sábado, 5 de maio de 2012

Hugo Jaeger, um fotógrafo de Hitler


«O fato de que a maioria das pessoas imagina a Segunda Guerra Mundial apenas em preto e branco tem um motivo sólido histórico: a maior parte dos estimados 40 milhões de fotos tiradas entre 1939 e 1945 eram a preto e branco. Os fotógrafos de Exército Vermelho nem sequer realizaram qualquer foto a cores, apesar do fato de que a Kodachrome da Kodak, o primeiro filme colorido produzido em massa, surgiu nos EUA em 1935 e veio para a Europa um ano depois. Demorou para os fotógrafos aderirem á cor, e só depois do fim da guerra é que a cor veio a dominar o foto-jornalismo. O caminho bizarro que as imagens podem levar desde a câmara até o público é demonstrado pelas imagens coloridas tiradas durante a guerra por um dos fotógrafos pessoais de Hitler, Hugo Jaeger. Ao contrário do fotógrafo principal de Hitler, Heinrich Hoffmann, Jaeger especializou-se em tirar fotos de cor de propaganda nazi, bem como do próprio Hitler.» (In, www.spiegel.de)


A cambada do Mal desfila em memória do putsch de 1923 (tentativa de golpe de Hitler e do Partido Nazi contra o governo da região alemã da Baviera), (á frente, esq. para direita) Friedrich Weber, Hermann Goering, Adolf Hitler, não identificado (? Martin Bormann), Julius Streicher; (atráz, esq. para direita) Albert Speer, Walter Schultze, Alfred Rosenberg e não identificado. Munique, Alemanha, 09 de novembro de 1938.

Congresso do Partido Nazi em Nuremberg na Alemanha. Setembro 1938.

Entre 1936 e 1943, foi concedido ao fotógrafo alemão Hugo Jaeger um acesso sem precedentes a Adolf Hitler. Ele foi autorizado a fotografar viagens, pequenas reuniões, eventos públicos e muitas vezes momentos privados do Führer. Em 1945, quando os Aliados estavam prestes a levar a Alemanha à capitulação, Jaeger ficou cara a cara com seis soldados americanos numa pequena cidade a oeste de Munique.


Ferdinand Porsche (o que inventou o Volkswagen) oferece a Hitler um modelo Volksflug na celebração do 50 º aniversário de Hitler. Berlim, Alemanha, 20 de abril de 1939.

Durante uma busca á casa onde Jaeger estava hospedado, soldados americanos encontraram a mala de couro na qual o fotógrafo tinha escondido milhares de negativos. Ele tinha consciência de que seria preso – ou pior -, se os americanos descobrissem seus filmes e sua estreita ligação com Hitler. Mas o que aconteceu em seguida o surpreendeu. Dentro da mala onde estavam as imagens de Hitler, Jaeger também havia colocado uma garrafa de conhaque. Feliz com o achado, os militares se empenharam em tomar a bebida com Jaeger e o proprietário da casa. A mala foi esquecida.


Eva Braun (amante de Hitler) e sua irmã Gretl Braun, 
em data e local desconhecidos. Alemanha, 1939.


A actriz Schroth Hannelore na recepção para artistas alemães, na Chancelaria nazi. Berlim, Alemanha, 1940. Manifestação militar em homenagem ao aniversário de 50 anos de Hitler. Berlim, Alemanha, 20 de abril de 1939.


Após a saída dos soldados, Jaeger pôs as imagens em 12 garrafas de vidro e as enterrou nas proximidades da cidade. Anos após o fim da guerra, retornou á cidade e cavando no local onde enterrara, reencontrou sua colecção. Todos os 2000 negativos ainda estavam em bom estado. Em 1965 ele os vendeu para a Revista LIFE. 
(In, segundaguerra.net)


A Estrada do Povo. Buckeberge, Alemanha 1937.


Goering em Munique durante a conferência de 1938. Munique, Setembro, 1938.


Hitler na Exposição Internacional do Automóvel, em Berlim, Alemanha. 17 de Fevereiro de 1939


Hitler recebe um Volkswagen como presente de aniversário, no Volkswagen está sentado o seu Adjunto Bruckner. Berlim, Alemanha, Abril, 1939.


Hitler e outros nazis numa festa de Natal. Alemanha, 1941. / Nieuport durante a invasão da Bélgica. Bélgica, Maio, 1940.


A  Legião Condor prepara-se para desfilar frente a Hitler, antes do regresso a Espanha. Berlim, Alemanha, Junho, 1939.


O Fuhrerbau, residência oficial de Hitler em Munique, Alemanha, Setembro, 1938.


Actores com Miss Schneider, assessora de Hitler numa recepção para artistas em Berlim. Alemanha, 1940.


A actriz Maria Luise Claudius numa recepção para artistas em Berlim. Alemanha, 1940.


A grande actriz Zarah Leander e o cantor Leo Slezak  numa recepção para artistas em Berlim. Alemanha, 1940. 


O pintor Sepp Hilz, com sua modelo e a pintura "Vénus Camponesa", escolhido por Hitler para a exposição no Dia da Arte Alemã. Munique, Alemanha, 1939.


O pintor Sepp Hilz, com sua modelo e a pintura "Vénus Camponesa", escolhido por Hitler para a exposição no Dia da Arte Alemã. Munique, Alemanha, 1939. 


O pintor Sepp Hilz, com sua modelo e a pintura "Vénus Camponesa", escolhido por Hitler para a exposição no Dia da Arte Alemã. Munique, Alemanha, 1939.


 Nazis em Paris, 1940 e na Bulgária, 1941.


(Fotos Hugo Jaeger e LIFE Archive)




sexta-feira, 4 de maio de 2012

Ave-Maria, cheia de graça

texto de

Manuel S. Fonseca

Expresso, 17 de Março de 2012


O caldo entornou-se. O jovem católico virou-se para o chefe de polícia e disse-lhe em tom de desgarrada: "Gostava que fizessem isso à sua mãe?" Ó meu amigo, palavras não eram ditas e já o até então polidíssimo agente lhe enfiava uma gravata que, vi eu, fez o ar dos pulmões do jovem bater no tecto da sala.
Tossia ele, tossia toda a velha sala da Cinemateca. Exibia-se, 1985, "Je Vous Salue Marie", de Godard, então inédito em Portugal por miúfa dos distribuidores.
Krus Abecassis, lendário presidente da Câmara, prometera escaqueirar tudo se a Cinemateca se atrevesse. Fomos perguntar ao João Bénard, que era quem mandava em nós, se nos atrevíamos.
O João foi claro: "Nessas coisas, sou uma senhora séria. Ora, como sabem, senhora séria não tem ouvidos." Preparámo-nos para o combate. Se de algum lado estava, a Graça estava do nosso lado. João Bénard era de um catolicismo doce que lhe impregnou o olhar e a escrita toda a vida, logo a ele que, tanto mudando, em nada de essencial algum dia mudou.
Sentíamo-nos, por isso, legitimados para passar um filme que mostrava o desejo de gravidez e o bendito ventre cujo fruto talvez fosse Jesus.
Éramos democratas, mas não éramos parvos: armou-se um dispositivo de Aljubarrota. Vigilância da PSP e dois dos nossos projeccionistas, tipos que combinavam volume de boxeur com altura de defesa-central, a filtrar entradas no magnífico portão da rua.

Boicote da estreia do filme "Je vous salue Marie" de 
Jean-Luc Godard, em 1985, com Krus Abecassis.
Foto encontrada na net.

Vendiam-se dois bilhetes por pessoa, o que frustrou as encantadoras virgens que quiseram comprar a lotação do cinema.
A sala era um ovo cheio. Gente no chão e no ar uma excitação misto de primeira comunhão e noite de núpcias. Fez-se escuro: a volúpia das imagens aflorou a tela e os jovens católicos pularam em ave-marias e salve-rainhas, subindo ao palco a esbracejar contra as sombras blasfemas.
As luzes reacenderam-se, iluminando um belo e poético caos.
Enquanto nós gritávamos aos jovens Savonarolas que "Je Vous Salue Marie" era a apologia da Imaculada Conceição, um filme sobre o mistério da mulher que, entre tormento e dúvida, aceita uma violenta graça e sobre o homem, José, que se torce de ciúmes, mas por amor confia, os velhos cineclubistas, com algum saudoso comunismo, apontavam à polícia os insurrectos: "É aquele...
e aquele." Era um mundo às avessas: velhos esquerdistas ajudavam a polícia e um miúdo, com vozinha de copo de leite, gritava-lhes: "Pides." Num arroubo místico, um dos rapazes desmaiou. Ajoelhou-se ao lado dele uma menina de calças de xadrez. Era bonita e parecia que, segurando-lhe a mão, rezava. Com vontade de rezar com ela, ainda pensei: "Vês, meu anjo, como ser virgem é estar disponível!" Saberia ela que, assim, na sua ajoelhada angústia, rimava com a imagem de Myriem Roussel no filme apóstata de Godard e repetia, prosaica e séculos depois, o poético mistério mariano?

Manuel S. Fonseca
jornal Expresso
17 de Março de 2012


"Saberia ela que, assim, na sua ajoelhada angústia, rimava com a imagem de Myriem Roussel 
no filme apóstata de Godard e repetia, prosaica e séculos depois, o poético mistério mariano? ". 

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Marlon Brando e Tarita

A Cinderela dos Mares do Sul

Fotos de Grey Villet

Marlon Brando e Tarita, a "Cinderella of the south seas", 
titulo da reportagem da LIFE em 1961.


«Marlon Brando é considerado um dos maiores actores de todos os tempos, alguém que, pela rebeldia, pela coragem, pela sua luta contra a injustiça, destacou-se como ícone de uma geração. Descendente de imigrantes irlandeses, Marlon Brando foi criado com duas irmãs mais velhas, Jocelyn e Frances. Em 1935 seus pais se separaram, e sua mãe mudou-se com os filhos para Santa Ana, na Califórnia. Dois anos depois, com a reconciliação dos pais, a família instalou-se em Libertyville. Em 1940, Brando entrou para a Academia Militar, em Fairbult, mas acabou sendo expulso por insubordinação. Em 1943 foi a Nova York, matriculou-se numa academia de teatro, dirigida pelo famoso Erwin Piscator, onde estudou o método de interpretação Stanislavski, com Setlla Adler. Fez sua estreia na Broadway em 1944, com a peça "I Remember Mama". Dois anos depois, foi apontado pelos críticos como o actor mais promissor do teatro de Nova Iorque.


Tarita Teripia, 19 anos, a "Cinderella of the south seas". 1961.

Em 1947 actuou - por sugestão do director teatral e cineasta Elia Kazan - em seu maior papel no teatro, o de Stanley Kowalski, em "Um Eléctrico Chamado Desejo", de Tennessee Williams. A estreia no cinema de Marlon Brando foi como um veterano de guerra paraplégico no filme The Men (O Desesperado, 1950) de Fred Zinnemann. Em 1951, Brando aceitou fazer novamente o papel de Kowalski numa versão para cinema de "Um Eléctrico Chamado Desejo", e o resto é história no cinema.


Tarita Teripia, 19 anos, a "Cinderella of the south seas". 1961.


 Tarita Teripia, 19 anos,na escola e com os pais. 1961.

Tarita Teripia, 19 anos, a "Cinderella of the south seas". 1961.


Marlon Brando conheceu Tarita em 1962, no atol de Tetiaroa, na Polinésia Francesa, durante as filmagens de Mutiny on the Bounty (Revolta na Bounty, 1962), de Lewis Milestone e não creditado Carol Reed. Tarita, uma filha de pescadores de Bora-Bora, era então uma criada de hotel de 19 anos e tinha sido contratada como bailarina para o filme. Durante um tempo resistiu aos intentos de sedução por parte de Marlon Brando. Em suas memorias, Tarita conta que quando o conheceu, não sentiu nada: "Para mim, o papel só significava um trabalho muito bem pago". Brando, que tinha o dobro da idade de Tarita, divorciou-se da actriz Movita Castañeda para casar-se com ela. Em 1966, Brando comprou uma ilha para Tarita, a 20 minutos de voo de Tahití, e que converteu no seu refugio privado. Tiveram dois filhos e não viveram felizes para sempre, em 1972 cada um foi para o seu lado.» (textos da net)


Fotos de Marlon Brando e Tarita, a "Cinderella of the south seas", em 1961.


Tarita Teripia, 19 anos, a "Cinderella of the south seas", em 1961. 


Marlon Brando, a esposa Tarita Teriipia e o filho Simon Teihotu, em 1965. 
Foto encontrada em jeniss.blogspot.pt



(Fotos Grey Villet e LIFE Archive, excepto a última)






terça-feira, 1 de maio de 2012

Memórias dos Cabos Ávila

Dedicado a 
Manuel Grave e Aurélio Grave
e a todos os que passaram por lá.


A recta dos Cabos Ávila em 1961. Arnaldo Madureira. Foto do Arquivo Fotográfico da CML.


Tinha 14 anos quando entrei para a fábrica dos Cabos Ávila. Tinha sido despedido de uma loja de tecidos na rua da Prata (a Pereira, Gonçalves e Xavier) por responder a um dos patrões e como se calhar já andava a dar problemas em casa, o meu pai tratou de arranjar maneira de eu ir para os Cabos Ávila para me ter sob controle. Trabalhei lá durante dois anos e meio até ser despedido por responder (que chatice) torto ao chefe dos guardas; Quando tocava a sirene a anunciar  o fim do dia de trabalho, os operários tinham 15 minutos para saírem da fábrica, Um dia resolvi tomar banho porque estava mais sujo do que o habitual e demorei uma meia hora e o chefe dos guardas desatou aos gritos comigo eu respondi com toda a delicadeza «vá gritar com a puta que o pariu» ou outra coisa do género e tratei de fugir rapidamente e esqueci o assunto e passados um mês ou dois ouvi  nos altifalantes «o operário numero tal é favor dirigir-se á secção de pessoal», quando lá cheguei disseram-me «pode ir vestir-se, está despedido». Tive alguma satisfação anos depois, quando o meu pai me disse que esse chefe dos guardas foi o primeiro a ser saneado a seguir ao 25 de Abril, era informador da PIDE. 

O meu tio Aurélio e o seu irmão Manuel (meu pai) já reformados e "livres" das 
máquinas infernais dos Cabos Ávila, onde passaram metade das suas vidas.


Eu com 15 anos em 1969, nesta altura
trabalhava nos Cabos Ávila. Aqui estou
com o meu sobrinho Paulo ao colo.
Tenho algumas memórias dos Cabos Ávila que duraram todos estes anos porque de certeza que têm a ver com o facto do meu pai contar em casa muitas coisas do que lá se passava. O meu pai, Manuel Fernandes Grave era Trefilador nos Cabos Ávila e trabalhou lá metade da sua vida (cerca de 40 anos) e recordo que o local da Trefilagem era á esquerda de quem entrava na nave principal. Sei que já velhote chegou a ser da comissão de trabalhadores e que teve um processo contra a administração dos Cabos Ávila, anos e anos nos tribunais e que acabou por ganhar. Lá também trabalhava o meu Tio Aurélio, irmão do meu pai e sei que trabalhavam por turnos que mudavam semanalmente (não tenho a certeza se era á semana ou quinzenalmente); era uma vida muito dura, aguentavam aquele ritmo á custa de muitos litros de vinho e tenho a certeza que com a grande maioria dos outros operários acontecia o mesmo. O meu tio Aurélio era mais implicado politicamente que o meu pai (penso que já naquele tempo era militante do PCP). O meu pai nunca foi militante mas tinha muitas simpatias, lembro-me de discussões da minha mãe com o meu pai por causa de ele querer ouvir a rádio Moscovo, nessa altura ninguém podia fazer barulho em casa já que o meu pai, Manuel Fernandes ouvia a rádio muito baixinho por causa de quem pudesse ouvir, já que na quinta da calçada ouvia-se tudo de umas casa para as outras. 

Noticias no jornal A Capital no ano de 1968, referentes á fábrica dos Cabos Ávila: A instalação de uma máquina gigante e uma festa de natal; tenho vagas memórias, da máquina recordo que ficou instalada na nave 2 e da festa de natal creio que foi no Cinema Lido da Amadora. Estas festas faziam parte da politica do estado salazarista, quase todas as grandes empresas faziam estas festas.


Nos Cabos Ávila assisti á primeira greve da minha vida (só tive consciência disso, anos mais tarde) e recordo perfeitamente essa paragem que não sei se durou mais que um dia; os operários parados ao lado das máquinas e do silencio geral. Recordo-me de o meu chefe me mandar fazer recados a várias partes da fábrica com recados absurdos do género «quantos parafusos havia de determinado tamanho» ou «quantas ferramentas havia em determinada secção» se «faltavam ferramentas», só muitos anos depois tive consciência de que me utilizavam (a mim e a outros) para saber os números da adesão á greve.  Recordo das andanças pela fábrica de um monte de homens de gabardina e estranhos à fábrica  (devia ser a PIDE) juntos com o chefe do pessoal e outros chefes de bata branca que eram os engenheiros (na altura chamavam-se: agentes técnicos?); não me recordo se estava lá o patrão mais odiado (Manuel de Ávila) que aliás só vi uma vez em dois anos e meio. Geralmente o meu pai referia-se ao Manuel Ávila como "Esse Bandido" e do outro patrão Jorge Ávila nunca o ouvi dizer nenhuma "bojarda", nem do pai deles Diogo Ávila, presumo que fossem, umas pessoas mais cordatas no trato com os operários. Deixo a seguir umas palavras de uma operária referente a essa greve, que trabalhou nos Cabos Ávila mais de 30 anos:

«Recordo-me que houve, em 1969, uma greve de três dias por aumentos. A empresa tinha muito mais mulheres que homens. Encheram a fábrica de pides, armados, para nos intimidar. Ao segundo dia, deram os aumentos às mulheres, pensando que assim acabavam com a greve. Mas a greve manteve-se, até haver aumentos também para os homens e até voltarem para a fábrica os trabalhadores que tinham sido postos na rua durante a luta. Nessas lutas houve despedimentos, houve comunistas e outros trabalhadores que foram presos, passámos muitos sacrifícios, mas resistimos.» 
(Rosa Faria, operária fabril, in, jornal Avante, Nº 1284 - 9.Julho.98)


Levantava-me muito cedo talvez seis e meia da manhã, tomava o pequeno almoço e apanhava o autocarro 50, que fazia a carreira Poço do Bispo até Algés, por volta das sete horas na segunda circular. Naquele tempo (1968/70), o 50 chegava de meia em meia hora (quando chegava) e ia pela segunda circular virava para Benfica ia até á estação de comboios, passava por baixo da linha férrea e ia até Pina Manique depois subia até aos Montes Claros no cimo do Monsanto, descia para a Estrada de Queluz e virava á esquerda para Algés. Aí era onde eu descia e ia a pé até á fábrica dos Cabos Ávila. Muitas vezes os atrasos do 50, faziam com que a carreira terminasse em Pina Manique e então tinha de ir a pé pelo Bairro da Boavista e atravessava as barracas do lado direito da estrada da Circunvalação e apanhava uma azinhaga ou estrada velha que ia dar á  Estrada Nacional 117 e á parte de cima da fábrica Cabos Ávila. No inverno era uma odisseia ir por esse caminho de terra porque desde grandes poças de águas a lama por todos os sítios era impossível chegarmos limpos á fábrica. Mas era o que fazíamos (havia muita gente do Bairro da Boavista que trabalha na fábrica) para não termos de dar uma grande volta; percorrer a estrada da Circunvalação passando a curva do parque de campismo até chegarmos ao cruzamento e subirmos até aos cabos Ávila passando pelos Laboratórios Azevedo.

Laboratórios, Torre e Escritórios. Maqueta do Arquitecto Edmundo Tavares 
e camião de transporte, parado perto dos laboratórios e torre dos Cabos Ávila. 
Fotos sem data, de IPPAR, e inoxnet.com.


Comecei a trabalhar na serralharia (como aprendiz), que era um barracão de madeira e onde fazia um frio dos diabos no inverno, tínhamos de fazer uma fogueira dentro de um bidão do óleo dos grandes para ficarmos com brasas para nos aquecer. Tenho uma cicatriz desses tempos e várias recordações daqueles 2 anos e meio que trabalhei nos Cabos Ávila (entre 1968 e 1970): Lembro-me da construção da Nave 2, porque alguns dos trabalhos foram feitos pela serralharia da fábrica, lembro dos vestiários com cacifos para cada operário (?), de lavatórios gigantes, como se fossem uns alguidares em metal para 6 a 8 pessoas (posso estar a inventar um pouco), dos chuveiros e de que havia água quente, uma coisa do outro mundo para quem só tomava um banho quente uma vez por semana. Havia uma biblioteca onde li muitos clássicos, que se podia levar para casa, havia um grupo desportivo, uma enfermaria com médico que creio era permanente; lembro-me da zona das oficinas por detrás da torre, onde havia uma rua que passava por baixo do edifício dos laboratórios ao lado da torre, da chaminé que ficava perto da carpintaria. 

Noticia no jornal A Capital em 1970, referente a um incêndio na zona da carpintaria. Disto não 
tenho qualquer memória e devia ter porque ainda lá trabalhava. Talvez estivesse doente nesta altura.


A nave principal era uma coisa gigante (para um miúdo) cheia de máquinas e com um barulho infernal, ainda agora parece que estou a ver o meu tio Aurélio a trabalhar junto de uma máquina no centro da nave. Do que não me recordo é de quanto ganhava mas devia ser uma miséria porque era uma miséria o que pagavam a homens e mulheres com filhos. Sei que comecei por receber á quinzena mas depois passou a mensal e quando o dia de pagamento calhava ás sextas feiras o Ávila só pagava na segunda feira seguinte dizia-se que era para ficar a ganhar juros nos bancos. Desta parte nunca me esqueci. A entrada para trabalhar era ás 8 da manhã e quem se atrasasse 5 minutos só entrava meia hora depois e era descontado no ordenado. A saída era, se bem me lembro ás 17,30h e tinha que se carregar num botão que dava verde ou vermelho, se desse vermelho éramos revistados tantos homens como mulheres.

Eram assim os Cabos Ávila por volta de 1970, trabalho "escolar" feito por mim, a partir das memórias desse tempo. É possível que tenha alguns erros mas nada de significativo. A recta dos Cabos Ávila não era tão larga, isto foi feito a partir de uma foto aérea do Google Earth de 2011.


Estas memórias estão muito misturadas já não sei onde começou uma e acabou outra; como já disse, comecei com aprendiz de serralheiro mas como tinha já alguma experiência, porque tinha trabalhado na Ferraria Franco no Campo Grande quase dois anos em 1965/66, rapidamente passei para ajudante do serralheiro mecânico principal da fábrica, que creio, se chamava Joaquim e acho que morava na Damaia. Assim deixei o barracão e passei a ajudar na reparação das máquinas e a trabalhar principalmente nas grandes naves 1 e 2 onde estavam quase todas as máquinas, este trabalho era muito melhor do que na serralharia, menos duro, menos sujo e só tinha um chefe e oficial a quem obedecer. Recordo a montagem de uma máquina gigante na nave 2 (ver a noticia de A Capital) que creio, era para fazer os cabos submarinos e de um acidente que não presenciei; De um operário que ficou sem os dois braços nos rolos metálicos das máquinas que amassavam o plástico para revistir os cabos, mas o meu chefe não me deixou ir ver. 


Estas fotos estavam lá para casa nas coisas de meu pai. Creio que se referem ao famoso "Um dia de trabalho para a Nação".  Isto ocorreu em 06 de outubro de 1974 e nas fotos estão o ministro do trabalho Costa Martins, a cumprimentar o Manuel Ávila que parece estar a dar-lhe a receita desse domingo. As fotos devem de ser de uma data posterior (pouco) e talvez se tenha organizado uma cerimónia. O que posso dizer é que o meu pai que está em todas as fotos não está nada satisfeito, assim como a maioria dos operários que assistem. E parece haver também algum incómodo na cara do ministro face ao ar satisfeito "desse bandido" Manuel Ávila, como dizia o meu pai.

«"Um dia de trabalho para a Nação" proposto pelo Primeiro Ministro Vasco Gonçalves. Um domingo é transformado em dia útil de trabalho oferecido gratuitamente pelos trabalhadores ao país. A adesão é significativa e o resultado financeiro desta campanha será dias mais tarde estimado pelas entidades oficiais competentes em cerca de 13000 contos.» (In, www1.ci.uc.pt)

Edifício dos Laboratórios e Torre dos Cabos Ávila, na foto da direita, vê-se mais em pormenor 
o que ficou de toda a fábrica. É considerado património industrial sem protecção?. Foto do IPPAR.


A Fábrica de Cabos Eléctricos Diogo d’Ávila instalou-se por volta de 1952, numa área industrial da Amadora, Alfragide. A sua implantação, nesta zona, foi estratégica de modo a tirar partido das vias de comunicação que a ligavam a Lisboa. O seu projecto arquitectónico é da autoria do arquitecto Edmundo Tavares, destacando-se de todo o edifício, de características marcadamente industriais, a torre do relógio, cuja função era suspender os cabos eléctricos, para a sua experimentação. Cessou a sua laboração em 1997, ficando o edifício devoluto, desde então, tendo sido parcialmente demolido em 2004. Neste momento para além de parte do edifício principal, também se mantém ainda erguida uma chaminé com cerca de 30 metros de altura.
(In, www.geocaching.com)


Recordo que foi aqui que comecei a aprender truques para quando fosse preciso ir para o médico e descansar uns dias em casa (mas esses não vos conto) com os outros ajudantes e aprendizes que eram tudo putos do Bairro da Boavista e do Bairro de Santas Martas em Algés, havia na altura bastantes putos a começarem a vida de trabalho. Foi nos Cabos Ávila que foi feita a minha primeira inscrição na segurança social e há uns meses fui verificar os meus descontos e constatei que a inscrição fora feita mas parece que o dinheiro dos descontos não chegou a sair dos cofres dos Ávila. E com todas estas memórias não vos cheguei a falar da Srª Teresa Ávila (de quem o meu pai me contou imensas coisas) que veio substituir o seu pai Manuel Ávila á frente da administração dos Cabos Ávila e que se revelou uma santa. É tão santa que só lhe desejo que vá para Serpa quando estiver 45 graus como preparação para o Inferno (escrevi isto antes de ver as fotos dela vestida de freira).

1978 - Lutas e negócios nos Cabos Ávila.

1981, Policias Paralelas - Noticia sobre a utilização de "comandos" nos Cabos Ávila como seguranças  
para intimidação dos trabalhadores. E duas fotos encontradas na net sobre o que resta dos Cabos Ávila.

2004, Cabo dos Trabalhos. Artigo da Visão. "Entre guerras de família, a administração 
da Cabos Ávila está a negociar a venda da maioria da empresa a investidores franceses".


1998 - Aspecto da concentração de trabalhadores da Cabos Ávila no refeitório da empresa por ocasião da passagem 
do 1º aniversário da entrada da fabrica em situação económica difícil. Foto António Cotrim, Lusa encontrada na net.

1997 - Excerto de uma reportagem sobre mulheres empresárias em que a própria Teresa Ávila diz que o pai Manuel Ávila «...havia assinado um documento que me proibia assumir a gestão de pessoal da empresa...». O que curioso é que nesta reportagem havia várias mulheres a serem entrevistadas e com fotos excepto Teresa Ávila. Eu já tinha feito uma busca exaustiva para arranjar uma foto de Teresa Ávila e não tinha conseguido nada. Foi então que lendo um "Avante" antigo que referia uma luta dos trabalhadores dos Cabos Ávila, e onde se falava numa reportagem do jornal Tal & Qual (de que falo adiante) e de onde fiz esta ampliação desta foto de Teresa Ávila com o pai Manuel Ávila. Duas prendas que ficam em foto para memórias futuras.


1997/1998 - Noticias sobre as Lutas nos Cabos Ávila


A responsável pela gerência da empresa Cabos Ávila, cujos trabalhadores estão desde final de Novembro em luta pelo pagamento de salários e pela garantia de viabilização da empresa, mandou anteontem encerrar os portões da fábrica.
Os trabalhadores decidiram paralisar desde 28 de Novembro, por não terem sido pagos os ordenados desse mês e parte do mês de Outubro. Desde essa sexta-feira a gerência não voltou a comparecer na empresa, fazendo Teresa de Ávila a ligação às hierarquias apenas por telefone, a partir do escritório da sua empresa Cablexport (também de cabos eléctricos, mas onde não se verifica a participação de outros herdeiros, como na Cabos Ávila).
A insistência de Teresa de Ávila em ocupar a cadeira da administração é o principal impedimento a que a empresa retome a laboração e comece a cumprir os seus compromissos para com os trabalhadores, os fornecedores e o Estado, que é o principal credor da fábrica de cabos eléctricos.
(...) nas instalações de Alfragide mantinha-se a situação que tem sido tratada como braço-de-ferro entre aquela gerente e os trabalhadores dos Cabos Ávila, que ainda não receberam os salários de Novembro e Dezembro e o subsídio de Natal, bem como retroactivos de Janeiro, Fevereiro e Março do ano passado. Alguns também não receberam parte do subsídio de férias e do salário de Outubro. O valor médio da dívida é estimado em 350 contos por trabalhador.
Apesar de desautorizada pela demissão da gerente principal, Ana de Ávila, e pela oposição dos restantes familiares-herdeiros, Teresa de Ávila continuava barricada nas salas da administração. Os trabalhadores, em horário normal e em piquete durante a noite, também não estão dispostos a abandonar a fábrica. Nas instalações mantém-se igualmente um elevado número de homens do Corpo de Intervenção da PSP. 
(In, «Avante!» Nº 1254 - 11.Dezembro.97)


O Natal das bandeiras negras


Noutras ocasiões os trabalhadores dos Cabos Ávila foram forçados a recorrer a formas de luta, para exigirem o respeito pelos seus legítimos direitos e para garantirem o futuro da empresa e dos postos de trabalho. Desta vez, com uma pronta intervenção do Governo, poderia ter-se evitado que este fosse o Natal mais amargo dos que trabalham nos Cabos Ávila.
(...) A preocupação marcou o mês de Dezembro e ensombrou o Natal dos trabalhadores, situação denunciada com faixas e bandeiras negras a quem passava na «recta dos Cabos Ávila» naqueles dias.
No início do novo ano foi retomada a luta dos trabalhadores, que a 6 de Janeiro se deslocaram à residência do primeiro-ministro, para novamente reclamar do Governo uma intervenção que pusesse cobro aos desmandos de Teresa de Ávila. Na manhã seguinte, os primeiros operários a chegar aos portões da fábrica impediram a saída de uma viatura carregada por um grupo a mando da auto-administradora. Mais tarde, quando também os familiares de Teresa de Ávila foram por ela impedidos de entrar nas instalações, os trabalhadores forçaram a passagem e foram com aqueles até junto da misteriosa carga... que, como logo se descobriu, estava pronta para sair em tais condições que os herdeiros avançaram com uma participação por furto. 
(In, «Avante!» Nº 1259 - 15.Janeiro.98 )

A Fábrica dos Cabos Ávila em 2009. Foto de ruinarte.blogspot.pt


"Manuel d'Ávila deixou marcas na história da empresa, pela frieza com que despedia, pelos baixos salários que sempre fez pagar e pelo recrutamento de mulheres porque lhes podia pagar ainda menos que aos homens. Rosa Faria (delegada sindical e membro da Comissão de Trabalhadores, operária fabril há 30 anos no Ávila) e Aida Catarino (delegada sindical, há 35 anos na empresa, empregada de escritório), ao recordarem esse passado, lembram também que, não por acaso, as primeiras reivindicações após o 25 de Abril foram de aumentos salariais e de acabar com os despedimentos à maneira de Manuel d'Ávila.
(...) Teresa é uma das filhas deste patrão, cuja biografia os nossos entrevistados remetem para notícias já publicadas (designadamente no «Tal e Qual», no início deste ano, 1998). Lembram, contudo, que teve uma tempestuosa passagem pela empresa, como administradora social. Recusou-se a negociar o acordo de empresa, mesmo depois de uma greve de 14 dias, e mais tarde mandou colocar 50 trabalhadores na «sala amarela», mantendo-os desocupados durante um ano, e passou toda a gente para o regime de turno fixo. Também tem no seu palmarés o fim da creche que funcionava na fábrica. Chegou a despedir a própria irmã, ao saber que esta engravidara.
(...) a entrada de Teresa d'Ávila na fábrica foi feita numa altura de reestruturação e acompanhada da admissão, para cargos de chefia, de uma série de oficiais dos comandos, que «pisavam tudo e todos» para fazerem valer as suas razões. «Os trabalhadores encolheram-se um bocado, e começou aí o declínio dos Cabos d'Ávila», lamenta, recordando que naquela altura os processos de despedimento surgiam diariamente, «até no meio judicial se comentava».
Teresa Ávila, foi suspensa das suas funções na sequência de uma decisão do tribunal, que considerou procedente uma providência cautelar interposta por uma tia gerente. 
Uma suspensão face à qual tentou introduzir na empresa pessoas da sua confiança, para assegurar o seu poder, o que os trabalhadores decidiram impedir, mantendo-se nas instalações. 
(In, «Avante!» Nº 1267 - 12.Março.1998)

UMA FREIRA DOS DIABOS, 19 Janeiro 1998. Aqui está o "célebre" trabalho jornalistico do «Tal e Qual», onde vem duas fotos de Teresa de Ávila vestida de freira (isto parece um filme). Quando eu vi a referencia a esta noticia num jornal Avante antigo, tratei logo de encomendar á Hemeroteca a fotocópia e ei-la aqui; para ficar na história da fábrica dos Cabos Ávila.

2008 - Noticia sobre o lançamento de um livro que denunciava as empresas que entravam com dinheiro para a PIDE, como dizia o outro isto anda tudo ligado; empresas,freiras, pides e etc.

Os negócios que se preparam ?



Fotos de um projecto para a zona da Fábrica dos Cabos Ávila. Não consegui 
saber mais informações sobre este projecto. Ponto final sobre os Cabos Ávila. 
Fonte imagens: www.skyscrapercity.com.