tinha ouvido falar dele. Era muito estranho. Desde logo porque, naquela época, eu me mantinha muito a par da actualidade literária e, em especial, do romance nas Américas. Em segundo lugar, porque as primeiras pessoas que contactei no México foram os escritores que trabalhavam com Manuel Barbachano Ponce, no seu castelo de Drácula das ruas de Cordoba, e com os redactores do suplemento literário de Novedades, que Fernando Benítez dirigia. Todos eles conheciam muito bem Juan Rulfo, bem entendido. No entanto, passaram pelo menos seis meses sem que alguém me falasse dele. Talvez porque Juan Rulfo, ao contrário do que acontece com os gran­des clássicos, é um escritor que se lê muito mas do qual se fala muito pouco.
(...) De modo que eu já era um escritor com cinco livros clan­destinos. Mas o meu problema não era esse, pois nem então, nem nunca, eu tinha escrito para ser famoso, mas sim para que os meus amigos gostassem mais de mim, e julgava ter conse­guido isso. O meu grande problema como romancista era o facto de, depois daqueles livros, me sentir num beco sem saída, e procurava por toda a parte uma brecha para escapar. Eu conhecia bem os autores, bons e maus, que teriam podido mos­trar-me o caminho e, no entanto, sentia-me a andar em círcu­los concêntricos. Não me considerava esgotado. Pelo contrário: sentia que ainda me restavam muitos livros pendentes, mas não concebia um modo convincente e poético de os escrever. Estava eu nisto, quando Álvaro Mutis subiu, a passos largos, os sete pisos da minha casa com um pacote de livros, separou do monte o mais pequeno e curto e me disse, morto de riso:

- Leia isto, carago, para que aprenda!

Era Pedro Páramo.

 Nessa noite não consegui adormecer enquanto não terminei a segunda leitura. Nunca, desde a noite tremenda em que li a Metamorfose de Kafka numa lúgubre pensão de estudantes em Bogotá — quase dez anos antes —, eu sofrera semelhante como­ção. No dia seguinte, li a A planície em chamas e o assombro permaneceu intacto. Muito depois, na sala de espera de um consultório, encontrei uma revista médica com outra obra-prima desirmanada: La herencia de Matilde Arcángel. Durante o resto daquele ano não consegui ler nenhum outro autor, por­que todos me pareciam menores.
 (...) Os meses em que decorrem certos acontecimentos são essenciais para a análise da obra de Juan Rulfo e eu duvido que ele estivesse consciente disso. No trabalho poético - e Pedro Páramo é-o, no seu grau mais alto - os autores costumam invocar os meses por com­promissos diferentes do rigor cronológico. Mais ainda: em mui­tos casos, muda-se o nome do mês, do dia e até do ano apenas para evitar uma rima incómoda ou uma cacofonia, sem pensar que essas mudanças podem induzir num crítico uma conclusão terminante. Isto não acontece só com os dias e os meses, mas também com as flores. Há escritores que se servem delas pelo simples prestígio dos seus nomes, sem prestarem muita atenção ao facto de corresponderem, ou não, ao lugar e à estação do ano. De modo que não é raro encontrar bons livros onde flo­rescem gerânios na praia e túlipas na neve. Em Pedro Páramo, onde é impossível estabelecer de uma forma definitiva onde está a linha de demarcação entre os mortos e os vivos, as exactidões são ainda mais quiméricas. Ninguém pode saber, na rea­lidade, quanto duram os anos da morte.
 Quis dizer tudo isto para terminar dizendo que o escrutínio a fundo da obra de Juan Rulfo me deu, por fim, o caminho que procurava para continuar os meus livros e que, por isso, me era impossível escrever sobre ele sem que tudo isto parecesse ser sobre mim próprio. Agora também quero dizer que voltei a ler toda a sua obra para escrever estas breves nostalgias e que vol­tei a ser a vítima inocente do mesmo assombro da primeira vez. Não são mais de 300 páginas, mas são quase tantas, e creio que tão perduráveis como aquelas que conhecemos de Sófocles.



(excerto do texto de Gabriel Garcia Marquez lido em 2003, data em que se cumpriu o cinquentenário da primeira 
edição de "El Lano en llamas", no México. Texto já traduzido encontrado em estrolabio.blogs.sapo.pt)



sexta-feira, 25 de maio de 2012

VIVA O REI HERODES !!

ou
A PROBLEMÁTICA DAS CRIANCINHAS
COMO ESPECTADORES DE TEATRO


por
Mário Viegas


Mário Viegas, 1988.
As Crianças são seres que existem na humanidade há mais tempo do que as gravuras do Vale do Côa.
As Crianças são amadas por todos, é claro!  Cada Estrelinha que nós vemos no Céu, é uma Alminha de uma Criança que morreu.
E é que já morreram milhões e biliões!... E, cada dia, os astrónomos descobrem mais!...
Cristo dizia nos seus monólogos (quando andava em digressão pela Galileia):
- "Deixai vir a Mim as Criancinhas!!".
Fernando Pessoa (já com "uns copos"...) dizia, num dos seus Poemas:
- "... o melhor do Mundo são as Crianças.".
O Povo, e a Pova, diz na sua Sabedoria :
-  As Crianças são a voz de Deus!".
As Crianças são tão amadas e desejadas que, até os antigos Comunistas, comiam sempre uma ao pequeno-almoço!!!
Mas...
Mas as Crianças, ou melhor, as "putas das criancinhas", são a pior Coisa que há durante um espectáculo de Teatro!!!
Basta estar uma na plateia, para o espectáculo dessa noite estar todo lixado, mais tarde ou mais cedo.
Elas chegam, geralmente acompanhadas pelos Pais...
Os pais são avisados na Bilheteira, que o espectáculo: "Talvez não seja apropriado..."; "É muito grande..."; "Não vão perceber..."; "Acaba muito tarde..."; "Tem cenas pouco apropriadas..."; "não podem fazer barulho..." etc, etc... etc, etc...  Tudo tentativas vãs, de afastar "tais Espectadores"...
O Papá ou a Mamã respondem, babados, ameaças terríveis :
- "O meu filho porta-se muito bem."; "Ai, ele é muito sossegadinho!"; "Ah! Ele está muito habituado!"; "O espectáculo não é para todos?!"; "Eu responsabilizo-me!..."; "Se ele fizer barulho, nós saímos." etc, etc, etc...
E elas entram!! Entram !!!

Eu conto-lhes só duas histórias, que se passaram comigo, como Actor, e que demonstram bem como esses "seres", podem dar cabo de uma representação.
Em 1992, na peça "Nápoles Milionária" de Eduardo De Filippo, eu representava o Pai da família.  O quarto acto então, era muito emocionante e genialmente escrito pelo genial autor napolitano.
O público ficava preso à acção, num silêncio emocionadíssimo agarrado pelo drama que se desenrolava, em cena.  A minha filhinha mais novinha estava a morrer, nos bastidores, e não havia, em Nápoles, (onde decorria a acção, no tempo da II Guerra) remédios, nem dinheiro para a salvar.
Eu arranjara, para mim, uma marcação de cena muito boa!  Ficava todo o acto, sempre sentado de frente, numa cadeira colocada no meio da casa da família.  A luz da ribalta (uma luz que ilumina a cara, por baixo) salientava-me a expressão de dor, o olhar trágico, as lágrimas que caíam!...  E o público ficava ali, preso do meu rosto e olhar!...
Uma tarde, estava um calor horrível na nossa sala e eu suava em bica.  E nisto, no meio do maior silêncio e emoção teatral, ouviu-se a Voz Terrível de uma menina, que perguntou:
- "Oh mãe?! Ele está a chorar ou só está a suar?!"
Foi uma galhofa enorme! "caiu a casa!", como se costuma dizer... Estragou-se o De Filippo, a trágica história napolitana, as lágrimas de crocodilo do Actor, tudo!
Pensei (confesso!!) estrangular a menina!...

Outra história!  É que não há uma, sem duas....
No outro dia, em Loulé, ao apresentar o espectáculo "Europa Não!  Portugal Nunca!" (em que apresento a minha Candidatura à Presidência da Republica) e, depois de muito o público se ter rido e ter feito perguntas, houve um Espectador que disse que havia um menino que também queria fazer uma perguntinha.  Eu, armado em Actor Cómico, pedi a todos silêncio, porque era " a Voz de uma Criança, a Voz do Futuro" que ia falar! Estava, nesse momento, a falar-se de coisas muito sérias, graves e poéticas. Ouviu-se, então, a pergunta do menino em todo o teatro , apinhado de gente:
- " E vai dar auto-colantes?!!"
Foi a maior gargalhada e salva de palmas da noite. "Caiu a casa!".  E eu que me tinha esforçado tanto!! O cabrão do miúdo ganhou-me aos pontos!

Herodes, O Grande
As Crianças (como está provado) são um perigo como Espectadores, quer de uma peça dramática, quer de uma peça cómica.

Para terminar, aqui deixo uma discreta homenagem, como Actor, ao glorioso Rei Herodes, da Galileia, que numa única noite, resolveu "o assunto".  É o que vem no Novo Testamento...
Não escapou uma!!
Perdão!  Escapou um!!!  Escapou um!  Dizem que conseguiu fugir de burro com os Pais, da praia da Nazaré, para Belém...
Estamos lixados, há perto de 2000 anos, por causa dele!!...
Hossana!!!


Mário Viegas, Crónica no Diário Económico, 1995.



(Foto de Mário Viegas de citizengraveblogspot e a do Herodes estava na net)




quinta-feira, 24 de maio de 2012

O olhar de matador e o Águia d'Ouro

Evocação de Rodolfo Valentino
por
Alves Costa


Henrique Alves Costa (1910-1988) desempenhou um papel fundamental na divulgação do cinema no Porto e no país, e na divulgação do cinema português. Co-fundador do Cineclube do Porto, do Cineclube do Norte, da Federação Portuguesa de Cineclubes, dirigiu também a revista “Cinema”, desta última, e foi autor de variados textos críticos e livros.



Alves Costa
QUANDO eu era rapazinho, meu pai levava-me todas as semanas ao cinema. As vezes à saída, encontrávamos as ruas em reboliço. Soldados da Guarda Republicana galopavam pela Rua do Almada. Alguns chanfalhos alombavam em manifestantes menos lestos em escapar-se. Ouviam-se vivas ou morras lá para baixo, para a zona dos cafés. Nessas noites, a ida ao cinema era ainda a mais excitante. Meu pai, muito calmo e sem pressas, metia-me por travessas que nos, afastavam do burburinho e regressávamos a casa, tranquilamente, a pé. Naquela altura não se repartiam as fitas por idades, nem meu pai se preocupava em averiguar se ao menino convinha ou não convinha ver «Os últimos dias de Pompeia» ou «Charlot prestamista», as aventuras de Eddie Polo pelo Far-West americano ou os dramas de amor da diva Pina Menichelli. Santa liberdade que permitiu aos meninos da minha geração, antes da idade do liceu, entrar no mundo maravilhoso que o cinema descobria diante dos seus olhos avidos e muito abertos. Recordo melhor algumas dessas idas ao cinema, pela mão de meu pai, do que muitas sessões de cinema a que assisti nos últimos dez anos. Quem pode jamais esquecer a emoção, o espanto, a aventura, o fascínio de uma descoberta todas as semanas renovadas?


Cine Águia d’Ouro, 1968, possivelmente um dos cinemas referidos por Alves Costa.
Foto original de Óscar Coelho da Silva encontrada em casadecamilo.wordpress.com

Pois foi por ter acontecido pertencer a uma geração que, começou a ir ao cinema, livremente, aos cinco anos de idade, que pude ver, à data da sua estreia, «Os quatro cavaleiros do Apocalipse», primeira versão do romance de Blasco Ibanez, realizada em 1921 por Rex Ingram, tendo como interprete de um dos principais papéis o jovem actor Rodolfo Valentino, que viria a ser uma das mais populares figuras do cinema de todos os tempos. Na minha memória ficaram muitas imagens dispersas e confusas. Mas lembrava-me sempre da figura dum general alemão (interpretada por Wallace Beery, como muito mais tarde vim a saber) e de um tango (muito argentino....) que Valentino dançava... e que os meus parentes mais crescidos procuravam imitar nas bailações que se faziam em família em dia de anos. Tipo acabado do que os

Rodolfo Valentino com o olhar de matador no filme The Young Rajah (1922) de Phil Rosen. Foto LIFE Archive.

americanos chamam the latin lover, esse jovem e medíocre actor de olhos pisados e olhar castigador, tornou-se, de repente, o ídolo das mulheres de todo o mundo e modelo para os «don-juans » de todas as latitudes. «Arenas sangrentas» e o «Sheik» consolidaram-lhe a fama. Púberes donzelas encarnavam em Valentino todos os seus sonhos de paixões arrebatadoras ou de desvairados e românticos amores. Mulheres maduras e experientes compensavam, num amor platónico por Valentino, todas as suas frustrações sexo-sentimentais. Todas - sobretudo depois de terem visto «O Sheik» lançado em 1922 - traziam Rudy Valentino no coração e o pensamento perturbado pelo secreto desejo - que tantas noites lhes agitava o sono - de serem amadas, seduzidas, violadas por tão perfeito e perturbante apaixonado...
Eu ouvia falar muito de Valentino, nos meus muito verdes anos. Meus primos mais velhos - como muita rapaziada da época - usavam penteado lambido e patilhas «à Valentino». O retrato de Rudy podia ver-se à cabeceira de muita menina que despertava para o amor ou de muita solteirona pronta para a dádiva de si própria.. Levado naquela onda, com os meus doze ou treze anos, também algumas vezes vagamente desejei vir a ser assim belo, desenvolto, vitorioso e sedutor, quando fosse grande...


Rodolfo Valentino em The Sheik (1921) de George Melford e em The Young Rajah (1922) de Phil Rosen. Fotos LIFE Archive.

Quatro anos depois, estalaria o drama. Rodolfo Valentino, o great Iover por excelência, o ídolo de todos os corações românticos dos anos vinte, morria, após prolongada e dolorosa agonia, em 24 de Agosto de 1926, com trinta e dois anos de idade! A consternação excedeu todos os limites. Aqueles fenómenos de delírio ou de histeria colectiva de que tanto acusam os teen-agers de hoje, ficam a perder de vista ao lado da vaga emocional que sacudiu a América e a própria Europa.
Durante o velório e o funeral gera-se um aperto monstro. As pessoas empurram-se, pisam-se esmagam-se e muitas são levadas dali seriamente feridas. Centenas de mulheres perdem a cabeça, gritam, arrancam os cabelos, rasgam as roupas; desmaiam ao lado do ataúde, estrebucham em convulsões de histerismo, sufocam numa torrente de lágrimas e soluços. É um delírio colectivo como nunca se tinha visto. As ruas que conduzem ao cemitério, estão cobertas de flores. Desde a véspera que já não havia onde colocar mais coroas, mais ramos... Depois veio o luto... alguns suicídios... e a criação de associações para manterem viva a memória de Valentino. Em Portugal, muita gente vestiu-se de preto...


Funeral de Rodolfo Valentino.


Hoje, tudo isto custa um pouco a acreditar. Muitos, muitos anos depois da morte de Valentino, ao ver «O Sheik», com um pequeno grupo de pessoas de idades diferentes, encontrámo-nos todos a rir até às lágrimas com as cenas de amor do sedutor Rodolfo. Como tinha sido possível - interrogávamo-nos - tamanha loucura colectiva, tamanho fascínio à escala mundial por este jovem actor cujo magnetismo se perdera por completo e cujo «felino encanto» agora nos parecia profundamente ridículo?... Como foi possível que o tempo (umas dezenas de anos) tenha desagregado o mito, tenha destruído um dos maiores ídolos do cinema, tenha apagado o seu magnetismo?... Mas ter-se-ia - mesmo apagado?... Teria o ídolo sido mesmo destruído?...
Com espanto, verifico que o culto por Valentino não desapareceu ainda. Noticiaram os jornais que no passado dia 26 de Agosto, muitas centenas de pessoas vieram juntar-se à volta do túmulo de Rudolfo Valentino numa manifestação de emocionada saudade, quarenta e cinco anos depois da sua morte!
A morte de Valentino não apagou logo o fogo da sua popularidade, não extingiu logo a sua fama lendária. Mas os anos passaram. Vieram outros gostos, outras modas, outros tipos de sedutores outras gentes. Com o Cinema sonoro vieram outros ídolos. O tempo trouxe - supunha eu - o esquecimento. Um dia destes, abro jornal e leio com espanto que Rodolfo Valentino não tinha sido esquecido. Que ainda há quem mantenha vivo (ou reacenda) o culto da sua memória (e ao que diz a notícia são por centenas os votos!) e vá chorar sob a sua campa coberta de flores, a quarenta e cinco anos de distância da sua morte!... Mas quem? Velhinhas de setenta anos (que continuam a sonhar)?... Jovens (ainda românticas) e por certo frustradas, entontecidas e fascinadas por um herói de lenda?... Gostaria de saber.

ALVES COSTA, jornal A Capital, 11 de Setembro de 1971

Um cinema do Porto já desaparecido


 O Cine Águia d'Ouro no inicio dos anos 20.
Foto encontrada em doportoenaoso.blogspot.pt

 O Cine Águia d'Ouro no fim dos anos 80.
Foto encontrada em outra-face.blogspot.pt


O dia 17 de Junho de 1899 marcou o nascimento do Cinema Águia d’Ouro. Edificado na Praça da Batalha, no Porto, a sua fachada oitocentista marcou, durante anos, o cinema portuense. Foi circo, recebeu teatro e, em 1907, assistiu à estreia do cinematógrafo de Thomas Edison. A partir de 1920, a exibição de filmes começou a ser feita de forma regular. Viveu uma época áurea e no local, onde anteriormente funcionou um botequim, realizaram-se tertúlias com a presença de Camilo Castelo Branco, Delfim Maia, entre outros. No entanto, na década de 80 entrou em declínio e acabou progressivamente dotado ao abandono e à degradação, o que ditou o seu fim no dia 31 de Dezembro de 1989. 
(In, www.jn.pt)


Fachada do  Cine Águia d’Ouro por volta de 1964/65. Os dois filmes anunciados estrearam por cá em 1964  (Os 4 agentes secretos, filme francês de Georges Lautner) e 1965 (Os 29 Irmãos, filme português de Augusto Fraga). Geralmente só se fazia cartazes gigantes para filmes que iam estrear. 
Foto encontrada em monumentosdesaparecidos.blogspot.pt





quarta-feira, 23 de maio de 2012

EDUARDO GAGEIRO

Um Fotógrafo Português




 Sophia de Mello Breyner Andresen na casa da Travessa das Mónicas, 1964.
Fotos encontradas em diariosdemarie.blogspot.pt

"Já conhecia a Sophia de quando trabalhava na revista "Eva" e ela simpatizou comigo. Estava muito à vontade. Era quase da família. Naquele caso ela estava em casa assim e limitei-me a disparar. Era uma mulher com uma postura corporal fantástica, elegante, muito educada, e confiava em mim."(*)


Um Artista Português


Fotógrafo português nascido a 16 de Fevereiro de 1935, em Sacavém. Durante os anos 40 e 50 foi empregado de escritório na Fábrica de Loiça de Sacavém (1947-1957). Convivia diariamente com artistas plásticos que tiveram grande influência na sua decisão de se tornar fotojornalista.Com 12 anos publicou, com honras de primeira página, a sua primeira fotografia no Diário de Notícias. Mais tarde, com 20 anos, começou a sua actividade de repórter fotográfico no Diário Ilustrado. A partir desta altura começa a colaborar com publicações como O Século Ilustrado, Eva, Match Magazine, Sábado (da qual era editor), entre outras. Torna-se também fotógrafo de instituições como a Companhia Nacional de Bailado, Presidência da República e Assembleia da República. É membro de honra de várias organizações fotográficas internacionais e detentor de vários prémios. Vive em Lisboa onde mantém a actividade como free lancer. 
(In, Infopédia. Porto Editora, 2012)


Bairro Alto, Lisboa, 1969. 
Foto encontrada em imagespwr.blogspot.pt
Ericeira, 1973. 
Foto encontrada em 2.bp.blogspot.com

Orson Welles no Hotel do Guincho. Foto sem data 
(talvez do fim dos anos 60) encontrada na net.

"Ele era inacessível. Esteve em Portugal, mas só o apanhávamos a entrar e a sair do Hotel do Guincho. Como eu era amigo do dono do hotel pedi-lhe que intercedesse por mim. O sr. Wells lá condescendeu, mas avisaram-me: 'Tens de ser rápido." A única coisa que lhe pedi foi que se aproximasse da janela. Fiz duas fotografias. Num retrato é importante que haja uma empatia entre fotógrafo e fotografado. Se não existe, isso reflecte-se nos olhos do retratado. Vê-se que Orson Wells estava ali a aturar-me."(*)



Raul Solnado, 1966. 
Foto encontrada em diariosdemarie.blogspot.pt 

" a do Raul Solnado é inusitada. Tinha combinado uma reportagem com ele e como estava para breve a inauguração da ponte sobre o Tejo sugeri irmos para lá. Ele era um tipo fantástico, das melhores pessoas que conheci. Fizemos coisas malucas, como a fotografia dele no esgoto."(*)


Miguel Torga, 1985. 
Foto encontrada em diariosdemarie.blogspot.pt 

"Nessa altura eu era fotógrafo do presidente Eanes e andava a fazer um livro sobre o Alentejo, mas não tinha ninguém para escrever o texto. O Eanes pôs-me em contacto com o Torga. Ele aceitou, mas disse-me que cobrava cem contos. Um dinheirão em 1985. Quando conheci Torga, aproveitei para o fotografar, mas pensei: "Tramaste-me com os 100 contos, tramo-te com as meias." (Risos.) Não sou nada vingativo e aquilo ficou giro. Mas a história não termina aqui. Fui a Coimbra com o recibo do pagamento e ofereço-lhe umas fotos minhas do Alentejo. No meio da conversa, ele abre o armário e pergunta: "Já leu o meu último diário?" Respondi: "Não li, sr. doutor." Ele tinha montes de livros no armário, tinha acabado de receber 100 contos e responde-me: "Vendem aqui em baixo, na livraria." Não gostei, claro. Depois pedi-lhe um autógrafo e ele não achou graça.(*)

Gina Lollobrigida na Festa Patiño em Alcoitão, Cascais, 1968. 
Foto copiada de uma revista.

"tinham um fotógrafo estrangeiro e um português, um bate-chapas de quem não vou dizer o nome. O resto ficava ao portão. De repente vejo um tipo que eu conhecia dentro de um carro e pedi-lhe que me deixasse esconder no banco de trás. Parecia uma criança numa loja de brinquedos. Aquilo era só vedetas. Fiz dez fotos e fui expulso. O fotógrafo português entregou-me à segurança."(*)

 O 25 de Abril  de 1974. 
Foto encontrada em queridasbibliotecas.blogspot.pt 

"Às cinco da manhã recebi um telefonema de um amigo: "Vai para o Terreiro do Paço que é hoje." Chego lá, mas um soldado não me deixa passar. Com uma grande lata, digo que sou amigo do comandante. Mentira, nem sabia quem era. Apresento-me e o Salgueiro Maia diz para eu andar com ele. Não tenho a mania que sou herói, mas a fotografar nem penso no medo. Ouvi três vezes "Fogo", quando o Salgueiro Maia estava na Avenida da Ribeira das Naus. Foi o primeiro confronto entre os militares e os fiéis do regime. Felizmente recusaram as ordens de disparar. Depois entra-se numa fase de negociação, o interlocutor era um homem chamado major Pato Anselmo, que me disse: "Se me fotografas, mato-te.". Fiquei no mesmo sítio. É nesse momento que se resolve a revolução, quando o major é preso. Tenho essa sequência toda. O Salgueiro Maia dizia que a minha fotografia era histórica. Ele vem a morder o lábio para não chorar, porque foi naquele momento que se decidiu o 25 de Abril. Foi o dia da minha vida."(*)

1º de Maio de 1974. 
Foto encontrada em largodamemoria.blogspot.pt

Barbeiro, Santa Isabel, Lisboa, 1976. 
Foto do Arquivo Fotográfico da CML.

"Sou autodidacta. Aprendi com os jornalistas, com os livros que li, com revistas como a "Life" e com os artistas da Fábrica de Louça de Sacavém. Trabalhei lá com 13 anos, como paquete. Passava a vida a conversar e a tirar fotografias. O pior empregado de escritório. Depois fui manga-de-alpaca. Mas foi óptimo, porque tive um contacto mais directo com os operários. Mostrava as fotografias ao escultor Urbano Mesquita e foi ele que me ensinou o lado estético."(*)


Calçada em Lisboa, 1976. 
Foto do Arquivo Fotográfico da CML. 

O Princípio da Luz. (Período 1955-1980)
Foto encontrada na net.

Salazar, 1962 (tal qual o Infante em Sagres sonhando com Áfricas). 
Foto encontrada em diariosdemarie.blogspot.pt


Vendedor de banha da cobra, Lisboa, 1957. 
Foto encontrada em biclaranja.blogs.sapo.pt

Cinema Salão Lisboa no Largo Martim Moniz, 1968. 
Foto do Arquivo Fotográfico da CML.

Desfile do 25 de Abril, Lisboa, anos 80 (Eduardo Gageiro, et al.). Foto de Mario Bastos encontrada em flickr.com


*(excertos da entrevista de Vanda Marques a Eduardo Gageiro 
para o jornal i, sábado, 15 de Janeiro de 2011)




terça-feira, 22 de maio de 2012

Antoine Bonfanti e o Som dos filmes

Coisas boas em jornais


Trabalhava como projeccionista na cinemateca quando conheci Antoine Bonfanti, não fazia ideia de quem era, nem do seu trajecto, para mim era um técnico de som a quem a cinemateca prestava homenagem. Lembro um homem simpático com uns olhos penetrantes, que chegava de manhã para visionar filmes e trocávamos algumas palavras, não recordo em que língua mas, talvez em espanholês. Lembro que lhe ofereci um vinil de José Mário Branco que ele agradeceu e dias mais tarde veio ter comigo a dizer que o tinha ouvido e gostado imenso e a partir daí fazia-me imensas perguntas sobre musica e sobre Portugal a que lá ia respondendo como sabia. 


"O som certo, a política do som, não se aprende nos livros." 
Antoine Bonfanti 


Artigo de Vasco Pimentel na revista Grande Reportagem em Março de 1985. Antoine Bonfanti (1929-2006). Corso, engenheiro de som em todas as suas fases, um dos "inventores" do som directo, "A escola do som directo é francesa, disse o engenheiro de som Jean-Pierre Ruh, ela começou com Antoine Bonfanti.". Em 1945, depois da guerra e da Resistência, o jovem corso, começou quase por acidente como operador de som com Jean Cocteau. Trabalhou em mais de 400 filmes em todas as fases da criação de som. Colaborou com muitos dos principais cineastas franceses e estrangeiros, incluindo Jean Rouch, Jean-Luc Godard, Chris Marker, André Delvaux, Alain Resnais, Agnés Varda e muitos outros e também em Portugal onde trabalhou várias vezes.


“Plaquette”, editada pela Cinemateca em 1985. Contem uma extensa entrevista a Antoine Bonfanti feita por Vasco Pimentel e A. Pedro Vasconcelos e uma lista (não exaustiva) dos filmes em que participou.


Antoine Bonfanti captando o som em Polifonias - Paci é saluta, Michel Giacometti (1997) de Pierre-Marie Goulet, um dos últimos trabalhos de Bonfanti em Portugal. Documentário inspirado no seu amigo, também corso Michel Giacometti. Foto encontrada em  polifonias-athanor.blogspot.pt




domingo, 20 de maio de 2012

sábado, 19 de maio de 2012

Hermann Goering - O Ladrão de Arte


As guerras estão sempre associadas a matanças, mas também a pilhagens. O motivo porque muitas vezes foram desencadeadas foi para pilhar cidades ou povos inteiros. O que tem mudado é a retórica dos invasores, mas as práticas são sempre as mesmas. Neste domínio são raríssimos os povos inocentes. Os romanos pilharam os bárbaros para os civilizarem. Os povos muçulmanos e cristãos pilharam-se entre si sobre o pretexto de exterminarem infiéis, idolatras, etc. Parte do produto destes saques constituem hoje o espólio dos principais museus do mundo e de inúmeras colecções privadas. 
(In, confrontos.no.sapo.pt)


Fotos de William Vandivert

Soldados americanos carregam um camião com tesouros de arte recuperadas em Unterstein, Alemanha. Abril 1945.

«Durante a marcha nazi em toda a Europa, milhares de obras de arte e antiguidades de valor inestimável foram sistematicamente saqueadas. A pilhagem também era amplamente praticada pelos aliados. O roubo de objectos valiosos foi uma prática mais comum do que se possa imaginar e respondia pelo elegante nome de “Espólios de guerra”. O exército alemão, durante a 2ª.Guerra Mundial (1939-1945) foi dos mais sistemáticos nos crimes que praticou. Seguindo o exemplo francês organizou  vastas equipas de especialistas em história de arte para seleccionarem as obras que deviam ser confiscadas aos judeus e nos países que ocuparam. Os soviéticos e os "aliados" levaram por sua vez muitos dos despojos de guerra da Alemanha, convenientemente misturados com obras de arte que os nazi haviam pilhado a outros países. Mais recentemente a invasão do Iraque pelos EUA e a Grã-Bretanha, continuou a longa prática histórica de pilhar os povos invadidos.

Soldados americanos recolhendo obras de arte roubadas e escondidas em carruagens de comboio. E, soldados do 101 ª Divisão Aerotransportada recolhe obras de arte de um bunker. Alemanha, Abril 1945.

O maior ladrão de todos os nazis era Goering, chefe da Luftwaffe, a aviação alemã. Os roubos que praticava, era para exibir em festas que dava em sua casa e a maioria (as mais valiosas) escondia em locais improváveis, um pecúlio para o futuro. Em maio de 1945, depois da queda da Alemanha nazi, alguma da colecção de obras de arte roubadas por Hermann Goering, de valor incalculável, foi descoberta em uma mina de sal abandonada. A colecção, que ficara anos escondida na escuridão da velha mina contava com 1200 quadros raros, entre eles, “Mulher surpreendida em Adultério”, assinado por Johannes Vermeer, mestre holandês do século XVII, um dos maiores pintores de sempre.

Hitler cumprimentando Goering em 1938 e pintura de Vermeer, “Mulher surpreendida em Adultério” (que era uma falsificação) , pouco depois de ser resgatada. Alemanha, 1945.


O que distinguia a pintura de Vermeer, das demais obras é que aquele quadro em especial era o único que o oficial nazi não havia roubado. Goering, era um homem rico e tinha adquirido o quadro do mestre holandês em Amsterdão. Algum tempo depois, uma investigação da policia holandesa  a um falsário de nome Hans van Meegeren, trouxe ao de cima a verdade: o quadro era falso, e também veio a descobrir-se que o dinheiro que os nazis deram ao falsário era falso também.» Ler Aqui sobre Hans van Meegeren  
(texto elaborado a partir de olavosaldanha.wordpress.com, confrontos.no.sapo.pt e repensandodiferente.blogspot.pt)


 Pinturas recuperadas da colecção de arte de Hermann Goering. Alemanha 1945. 

  Pinturas recuperadas da colecção de arte de Hermann Goering. Alemanha 1945. 

  Pinturas recuperadas da colecção de arte de Hermann Goering. Alemanha 1945. 

  Pinturas recuperadas da colecção de arte de Hermann Goering. Alemanha 1945. 

  Pinturas recuperadas da colecção de arte de Hermann Goering. Alemanha 1945. 

O roubo do século
por Zevi Ghivelder



«(...) Herman Goering, o segundo homem do Reich, foi um dos mais perversos criminosos de guerra e responsável por algumas das mais atrozes violações dos direitos humanos. Entretanto, este auto-intitulado marechal tinha um sofisticado prazer de se fazer rodear por obras de arte que, por ordem sua, foram roubadas de museus e de propriedades particulares em toda a Europa ocupada. Essas pinturas e esculturas estiveram em exibição, para os altos círculos do poder nazista, em sua casa de campo em Carinhall, perto de Berlim. Depois de sete anos de pesquisas exaustivas, Nancy Yeide, curadora da National Art Gallery, em Washington, lançou, em 2005, um livro sobre a coleção de Goering, no qual constata que o chefe nazi apoderou-se de cerca de 2 mil obras de arte. A autora revela que, quando as tropas aliadas começaram a combater dentro da Alemanha, Goering embarcou em dezenas de vagões de trens seu saque milionário, no qual havia uma quantidade desproporcional de nus artísticos direccionados à Áustria. Entretanto, já era tarde. Os norte-americanos interceptaram os comboios e remeteram as artes saqueadas para a cidade de Munique, onde fizeram um primeiro inventário. Em seus levantamentos, a curadora concluiu que centenas de pinturas e esculturas roubadas por Goering e outros nazis haviam sumido em meio ao caos do fim da guerra. Aos poucos, essas obras foram aparecendo, inclusive duas telas de Matisse, que pertenciam ao marchand parisiense judeu, Paul Rosenberg, e que hoje se encontram na National Art Gallery, “de forma ilegítima”, conforme ela acentua. Outro saque de Goering, a famosa tela Retrato do Dr. Gachet, de Van Gogh, apareceu de forma surpreendente em um leilão realizado em Tóquio, em 1990, onde foi arrematada por US$ 82.500 milhões, um recorde para a época. (...) A pilhagem nazi estendeu-se até a União Soviética, depois desta ser invadida, em 1940, compreendendo museus, propriedades particulares, igrejas e sinagogas, com destaque especial para o palácio de verão de Catarina, a Grande, de onde foram levadas todas as riquezas existentes no deslumbrante Salão de Âmbar. Os alemães desmontaram o salão e o reconstruíram no castelo de Königsberg, que foi diversas vezes visitado por Hitler. (...)» 
(In, morasha.com.br)


(Fotos de William Vandivert e LIFE Archive)